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Entradas de leão

por Luís Naves, em 04.06.14

Existe na sociedade portuguesa uma dissociação entre o país político e o país real, como existe um fosso entre a Europa real e aquela que nos venderam na campanha. O eleitorado disse que quer mudança sem loucuras e tornam-se agora mais evidentes as limitações do voto de protesto: numa reportagem na TV, Marinho e Pinto tentava juntar-se ao grupo dos Verdes no Parlamento Europeu, mas a reunião correu da pior forma.

Estes grupos parlamentares têm agendas estabelecidas e não são ingénuos, pois conhecem as posições dos candidatos. Os Verdes, por exemplo, são federalistas, enquanto o MPT de Marinho e Pinto teve uma campanha sobretudo de carácter populista e de ruptura com a Europa tradicional liderada pelas potências. Este episódio constitui um pequeno exemplo da forma como alguns dirigentes do País habitam ilusões e acreditam na própria retórica.

 

Durante os três anos do resgate, ouvimos mil vezes a indignação dos interesses especiais mais afectados e a comunicação social participou de forma pouco crítica na criação do mito segundo o qual a sociedade estava em plena dissolução. Nada disto se confirmou: a economia recupera timidamente, o desemprego começa a cair. Dizem que o dinheiro ainda não chega ao bolso dos portugueses, mas há por todo o lado sinais de que a vida se restabelece, por exemplo, multidões a comprarem bilhetes caros para ouvir rock, jogos de futebol sem bancadas vazias, improváveis vendas de automóveis e a feira do livro a abarrotar de gente. Afinal, não veio o fim do mundo.

Desmentindo este País real que tenta reerguer-se, os políticos mergulharam de novo nas suas bolhas de discussão estéril. A troika saiu há três semanas e as instituições já andam entretidas nas bizantinas discussões jurídicas, embora o povo se preocupe muito mais com a inflamação no tendão rotuliano de CR7. Uma boa imagem: há uma inflamação crónica no País, que nos impede de enfrentar os problemas recorrentes, sempre bem escondidos pelas entradas de leão que, começando por prometer partir tudo, afinal aprendem lá fora que as elites portuguesas não se enxergam.

 

Aproveito este meu primeiro post para saudar todos os membros do Delito e, com muita amizade, agradecer o convite do Pedro Correia. 

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2 comentários

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De da Maia a 05.06.2014 às 14:43

Caro Luís Naves,
já me tinha esquecido de como era normal discordarmos.
Não discordo dos sinais de não-crise, eles existiram mesmo durante a parte mais acentuada da crise, até porque a crise não afectou todos da mesma forma.
A crise é uma mistura entre uma degradação real e uma degradação projectada.
A degradação real, vista no dia-a-dia, sempre me pareceu muito menor do que a projectada pelos media... mas isso depende muito dos círculos mais próximos, e não evita a outra projecção - a projecção de futuro.

A pior crise é a crise de expectativas, o reduto às projecções do dia-a-dia, o simples encolher porque não se pode ver mais longe.
Poderia até ter encomendas de centenas de milhares de Maseratis (o carro do momento aqui no Delito), isso não traduzia uma melhoria da economia, traduzia um prolongar da alucinação.
O que é objectivo, face aos dados, é que o sistema económico não tem os seus equilíbrios feitos. Não tem entre trabalhadores e empregadores. Não tem entre estado e privados. Não tem entre jovens e aposentados. Não tem entre as imposições europeias e externas e autonomia interna. Nem sequer me parece ter na balança comercial, porque continuamos a importar muito mais do que exportamos... ainda que se pretenda iludir o contrário.
Essa é que é a crise. O resto é uma visão circunstancial do presente.
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De Luís Naves a 05.06.2014 às 15:59

A crise que nos venderam não é bem a que existe e não há crises eternas. A inversão da economia já dura desde o ano passado e está a ser criado emprego, embora ainda devagar. São factos. E não me referia à compra de Maserattis , mas a sinais concretos: os restaurantes iam todos fechar por causa do IVA, mas os melhores estão cheios, o mercado imobiliário tem bons indicadores no arrendamento, a bolsa está numa euforia (talvez um pouco especulativa, quem sabe?), as exportações continuam a subir e tudo isto desafia a narrativa dominante nos media.

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