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Epidemias ontem e hoje

por Cristina Torrão, em 26.11.20

A Sociedade Medieval Portuguesa.jpg

Durante a peste de Coimbra, em 1477-79, resolveram os do Porto estabelecer um cordão sanitário em torno da sua cidade, que vedava a entrada a todos os que viessem de Coimbra. Tendo-se notado casos de peste numa rua portuense, em 1486, foi resolvido entaipar a dita rua e isolar os respectivos moradores. Outras vezes, em princípio de epidemia levavam-se todos os doentes para lazaretos especiais fora dos muros da cidade. Havendo notícia de peste no estrangeiro, impedia-se a entrada nas fronteiras ou submetiam-se a quarentena passantes e navios.

(…)

Isto sem falar de precauções de carácter geral: abstenção de prazeres sexuais; moderação no comer e no beber; «evitar o banho de cada dia»; fuga a ajuntamentos e contactos com pessoas; uso e abuso da água com vinagre para lavar as mãos, a cara e o interior das casas; permanência dentro da habitação tanto quanto possível, etc.

(…)

Recomendava-se, em qualquer caso, que se bebessem fortes doses de vinagre e líquidos avinagrados.

(pp. 122 a 124)

 

Leríamos este texto de modo diferente, se o tivéssemos feito há um ano. Teríamos compaixão pelas pessoas medievais e dávamos graças a Deus (ou a quem se queira) por vivermos numa época livre de pestes e epidemias. Aliás, este ponto de vista é latente em certas passagens deste capítulo, dedicado à higiene e à saúde, sem pôr em causa a excelência de A. H. de Oliveira Marques, falecido em 2007, o primeiro historiador português a publicar um livro sobre o quotidiano medieval, nas suas várias facetas.

Ao ler o texto hoje, vemos as semelhanças com um tempo que julgávamos morto e enterrado. Nem sequer faltava a recomendação de beber líquidos julgados eficazes, como “fortes doses de vinagre e líquidos avinagrados”. E, se o ingerir de tanto vinagre pudesse provocar outros problemas de saúde, não seria com certeza tão perigoso como a lixívia…

Enfim, anedotas à parte, o certo é que também se recomendavam mezinhas que, muitas vezes, eram fatais. E resta-nos o consolo de viver num tempo, em que se sabe o que são vacinas e se dispor de meios para as obter.

Mas será que as já existentes trarão o efeito desejado?

 

Dados sobre a obra citada: A SOCIEDADE MEDIEVAL PORTUGUESA, A. H. de Oliveira Marques (A Esfera dos Livros, 6ª edição: Setembro de 2010)


16 comentários

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De Anónimo a 26.11.2020 às 11:37

em princípio de epidemia levavam-se todos os doentes para lazaretos especiais fora dos muros da cidade

Hoje há nos arredores de Aveiro um conjunto de povoações com o nome "Gafanha" (Gafanha da Nazaré, Gafanha da Encarnação, etc), que eram os locais para onde eram ostracizados os gafos, isto é, os leprosos.
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De Anónimo a 26.11.2020 às 17:46

As Gafanhas, as dez povoações dos concelhos de Vagos e Ilhavo, nada têm a ver com gafos/leprosos. A doença é a gafeira.
As Gafanhas foram povoadas nos finais do século XVII, inicialmente por gente de Vagos e depois de Ílhavo à procura de terra para se fixar. Por os terrenos serem muito áridos e cheios de juncos tiveram que gadanhar, cortar com gadanha, todo aquele "matagal" que depois fertilizaram com o moliço da ria.
O mais provável foi o gadanhar se transformar em gafanhar até por haver grandes bandos de gafanhotos nesses locais.
E assim apareceram os gafanheiros ou gafanhões, que, pelas mesmas dificuldades como teriam tido inicialmente, começaram a emigrar no inicio do século XX para os EUA, Brasil e principalmente para a Venezuela.


