Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




IMG_3872.jpg

 

Um leitor escandalizado com os meus textos achava que os refugiados são escorraçados na fronteira da Hungria e que a barreira de arame farpado serve para impedir a sua entrada. Esta ideia falsa circula nas redes sociais. Como podia isto ser verdade? Se entraram 180 mil, como é que foram escorraçados? Na realidade, os migrantes estão todos a entrar no espaço Schengen, em locais controlados, a que as autoridades chamam ‘hotspot’. Os traficantes saíram da equação, apesar de influenciarem motins através de telemóveis, o que leva a uma questão: o que é preferível, que o trânsito de refugiados pela Hungria seja controlado pelas autoridades ou pelas máfias?

Estive no hotspot mais relevante, em Roszke, vi o que ali se passava, tirei fotografias, falei com refugiados e com polícias, conheço a Hungria, mas muitos leitores desconfiam do que escrevo. Como jornalista, estive em duas outras situações humanitárias graves: esta é a pior. Os húngaros estão a tentar cumprir as elaboradas regras de concessão de asilo previstas em Schengen, tirando impressões digitais e levando vários dias a processar a papelada, o que significa que têm mais de 20 mil pessoas no seu território, em cada momento. A alternativa a tudo isto seria a extensão do controlo do tráfico até à fronteira austríaca e o caos nas entradas das nossas fronteiras ou o fim puro e simples da zona Schengen.

 

Estamos a assistir a uma campanha organizada que visa exercer pressão política sobre os países do grupo de Visegrad (Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia), que somam os votos da França no Conselho Europeu e que, antes da cimeira europeia, se recusam a aceitar quotas permanentes de refugiados geridas por Bruxelas. Está aqui em causa um conflito que opõe os chamados ‘países do leste‘ a alguns governos ocidentais que defendem a criação de uma política comum de asilo e de imigração.

As análises sobre esta crise nunca levam em consideração a política interna húngara, com a sua crispação peculiar; nem sequer as redes de traficantes; houve, por exemplo, centenas de detenções de suspeitos, que ninguém menciona. O tráfico humano através da Hungria foi praticamente neutralizado. A excepção são centenas de voluntários austríacos que, tontamente, vão à Hungria nas suas viaturas transportar migrantes, numa acção a que podíamos chamar ‘ taxismo de tráfico humanitário’.

 

Os comentadores deviam ponderar sobre o que escrevem e explicar qual é a alternativa: se a Hungria não é uma democracia, o que está a fazer na União Europeia? O que nos leva à estranha conclusão de que os húngaros devem ser expulsos da Europa ou que o seu governo legítimo deve ser substituído sem eleições. Se a barreira é a maneira incorrecta de controlar a fronteira de Schengen, qual é a maneira certa? Se os refugiados não são registados, devem então passar com toda a liberdade pelo território húngaro? Sendo assim, quem controla o espaço de livre circulação? Cumprem-se as regras ou vamos repor as fronteiras nacionais e acabar com uma das principais liberdades da UE? E aceitamos só refugiados ou também imigrantes económicos? E quais são os poderes de Bruxelas nas duas matérias? Os países com diferentes necessidades económicas perdem a soberania nas políticas de imigração? E nas fronteiras? E os padrões para ajuda aos refugiados, serão suecos ou portugueses? Havendo padrões diferentes, como serão mantidas as pessoas no local desfavorável?

A passagem dos refugiados nunca esteve em causa, o que está mesmo a ficar em causa é a estabilidade da União Europeia e o direito dos pequenos países de decidirem sobre o que acontece no seu território.

As quotas não vão funcionar por três razões: isto é apenas o início de uma migração em larga escala que pode durar anos e os activistas vão perder o entusiasmo; os sírios não querem vir para Portugal e logo que tenham os papéis de asilo, vão usar a liberdade de circulação e instalam-se em outros países; finalmente, as necessidades demográficas e de mão-de-obra da Alemanha são um caso único, pois já não há étnicos alemães no exterior; os ‘países de leste’, que também têm crises demográficas e economias a crescer depressa, querem satisfazer a suas necessidades de população adicional em países limítrofes, absorvendo étnicos polacos da Ucrânia ou étnicos húngaros da Sérvia e Roménia. Não havendo políticas comuns na matéria, têm todo o direito de fazer as suas escolhas.

