Então ninguém fala da Finlândia?
Quando esta manhã dei comigo a olhar para o resultado das eleições na Finlândia, país que vai a caminho do quarto ano de recessão, cujo rating baixou, que tem assistido a um aumento dos custos do trabalho, a uma diminuição da sua população e ao esvaziamento de algumas empresas-bandeira, não tendo uma pesada herança socialista, só pensei o que faria o nosso Presidente da República se fosse o Presidente da Finlândia. Recorde-se que a Finlândia tem um sistema parlamentar unicameral, que a sua Constituição foi revista em 2000, que também aí vigora a representação proporcional com recurso ao método de Hondt e que o partido mais votado nas eleições obteve 21,1% dos sufrágios válidos, correspondentes a 49 deputados num Parlamento de 200.
Se em Portugal há quem diga que o país é ingovernável sem um entendimento entre os principais partidos, e se o Presidente da República não está disposto a dar posse a um governo minoritário, que diriam da nossa democracia se acontecesse verificar-se entre nós uma situação idêntica à da Finlândia, com um sistema multipartidário bastante fragmentado e onde se prevê que as negociações para a formação do próximo governo durem várias semanas?
Para os que apregoavam o exemplo nórdico, à direita, e se preocupavam tanto em ter sempre um orçamento aprovado a tempo e horas, num país arrumadinho e obediente, às direitas, os resultados das eleições finlandesas e a abertura de mais uma frente de incerteza na Europa deveria ser motivo de preocupação. Não é por nada, mas uma situação destas é cada vez mais um cenário possível em Portugal para depois do Verão.
Para Cavaco Silva, que teimosamente recusou antecipar as eleições para se proteger da borrasca, seria um final de segundo mandato em grande, antes de ir tratar dos medronheiros. Um final em beleza a coroar a sua brilhante passagem por Belém.

