E ele a dar-lhe, insiste no erro. Aqui não existe nenhum anti-semitismo, há um conflito entre Orbán e Soros. Quanto a Horthy, foi derrubado no final de 1944 pelos alemães e por um grupo radical fascista chamado Cruz de Flechas, que desatou a matar judeus, eliminando metade da comunidade judaica e também ciganos (só judeus, morreram mais de 400 mil, mas sobreviveram outros tantos, porque os facínoras tiveram pouco tempo para realizar o trabalho). Na realidade, Horthy adiou o Holocausto na Hungria e talvez tenha evitado um cenário bem pior; o almirante adoptou leis anti-semitas, é verdade, mas aplicando-as de forma relutante e incompetente, por isso foi derrubado pelos nazis; protegeu pessoalmente muitos judeus e ordenou aos seus militares de confiança que protegessem judeus das elites; cometera antes o erro de se aliar à Alemanha nazi, foi copiosamente derrotado na Rússia e acabou detido pelos alemães, também ele deportado, mais a família, e feito refém num campo de concentração (dos mais suaves). Horthy era um aristocrata ultra-conservador, católico e admirador de Salazar. Quando o Holocausto se abateu sobre a Hungria, muitos judeus foram salvos por gente corajosa, incluindo uma família que escondeu em sua casa um jovem judeu chamado George Soros e que, muitos anos depois, foi tratada com desprezo pelo milionário. Dois diplomatas portugueses, agindo com conhecimento de Lisboa, também ajudaram a salvar vidas. Depois da guerra, capturado pelos ingleses, Horthy não foi julgado nem fuzilado, passou o resto da sua vida no Estoril, com a família sobrevivente, em tranquilo exílio, protegido pelos ingleses, com quem tentara fazer um acordo antes da queda. Era homem daquele tempo, aliás, do tempo anterior: quando declarou guerra aos EUA, já sob pressão alemã, o funcionário americano que recebeu a declaração ficou alarmado, julgando que se tratava de uma perigosa nação naval, pois era liderada por um almirante e, portanto, devia ter uma frota. Horthy morreu em Portugal e esteve sepultado muitos anos no cemitérios dos ingleses, em Lisboa. Não deve ser confundido com as forças verdadeiramente genocidas de extrema-direita, cujos herdeiros espirituais ainda existem, na forma de um partido (esse sim perigoso), o Jobbik, que já vi na imprensa internacional descrito como um grupo de gentis democratas, quase intelectuais, em que se depositam esperanças de que sejam capazes de derrubar a situação. Orbán não tem nada a ver com esta extrema-direita, sendo ele próprio conservador, não pode deixar de homenagear a figura melancólica e derrotada do almirante, quinta-essência de uma nação antiga, com o seu velho orgulho nacional.
O conflito a que se refere, portanto, não tem nada a ver com anti-semitismo. Isto é uma questão interna em que um dos lados, o sr. Soros, sendo judeu, reclama ser atacado por motivos raciais. Israel, como é evidente, não se mete neste assunto. Como há eleições em Abril, resta pouco tempo para derrubar Viktor Orbán, cujo crime, esse sim gravíssimo, foi o de aplicar políticas heterodoxas contrárias ao novo espírito financeiro, criando um imposto para bancos e esfolando as empresas que dispunham de rendas excessivas após privatizações corruptas, ao mesmo tempo que se recusava a cortar nas pensões, a despedir milhares de trabalhadores ou a baixar os salários. O que me espanta é que pessoas de esquerda não tentem estudar este caso. A estratégia funcionou (pleno emprego, crescimento asiático, investimento externo), e isso é imperdoável para os senhores do capital e, com estranheza minha, para os senhores da Comissão Europeia, que parecem estar ao serviço de interesses maiores. Orbán também está na linha da frente em outro conflito, sobre o equilíbrio de poder na União Europeia, neste caso aliado à Polónia, que deseja uma fatia mais substancial da influência sobre as instituições comunitárias e recebe em troca um tratamento que se dispensa geralmente a pequenos países irrelevantes. A Polónia devia ter sido uma das vencedoras da II Guerra Mundial, mas parece destinada a sofrer grandes humilhações. Enfim, essa é outra história. Em relação ao assunto do post, o Sérgio está equivocado e, como sugere Daniel Marques, devia escrever sobre os assuntos que domina, e são muitos.