 

Sei que escrever contra a generalidade dos noticiários é uma tarefa frustrante e que poucas pessoas vão ler estes textos sem preconceito. Peço desculpa por retirar espaço a outros autores do Delito, mas julgo que era importante escrever esta série (e dois textos no Observador). Considero urgente ajudar estas pessoas, descrevendo a dura e complexa realidade que testemunhei no local. Estamos perante o início de uma tragédia em larga escala e a Europa tem o dever de ajudar estes refugiados, sem ambiguidade ou hipocrisia, sem emoções dispersas, hesitações ou mitologias que nos dividam. Sou mau fotógrafo, mas gosto da foto que acompanha este texto: era um senhor muito simpático, afegão, com ar nobre e tranquilo. Espero que tenha a maior das felicidades na Europa.

Tags:


13 comentários

Sem imagem de perfil

De IsabelPS a 13.09.2015 às 14:22

Pela minha parte, agradeço-lhe muito o esforço de remar contra a maré da preguiça mental e emocional. É evidente que isto é uma migração em larga escala que não se compadece com amadorismos. Está bem que se trata de uma pequena percentagem dos cidadãos deslocados que fogem destes países em guerra e que, na sua maior parte, se refugiam nos países limítrofes. Mas estamos nós preparados para os acolher nas mesmas condições? Não me parece, e espero que não. Mas é a própria diferença entre aquilo que a região mais rica da terra considera como condições mínimas de vida e aquilo que na Jordânia, no Egipto, na Turquia são as condições de vida dos refugiados (e, eventualmente, da maioria da população) que vai tornar esta pressão insustentável. Espero que antes de as boas almas se cansarem de ajudar alguém tenha encontrado uma solução mais estruturada. Não faço ideia qual.
Imagem de perfil

De Andy Bloig a 13.09.2015 às 16:07

Aqui está um texto excelente. Pena é que existam tão poucas pessoas a acreditar nisto.
Toda a gente que fala em controlar quem passa as fronteiras, é chamada de racistas, xenófobos , não solidários e assassinos de crianças mal nutridas (em mais de 60 horas de imagens que já passaram nas televisões, ainda não vi ninguém malnutrido mas, esse é outro caso). Depois há os extremistas que querem fechar as fronteiras e aproveita essa onda para fazerem-se ouvir.

E o povo idolatra os que dizem que devemos remover as fronteiras e deixar passar estes "desgraçados todos que precisam de ajuda". É engraçado é que esses mesmos ficam intrigados quando viajam e lhes pedem a documentação de identificação... Porque existe uma coisa que são as normas de circulação de pessoas. Se estes "refugiados" se estão pouco lixando para elas, não se querem registar, não possuem documentos de identificação, não dizem para que países se estão a deslocar (sim sim, fala-se muito na Alemanha, até que na passada quarta-feira, chegaram 10000 pessoas e 7500 seguiram para a Dinamarca, uns a caminho dos países escandinavos, outros a caminho da Inglaterra).

Depois temos o muro, 99% dos que estão a criticar a construção daquele muro, não sabem que existem 2 muros muito maiores, aqui muito perto de nós. Melilla e Ceuta. Muros que foram financiados, a 75%, pela União Europeia, para permitir o controle das pessoas que entram em território espanhol. Por isso é giro ver pessoas a criticar a construção do muro, como sendo um "crime contra a humanidade".
Imagem de perfil

De cristof a 13.09.2015 às 16:39

Excelente sr Naves; não sabia que é jornalista, mas alguns colegas seus,envergonham o jornalismo, quando se contentam em seguir o mainstream anglosaxonico, que tem a suas agendas próprias.
continue sempre que possa.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 13.09.2015 às 16:58

"Sei que escrever contra a generalidade dos noticiários é uma tarefa frustrante e que poucas pessoas vão ler estes textos sem preconceito."

Pois é. Ir contra a loucura construída pelo jornalismo de cultura marxista que domina as redacções.
Mas tudo muda. O patriotismo era fascista e xenófobo há 10 anos atrás. Hoje já é bom, a extrema esquerda a começar no PCP e no MRPP fartam-se de usar a palavra.
No entanto suspeito que com a vaga de refugiados , volte a deixar de ser bom.

Não se preocupe, a maioria desses que o criticam irão mudar de opinião da noite para o dia.
Vai é ser uma sensação bizarra quando se sente que todos concordam como se estivessem nessa posição.

A Alemanha já parece ter mudado de opinião, bem mais rápido que eu esperava, vai fechar a fronteira com a Áustria e suspender Schengen.
http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/germany/11861966/Germany-to-reinstate-border-controls-as-country-struggles-with-influx-of-refugees-live.html

Sem imagem de perfil

De lucklucky a 13.09.2015 às 17:24

Da censura jornalista.

Ninguém escreve que a maioria dos refugiados são homens em idade de combater.

