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Erros meus, má fortuna

por Pedro Correia, em 27.10.16

bob-dylan-52fe6be6-hero[1].jpg

 

Anda muita indignação à solta – até aqui no DELITO DE OPINIÃO – pela atribuição do Nobel da Literatura ao cidadão norte-americano Robert Allen Zimmerman, conhecido há mais de meio século pelo seu nome artístico: Bob Dylan.

Aplaudi o prémio desde a primeira hora e nenhum dos argumentos aduzidos contra a atribuição do Nobel 2016 me convenceu. O júri da Suécia, num gesto inovador, entendeu desta vez galardoar um escritor de canções. Se queremos atribuir-lhe um rótulo, este é o que mais se adequa a Bob Dylan, que encaminhou milhares de jovens em várias latitudes para a poesia ao som de música.

 

É de poesia que falamos, não de “letras”, como alguns mencionam com indisfarçável desdém. Não é preciso puxar do cânone: os monólogos interiores e os sinuosos labirintos estilísticos concebidos por Dylan são poesia. Mais qualificada do que a mediana produção poética de um Derek Walcott, o galardoado de 1992, sem escândalo aparente.

Alegam os críticos que a poesia de Dylan não vale um Nobel por emergir como subsidiária de outra arte ao ter sido escrita para fins musicais. Parece-me um argumento débil. Pela mesma lógica nunca o Nobel devia ter sido atribuído ao italiano Dario Fo ou ao britânico Harold Pinter, prolíficos autores de textos destinados a ser representados nos palcos. O teatro está para ambos como a música para Dylan. E ninguém contestou os prémios que receberam em 1997 e 2005. Ibsen e Lorca, dois outros mestres da arte teatral, também teriam sido dignos destinatários do Nobel da Literatura.

O teatro não os menorizou: engrandeceu-os.

 

Muitos esquecem que a Academia Nobel já distinguiu com este galardão muitos autores fora do padrão dominante, que pretende confinar a literatura à ficção e à poesia. Do historiador alemão Theodor Mommsen (1902) ao filósofo francês Henri Bergson (1941), do ensaísta britânico Bertrand Russell (1950) à jornalista bielorrussa Svetlana Alexeivich (2015). Sem esquecer que também Winston Churchill, vencedor em 1953, integra a lista dos premiados.

Serão as entrevistas de Svetlana Alexeivich mais dignas de encómios literários do que as narrativas musicadas de Dylan?

Julgo que não.

amalia-rodrigues-lianor-columbia[1].jpg

 

A poesia teve sempre uma forte ressonância oral: fez-se para ser recitada, declamada, cantada. Assim o comprovam as remotas rimas medievais – cultivadas por alguns dos nossos primeiros reis – e as estrofes trovadorescas. Sem esquecer os clássicos, de Dante a Yeats.

Toda a poesia de Camões, épica ou lírica, pode ser cantada. E muita já foi. Vale a pena lembrar o frémito de indignação que percorreu a intelectualidade pátria, em meados da década de 60, quando a grande Amália se atreveu a cantar Camões – como fez com tantos outros poetas, de Vinicius de Moraes a Alexandre O’ Neill.

Ela estava certa, ao contrário dos intelectuais que a consideraram indigna de intrepretar Lianor e Erros Meus com a sua voz incomparável. Estou convicto de que daqui a uns anos diremos o mesmo do júri que agora ousou distinguir Bob Dylan com o Nobel da Literatura.

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18 comentários

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De Pedro Correia a 27.10.2016 às 15:28

Em português, elegeria sempre Chico Buarque. Português, elejo Sérgio Godinho. Escritores de canções, como Bob Dylan.
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De Justiniano a 28.10.2016 às 10:20

Divergimos quanto ao Sérgio, não quanto ao Chico. As comparações de génios são sempre complexas e potencialmente falhas de justiça. Ainda assim, opino, Fausto é, sem dúvida, como literato e compositor, vinte vezes mais denso que o Sérgio. O Sérgio o confirmaria!! Impossível não gostar dos três!!
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De SS a 28.10.2016 às 14:41

Não há nada que se pareça com a obra de Fausto, que se assemelhe ou que o imite também. Que obra prima é a trilogia composta por "Por Este Rio Acima", "Crónicas da Terra Ardente" e "Em Busca das Montanhas Azuis"! Fausto é Fausto.
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De Justiniano a 28.10.2016 às 16:23

Sem dúvida, caro SS
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De Pedro Correia a 30.10.2016 às 22:42

Também aprecio Fausto. Mas acho-o muito parado há vários anos. Sérgio e Chico continuam por aí.

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