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"Enquanto há língua há esperança"

por Isabel Mouzinho, em 14.04.15
 

O Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras foi hoje demasiado pequeno para acolher todos os que quiseram estar presentes no Fórum/Debate pela defesa da Língua Portuguesa e contra a aberração do AO de 1990.

Durante mais de três horas foram muitos os escritores, jornalistas, professores e alunos dos ensinos universitário e secundário, tradutores, intérpretes, cidadãos, que se manifestaram contra este aviltamento da língua e as suas consequências. Foram muitos, de igual modo, os que não podendo estar presentes, fizeram chegar a sua opinião e adesão à iniciativa, como João Braga, Bagão Félix, ou Garcia Pereira, por exemplo. Naturalmente, Vasco Graça Moura foi  um nome muito citado. Nada mais justo! É por isso que o título deste post lhe presta também homenagem, citando as suas palavras, sempre certeiras.

Na impossibilidade de dar conta de tudo o que ali que foi dito, nas mais diversas e pertinentes intervenções, e enquanto aguardamos que o filme do encontro chegue ao Youtube, aqui fica a moção hoje aprovada:

O chamado "Acordo Ortográfico" ("AO") contradiz-se já na sua designação, porque nem é acordo (só válido se ratificado por todas as partes assinantes) nem ortográfico (uma vez que o seu texto prevê a existência de facultatividades). Implementado sem discussão pública, contra o parecer de conceituados linguistas e docentes de língua e literatura portuguesa, só por via de uma imposição autoritária é que tem sido possível a sua adopção, nunca consequente devido à destruição de uma normatividade articulada com a herança etimológica.

Após três anos e três meses da sua imposição no ensino e na administração Pública, os resultados estão à vista, traduzindo-se numa arbitrariedade de cortes de consoantes mesmo quando são pronunciadas. O chamado "AO" falhou assim os seus autoproclamados objectivos, nomeadamente a unificação das variantes do Português e uma alegada "simplificação" que corresponde a uma total insegurança ortográfica.

Por isso, os cidadãos reunidos no Fórum organizado por um grupo de docentes e alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 14 de Abril de 2015, exigem a imediata suspensão da obrigatoriedade do uso do "AO" nas escolas e na Administração Pública, bem como a organização de um referendo cujos resultados reflictam o modo como todos os utentes da língua pensam qual a opção ortográfica que melhor corresponde a um uso sustentado da mesma, no quadro das línguas europeias da mesma família.

Enfim, por enquanto, a todos quantos gostamos suficientemente da nossa língua para não poder aceitar vê-la assim maltratada e destruída, e colaborar nisso, resta-nos o direito à objecção de consciência e a resistência activa a esta ignomínia. Por mim, sei muito bem o que fazer; e manter-me-ei fiel àquilo em que acredito.

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40 comentários

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De Luís Lavoura a 15.04.2015 às 09:08

a organização de um referendo

Num país em larga medida de analfabetos vai-se organizar um referendo sobre a ortografia! Isto é mesmo ideia de tansos!
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De Costa a 15.04.2015 às 13:57

Talvez você queira rever essa sua posição, Lavoura. É que é precisamente por este ser um país "em larga medida de analfabetos" - funcionais pelo menos - que o AO90 tem avançado como fogo em mato seco (que me desculpem aqueles que eu acompanho na rejeição do acordo; serei bem mais pessimista que grande parte deles).

Analfabetos, rigorosamente indiferentes - quando não energicamente avessos - à literatura, à cultura, à história, à instrução e educação; limitada a ortografia que praticam à assinatura do seu nome ou à aposição do seu endereço e pouco mais num formulário oficial, em regra suplicando favores do estado; sedentos de uma "modernidade" que é fim em si mesmo; desprezando tudo o que lhes seja apresentado como antigo (sendo logo "velho"); largamente embrutecidos e estupidificados metodicamente pelo poder e pela comunicação dita "social", os portugueses seriam preocupantemente temíveis na possibilidade de um tal referendo.

