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Delito de Opinião

Era melhor deixar os traficantes a controlar o processo?

Luís Naves, 13.09.15

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Um leitor escandalizado com os meus textos achava que os refugiados são escorraçados na fronteira da Hungria e que a barreira de arame farpado serve para impedir a sua entrada. Esta ideia falsa circula nas redes sociais. Como podia isto ser verdade? Se entraram 180 mil, como é que foram escorraçados? Na realidade, os migrantes estão todos a entrar no espaço Schengen, em locais controlados, a que as autoridades chamam ‘hotspot’. Os traficantes saíram da equação, apesar de influenciarem motins através de telemóveis, o que leva a uma questão: o que é preferível, que o trânsito de refugiados pela Hungria seja controlado pelas autoridades ou pelas máfias?

Estive no hotspot mais relevante, em Roszke, vi o que ali se passava, tirei fotografias, falei com refugiados e com polícias, conheço a Hungria, mas muitos leitores desconfiam do que escrevo. Como jornalista, estive em duas outras situações humanitárias graves: esta é a pior. Os húngaros estão a tentar cumprir as elaboradas regras de concessão de asilo previstas em Schengen, tirando impressões digitais e levando vários dias a processar a papelada, o que significa que têm mais de 20 mil pessoas no seu território, em cada momento. A alternativa a tudo isto seria a extensão do controlo do tráfico até à fronteira austríaca e o caos nas entradas das nossas fronteiras ou o fim puro e simples da zona Schengen.

 

Estamos a assistir a uma campanha organizada que visa exercer pressão política sobre os países do grupo de Visegrad (Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia), que somam os votos da França no Conselho Europeu e que, antes da cimeira europeia, se recusam a aceitar quotas permanentes de refugiados geridas por Bruxelas. Está aqui em causa um conflito que opõe os chamados ‘países do leste‘ a alguns governos ocidentais que defendem a criação de uma política comum de asilo e de imigração.

As análises sobre esta crise nunca levam em consideração a política interna húngara, com a sua crispação peculiar; nem sequer as redes de traficantes; houve, por exemplo, centenas de detenções de suspeitos, que ninguém menciona. O tráfico humano através da Hungria foi praticamente neutralizado. A excepção são centenas de voluntários austríacos que, tontamente, vão à Hungria nas suas viaturas transportar migrantes, numa acção a que podíamos chamar ‘ taxismo de tráfico humanitário’.

 

Os comentadores deviam ponderar sobre o que escrevem e explicar qual é a alternativa: se a Hungria não é uma democracia, o que está a fazer na União Europeia? O que nos leva à estranha conclusão de que os húngaros devem ser expulsos da Europa ou que o seu governo legítimo deve ser substituído sem eleições. Se a barreira é a maneira incorrecta de controlar a fronteira de Schengen, qual é a maneira certa? Se os refugiados não são registados, devem então passar com toda a liberdade pelo território húngaro? Sendo assim, quem controla o espaço de livre circulação? Cumprem-se as regras ou vamos repor as fronteiras nacionais e acabar com uma das principais liberdades da UE? E aceitamos só refugiados ou também imigrantes económicos? E quais são os poderes de Bruxelas nas duas matérias? Os países com diferentes necessidades económicas perdem a soberania nas políticas de imigração? E nas fronteiras? E os padrões para ajuda aos refugiados, serão suecos ou portugueses? Havendo padrões diferentes, como serão mantidas as pessoas no local desfavorável?

A passagem dos refugiados nunca esteve em causa, o que está mesmo a ficar em causa é a estabilidade da União Europeia e o direito dos pequenos países de decidirem sobre o que acontece no seu território.

As quotas não vão funcionar por três razões: isto é apenas o início de uma migração em larga escala que pode durar anos e os activistas vão perder o entusiasmo; os sírios não querem vir para Portugal e logo que tenham os papéis de asilo, vão usar a liberdade de circulação e instalam-se em outros países; finalmente, as necessidades demográficas e de mão-de-obra da Alemanha são um caso único, pois já não há étnicos alemães no exterior; os ‘países de leste’, que também têm crises demográficas e economias a crescer depressa, querem satisfazer a suas necessidades de população adicional em países limítrofes, absorvendo étnicos polacos da Ucrânia ou étnicos húngaros da Sérvia e Roménia. Não havendo políticas comuns na matéria, têm todo o direito de fazer as suas escolhas.

 

Sei que escrever contra a generalidade dos noticiários é uma tarefa frustrante e que poucas pessoas vão ler estes textos sem preconceito. Peço desculpa por retirar espaço a outros autores do Delito, mas julgo que era importante escrever esta série (e dois textos no Observador). Considero urgente ajudar estas pessoas, descrevendo a dura e complexa realidade que testemunhei no local. Estamos perante o início de uma tragédia em larga escala e a Europa tem o dever de ajudar estes refugiados, sem ambiguidade ou hipocrisia, sem emoções dispersas, hesitações ou mitologias que nos dividam. Sou mau fotógrafo, mas gosto da foto que acompanha este texto: era um senhor muito simpático, afegão, com ar nobre e tranquilo. Espero que tenha a maior das felicidades na Europa.

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