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De Anónimo a 01.12.2020 às 02:59

Em 1947 o Hospital-Colónia Rovisco Pais, ou Leprosaria Nacional, foi construído na Tocha, concelho de Cântanhede, por ser nessa região (Gândara) que mais grassava a lepra. Ora, a Gândara é a região litoral que se estende da Serra da Boa Viagem (Figueira da Foz) a Vagos e é muito possível que as suas caraterísticas propiciassem a doença (lembro-me de equipas móveis do Hospital Rovisco Pais visitarem regularmente, nos anos 50, familiares de doentes internados). Se as Gafanhas, que se seguem à Gândara para norte, estiveram isentas da doença, desconheço, mas admito que não, pois ambas as regiões tiveram os mesmos modos de formação e ocupação, e são contíguas.
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De Cristina Torrão a 26.11.2020 às 19:01

Os locais para onde se levavam os leprosos, que realmente eram conhecidos por gafos, eram as gafarias.
Fica a questão esclarecida.
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De balio a 26.11.2020 às 11:40

será que as já existentes trarão o efeito desejado?

O que vai ser engraçado é que a União Europeia já se comprometeu a gastar uma data de dinheiro para comprar três vacinas produzidas por três diferentes empresas ocidentais, mas no fim irá acabar por concluir que a melhor e menos trabalhosa vacina de todas é a russa.
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De Carlos Sousa a 26.11.2020 às 13:10

Realmente evoluímos muito, em 500 anos passámos do vinagre para o álcool gel...
Parece que não dá é para beber, acho que mata o hospedeiro e não o vírus.
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De V. a 26.11.2020 às 14:22

Pois — a ideia de que esta gente é diferente do Salazar ou diferente dos deprimentes corregedores de província que tragicamente reencarnaram nos "autarcas", é uma noção que tenho andado a combater há muito tempo. Não são. São iguaizinhos. Aliás, são piores — porque não têm noção de si próprios.
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De Adalberto Freamunde a 26.11.2020 às 16:58

Bem me queria parecer que este jeito avinagrado com que muita gente encara a covid-19 vinha de algum lado...
Será que nessa altura usariam um pano na cara com o nariz de fora, ou pendurado numa orelha?
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De Cristina Torrão a 26.11.2020 às 19:05

Em geral, não se usava protecção na cara. Os médicos que tratavam os doentes da peste negra começaram a usar umas máscaras parecidas com bicos de pássaro, mas só a partir do século XVII. Ou seja, essas máscaras não existiam na Idade Média, como erroneamente se difundiu. A forma de bico de pássaro devia-se a ter espaço para que se pusessem lá dentro ervas aromáticas, ou materiais perfumados, pois acreditava-se que a peste era difundida por ares pestilentos.
https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9dico_da_peste
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De Anónimo a 26.11.2020 às 20:24

Nada disso. Essas máscaras com bico foram inventadas na Roma antiga, por um indivíduo chamado Julius Isidrus, antepassado de um conhecido apresentador de televisão.
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De Zé Ignorante a 26.11.2020 às 22:23

Gostava de perceber porque é que em em 1477 já se evitava o contacto com os doentes. Sabia-se que transmitiam a doença a quem era saudável? Mas como uma vez que não se sabia da existência de micróbios nem bactérias e muito menos de vírus.
Se alguém me esclarecer ficarei muito contente!!
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De Cristina Torrão a 27.11.2020 às 15:03

Realmente, não se sabia da existência de bactérias e vírus, mas já se intuía que, de alguma maneira, os doentes pudessem infectar outras pessoas. Pensava-se que a peste fosse provocada por "ares pestilentos", por isso, se pensava já que talvez a respiração de um doente pudesse infectar. Facto é que quase nenhum médico da altura (chamados "físicos") se predispunha a tratar de gente com peste. Muitas famílias doentes ficavam sozinhas, isoladas em casa, a definhar, sem que ninguém tratasse delas. Até faltava quem enterrasse os cadáveres. E os de mais posses, sabendo de casos de peste na cidade onde viviam, abalavam para o campo, ou para outro sítio, ainda livre da doença (o papa saía logo de Roma, assim que surgissem casos de peste, e o mesmo fazia a família real portuguesa, caso Lisboa se tornasse local de surto).
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De Zé Menos Ignorante a 27.11.2020 às 17:20

Obrigado.
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De Antonio Vaz a 26.11.2020 às 23:09