Temíveis para mim, entenda. Você, provavelmente, o mais que teria a "temer" seria uma fraca participação.

Costa
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De gty a 15.04.2015 às 21:55

De Costa,

A rejeição do acordo tem sido imensa e consistente e abrange gente de todas as classes sociais, com opções políticas muito diferentes, com vários graus de ensino, e de todas as idades.
Manifestos com mais de 120 000 assinaturas impressionam em qualquer país - principalmente quando logo à cabeça se encontram os mais distintos intelectuais do país.
O que acontece em Portugal - como declarou um distinto comentador - é que os políticos não têm o menor escrúpulo em governarem à revelia da vontade do povo português.
A questão do acordo ortográfico apenas vem demonstrar que Portugal não é uma democracia e, menos ainda, um estado de direito.
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De Costa a 15.04.2015 às 22:52

"A questão do acordo ortográfico apenas vem demonstrar que Portugal não é uma democracia e, menos ainda, um estado de direito." Como, permita-me a imodéstia, sustentei já aqui: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/hoje-as-18-horas-em-letras-7299586?thread=58095106#t58095106

Quanto ao mais que escreve, acredite que este é um assunto em que do fundo do coração desejo ver o meu pessimismo errado.

Costa
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De Isabel Mouzinho a 15.04.2015 às 20:00

Sabe, fui educada segundo o princípio de que pode haver quem discorde de mim, mas é com argumentos e não com insultos que devo defender os meus pontos de vista, pelo que não me resta mais que ignorá-lo.
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De Bic Laranja a 15.04.2015 às 22:32

Eu fui educado com uns safanões dados a tempo, para aprender. O Lavoura não.
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De c. a 15.04.2015 às 22:11

De facto, Portugal é um país com um baixo nível de literacia, muito longe de Espanha. A 3ª República, tal como a 1ª, parece descurar o interesse público e gasta energias com questões de carácter confessional. Tivemos as patranhas dos maçónicos de 1911, com a "ortografia científica" e hoje as dos netos, Há 100 anos o esforço de alfabetização era nulo e hoje muito longe do que devia ser, enquanto rebentam escândalos como o da Lusófona, grande centro difusor do acordismo e de diversas outras luzes.
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De Luís Lavoura a 15.04.2015 às 09:12

uma arbitrariedade de cortes de consoantes mesmo quando são pronunciadas

Isso é normal, porque as pessoas ainda não aprenderam a nova ortografia.

Dantes, as pessoas aprendiam que havia cerca de uma centena de palavras que tinham consoantes mudas.

Agora, as pessoas vão ter que aprender quais são as palavras em que há algumas consoantes "a mais". São apenas uma vintena delas.

Enquanto não aprendem, as pessoas estão confusas e tiram consoantes a esmo.

Daqui a uma geração, já com tudo bem aprendido, não haverá qualquer dificuldade.
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De c. a 15.04.2015 às 22:03

Nas ditaduras pensa-se assim.
Até que caem.
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De João Carlos Reis a 16.04.2015 às 12:17

Prezado Luís,
bem... tirando o nivelamento por baixo da Língua Portuguesa (para o nivelar à sua intelectualidade), ainda bem que não está a viver no Brasil, senão lá ainda se suicidava, pois mantiveram muito mais consoantes do que nós...
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De Makiavel a 15.04.2015 às 09:29

Subscrevo! A luta continua!
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De Isabel Mouzinho a 15.04.2015 às 20:04

Faz sentido, pelo menos...
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De ana franco a 15.04.2015 às 12:31