Ninguém claro extrapolará que a maioria dos crimes numa sociedade são sempre realizados por homens em idade de combater.
Sem imagem de perfil

De Chico a 13.09.2015 às 20:19

Pela minha parte, já disse quase tudo o que penso, no seu outro poste "A política interna também explica alguma coisa"
Por acaso, ainda agora, deixei lá um 2º comentário sobre uma notícia que li há menos de uma hora:
Ministro alemão admite "fracasso completo" da UE no controlo de fronteiras.
O responsável alemão pede agora medidas eficazes para parar afluxo de refugiados.
Diário Económico - Há 2 horas
Sem imagem de perfil

De Nelson a 13.09.2015 às 22:51

Caro Naves, estou muito distante da realidade que vive hoje a Europa por conta do drama dos refugiados. Minha percepção está muito longe de conhecer exatamente o dia a dia das pessoas que tentam fugir de uma situação desastrosa e, às vezes, encontram outra pior. Todavia, não posso deixar de sentir, partilhar e me solidarizar, apesar da distância, com o sofrimento dessas pessoas.
Sei que seu posicionamento, contrário a determinadas correntes, funciona como contraponto aos meios tradicionais de comunicação. Permaneça assim...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.09.2015 às 23:17

Boa série de reportagens e comentários, Luís. Com a enorme vantagem, sobre os activistas de sofá, de serem feitos com conhecimento da situação concreta no terreno.
"A passagem dos refugiados nunca esteve em causa, o que está mesmo a ficar em causa é a estabilidade da União Europeia e o direito dos pequenos países de decidirem sobre o que acontece no seu território." Palavras tuas, que subscrevo.
Curiosamente, alguns dos que te contestam costumam estar na primeira linha da crítica à UE por desrespeitar as soberanias nacionais. Mas eis que, quando há estados-membros a aplicar medidas que consideram de estrito interesse nacional, as mesmíssimas vozes fazem-se escutar em contestação intransigente desse exercício de soberania.
Sem sequer repararem na contradição em que tombam.

Os efeitos perversos da política de portas escancaradas são facilmente previsíveis. Desde logo, o crescimento de movimentos extremistas e xenófobos um pouco por toda a Europa. Depois, uma sensação crescente de insegurança pois é fácil prever que o chamado 'estado islâmico' tem capacidade para infiltrar estas correntes de emigrantes que não têm estado sujeitos a controlo de espécie alguma.
Finalmente, tudo isto acabará por condicionar seriamente um dos pilares da construção europeia, que é a liberdade de circulação. A notícia do dia aí está, a confirmar estes receios: a Alemanha acaba de suspender o Espaço Schengen após mais de 60 mil refugiados terem chegado só à Baviera desde 31 de Agosto. O exemplo alemão será repetido por outros estados. E lá virão novamente os indignadinhos de sofá clamar contra a "repressão" e a "desumanidade" na UE. Os mesmos que até hoje não proferiram o mais leve sussurro contra a brutal ditadura de Assad, responsável por um banho de sangue na Síria: 240 mil mortos já confirmados.
Sem imagem de perfil

De s o s a 13.09.2015 às 23:35

claro que o assunto é complexo, sendo só mais uma crise de assedio á europa, mal se vê o fim desta invasao, a menos que sejam reprimidos. Também nao sei como podem ser reprimidos, depois de já estarem dentro do espaço comum. Que saibamos ainda nao foram encontrados mecanismos eficazes de os devolver á procedencia. "De os " refiro-os e certamente os leitores já me estao a considerar pior que ao Luis Naves. Mas eu só sei que nada sei, e nao sou chamado a distinguir entre um refugiado e um migrante. Nao sou, nem quero. Obviamente, apesar do que estou a escrever parecer o contrario, também desejo o melhor quer para estes que estao dentro do espaço, quer para os que nunca virao. Mas o luis fala em natalidade e, acho, carencia e mao de obra nalguns países. O que confunde, se nao é esse o fito do Luis. Desde logo existem dentro do espaço comum, muitos milhoes de cidadaos "naturais" que tomara poderem, conseguirem ir trabalhar para os paises do norte. Do que sei, a unica coisa que vejo clarinha : está montado um milionario negocio de recepçao desses migrantes, negocio que o estado vai pagar abundantemente. Simples, mais nao há : nao querem os candidatos conhecidos a receberem os tais estrangeiros, antes adoptar os sem abrigo nacionais ???
Imagem de perfil

De Bic Laranja a 14.09.2015 às 01:31

Gosto dos seus relatos.
Desconfio dos noticiários. Têm um pendor demasiado óbvio.
Cumpts.

Comentar post


Pág. 1/2



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D