Não creio que até haja substanciais diferenças entre o Homem do século XV e o de Hoje, quanto ao que toca a reagirem perante qualquer ameaça que os ultrapassa em todos os sentidos: talvez os mais fracos de espírito de então encontrassem mais reconforto na religião do que os de Hoje, que parecem preferir as teorias de conspiração mas lá está, como todos nós sabemos, o diabo até se apresenta sempre com múltiplas faces...
Na verdade, na sua essência, o actual berrar de que é apenas uma gripezinha não passa de apenas uma versão pós-verdade do então berrar medieval de que deus resolveu castigar os pecadores… e claro, ignorante como ele é, por arrastão, até permitiu apanhar uns quantos inocentes. É a impotência do Homem, nesta sua redução à nova condição de insignificante, como a de qualquer outro elemento do nosso planeta, que hoje se manifesta nesta crise pandémica… e a Cristina Torrão até nem deixou de criar um parágrafo apenas para mais uma dessas nossas impotências: «Mas será que as (vacinas) já existentes trarão o efeito desejado?»
Bom, na verdade, só ela, a vacina (e claro, até há muitas nessa verdadeira vergonhosa corrida a que se assistiu de quem seria o primeiro a apresentá-la e, depois, até na outra a propósito do seu percentual mais elevado de eficácia… e quando nessa corrida vergonhosa até se arriscava a descobrir uma 100,01% mais eficaz do que todas as outras, o objectivo dos adversários, até passou a ter a ver com o seu preço e aí, até sou o primeiro a apoiar essa nova “guerra fria”: o Putin já garantiu que a “sua” vacina, agora com mais 3% de garantia do que quando apareceu logo a seguir à 1.a vacina ocidental, é (vai ser sempre) a mais barata… mas para já, do Ocidente, sobre a matéria, o silêncio é ensurdecedor: o Capitalismo versão Putin nada tem a ver com o “outro”… no Ocidente defendemos a liberdade…) mas como ia dizendo: só uma vacina poderá ser o ponto de partida para o regresso ao que vivíamos em Dezembro de 2019 mas lá está, de tudo o que tenho lido, visto e ouvido ultimamente, uma vez mais, os Homens parecem não ter aprendido nada... o Ocidente prepara-se para tratar a questão da vacina, como sempre, com o seu habitual “eu primeiro e vocês que se desemerdem como poderem”. Claro, a lógica é sempre a mesma e até parecem convencidos que, uma vez mais, podem criar muros contra o “bicharoco” como os que criaram contra a “pobreza” do resto do mundo (que, evidentemente, até nem tem nada a ver com o muro do Trump… é que, como sabemos, qualquer Merkel ou Macron é um perfeito exemplo do nosso superior legado cultural de séculos que, apesar de tudo, até esteve na origem do Trump mas nós, nunca separamos crianças dos seus pais… apenas as deixamos morrer algures em mares que estão contra nós e as devolvem como provas da nossa superioridade moral, ética, civilizacional… etc.)
Já lá vai o tempo, num passado que entretanto até já esquecemos, em que o discurso oficioso na Europa dizia que o “bicharoco” era apenas mais um daqueles problemas que a China, ou a África, têm tendência a desenvolver devido à sua condição barbárie (eles ainda estão naquela de que tudo o que tem 4 patas é para comer! Nós, como com 4 patas já só quase só temos os cães, gatos, ratos, etc…) mas depois lá está, há um maldito de um italiano que vai a uma feira no “inferno” e, uns dias depois, um português que vai a uma outra, na altura apenas no purgatório mas a caminho de ser um inferno… e acabamos hoje, entre uns dias memoráveis de sol numa qualquer praia ou a assistir uns “surfers” nas suas proezas, para já não falar de toda a adrenalina da F1 reclamando contra qualquer quarentena porque não somos a China, “Cuba, Venezuela ou a URSS” mas orgulhosamente, ao contrário da China com mais de 6 mil novos infectados, apenas mais 2,3% do que no dia anterior, e 85 novas vítimas mortais…
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De João Pedro Pimenta a 26.11.2020 às 23:42

O jardim de São Lázaro, no Porto, um legado do romantismo do Séc. XIX, tem esse nome devido ao lazareto que ali havia em épocas mais sitantes, já extra-muros. E em Lisboaos lazaretos situavam-se na margem sul.

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