Obrigada Isabel por este seu comentário a relembrar este assassínio da nossa língua (e acho que a palavra assassínio é muito leve!). Estou completamente de acordo com tudo o que diz, pela minha parte escrevo e vou continuar a escrever como aprendi.
Andamos todos muito distraídos, eu incluída, pois não soube deste encontro, senão tinha tentado ir também. Fiquei triste por ver que poucos comentários tinha, sinal da pouca preocupação que existe com a nossa herança cultural. Se fosse algo referente a "big brothers", era uma chuva de comentários, por aqui se vê também como anda a nossa cultura!
Enfim, como diz o ditado, "enquanto há vida, há esperança", e eu espero que mais tarde ou mais cedo alguém com bom senso perceba que esta sandice não tem jeito nenhum.
Já agora em jeito de sugestão para quem quiser, claro! Ando a ler um livro sobre a batalha de Aljubarrota, existem bons livros que conseguem recriar, com base nas crónicas da época, as movimentações, a organização, a luta e vontade férrea de cerca de sete mil portugueses conta cerca de trinta mil castelhanos (é verdade, um David que venceu Golias). E tudo porquê? É fácil perceber, foi a luta por uma vontade, um ideal, um objectivo, o que quiserem, e mais, foi a luta pela defesa de valores e de uma identidade. Era bom que algumas pessoas descobrissem o que isso é.
Bem haja Isabel
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De Isabel Mouzinho a 15.04.2015 às 20:10

A proclamada "simplificação" não passa de uma falácia e o que se conseguiu é esta confusão em que vivemos e na qual "vale tudo". O que o AO veio conseguir, para já, foi que se passasse a escrever ainda pior.
Quem conhece e ama a língua portuguesa não pode concordar com esta aberração. E não pode calar-se, nem encolher os ombros e não querer saber.
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De João Carlos Reis a 15.04.2015 às 13:37

Só espero que, a bem da Língua Portuguesa (sim, com iniciais maiúsculas para a Engrandecer e Enobrecer, e não com reducentes minúsculas como este aborto preconiza) esta moção, bem como outras idênticas, tenham acolhimento junto de quem fez a asneira de aprovar o aborto acriticamente, de modo a que façam um "mea culpa" e voltem atrás na sua decisão de nivelar o Português por baixo...
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De Isabel Mouzinho a 15.04.2015 às 20:14

Isso de "ter acolhimento junto de quem fez a asneira" não sei, mas não somos obrigados a segui-la e a persistir nela. Seria bom começar por ouvir quem sabe, o que nunca foi feito. Por que motivo a Faculdade de Letras rejeita o AO, por exemplo? Bastaria começar por pensar nisto...
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De João Carlos Reis a 16.04.2015 às 09:37

Prezada Isabel,
eu concordo em absoluto com tudo o que tem escrito e, para lhe dar um exemplo, estou num "braço de ferro" com a secção de comunicação interna da empresa onde trabalho, pois devido a não terem lido o acordo (pelo menos a prática assim o sugere) querem por força que, por exemplo, "contacto" se escreva sem "c" (algo exclusivo do Brasil) e que o nome das instituições se escreva com iniciais minúsculas. Bem... se assim é, coerentemente, teriam que grafar invariavelmente, entre muitas outras, também "espectador", "perspectiva" ou "recepção", pois no Brasil estas palavras (volto a reforçar: entre muitas outras) não têm liberdade de escrita...
É por estas, e por outras que eu NUNCA me irei submeter servilmente ao aborto...
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De c. a 17.04.2015 às 21:26

Talvez lembrar que o acordo não está em vigor, e que a empresa está a violar a legislação em vigor - tal como o estado.
Mas o estado português não se recomenda, pois não?
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De César Sobral a 15.04.2015 às 14:42

Quero lá saber duma Língua por mais PURA que seja, e que só é falada por meia-dúzia de ILUMINADOS !
Quero é que a MINHA língua seja uma das mais faladas mundialmente, e para isso há que continuar a trabalhar no Acordo Ortográfico.
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De H. Chaínças a 15.04.2015 às 18:02

Nem mais... se não fossem os brasileiros não tínhamos nem 1/3 do conteúdo escrito em português na internet (e que jeito que dá). Continuem a trabalhar no acordo e ponham portugueses, brasileiros e o resto do pessoal de África a escrever da mesma maneira... O mundo está cada vez mais globalizado... Deixem-se de: "no meu tempo aprendi assim..." estudem e evoluam com o mundo e não fiquem presos ao passado.
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De Isabel Mouzinho a 15.04.2015 às 20:44

Felizmente, a diversidade existe, apesar da globalização. E por falar em estudar, a palavra "etimologia" diz-lhe alguma coisa?
Só mais uma coisa: a questão não se coloca de todo entre evoluir e "ficar preso ao passado". Sugiro-lhe que estude melhor tudo o que se relaciona com o AO para poder também "evoluir". Sugiro-lhe a leitura do livro do Pedro Correia, por exemplo, sobre este assunto, que é bastante esclarecedor. Mas se calhar até na "internet" encontra informação pertinente. Tudo à distância de um "clic". Muito evoluído, pois claro...
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De Bic Laranja a 15.04.2015 às 22:39

Perde seu tempo. Nunca hão-de ler o livro do Pedro Correia. Ler é mais que soletrar e da conversa deles acabaram mal treinados na arte.
Cumpts.
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De João Carlos Reis a 16.04.2015 às 12:47

Prezado H. Chaínças,
bem... parece que foi o sr. que não estudou, não evoluiu, ficou preso ao passado... e nem nem fez os trabalhos de casa... Diga-me uma coisa: onde é o aborto diz que vamos passar a escrever todos a mesma maneira???
Outra coisa: "se não fossem os brasileiros não tínhamos nem 1/3 do conteúdo escrito em português na internet (e que jeito que dá)." Pois... é por pessoas assim como o sr., estilo Mar Morto, que mata tudo o que absorve, que são os brasileiros a pôr mais coisas, pois pessoas como você que em vez de contribuírem, preferem ter a papinha toda feita... independentemente de estar ou não bem feita...
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De H. Chaínças a 16.04.2015 às 15:03

Senhor João Carlos Reis por quê razão me insulta? E porquê "estilo Mar Morto"? E o que quer dizer com: "mata tudo o que absorve"?. Não leve a mal a minha ignorância, mas não percebi onde quer chegar... Sinta-se à vontade para trocarmos contactos e "discutirmos" ou esclarecermos os nossos comentários. Cada qual interpreta as coisas de acordo com as suas experiência de vida e do ambiente social em que cresceu. (possivelmente terá sido esta a razão para a minha dificuldade em interpretá-lo. Porque um médico interpreta um texto de uma maneira, um filósofo de outra, um carpinteiro de outra, etc.). Para esclarecê-lo, sou pintor da construção civil. Cumprimentos a si e aos outros leitores.
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De João Carlos Reis a 16.04.2015 às 22:07

Prezado H. Haínças,
bem... eu apenas retribuí o "elogio" que fez a todos os que não podem concordar com o aborto, a bem da Língua Portuguesa.
Fico muito sensibilizado com os seus cumprimentos, os quais agradeço e retribuo.
A minha profissão não é tão vistosa (no bom sentido) como a sua é, pois sou um simples técnico de controlo de produção.
No entanto ainda não respondeu à minha pergunta...
Mais outra coisa que à pouco me esqueceu: é precisamente por não quererem estudar nem evoluir nem os sucessivos governos quererem investir correctamente na instrução, que é preferível fazer reformas ortográficas de 30 em 30 anos para simplistificar e desenvolver o facilitismo do que, contrariamente ao que propalam os nossos governantes, ter uma cultura de qualificação, de exigência, de qualidade, de excelência e afins...
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De c. a 16.04.2015 às 15:57

A questão não é de quantidade, mas de qualidade. Escreves-baratos, tal como falas-baratos é o que mais há.
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De João Carlos Reis a 22.04.2015 às 05:17

Prezado c.,
agora é que escreveu uma grande verdade: falta de qualidade e muita quantidade.
Não quero dizer com isto que não haja textos brasileiros com muita qualidade, mas infelizmente são raríssimos...
Uns dos argumentos que é apresentado para defender o aborto é a quantidade de falantes do Português Sul-americano... mas como infelizmente estamos fartos de saber que quantidade não é sinónimo de qualidade..
Logo o que este aborto faz é nivelar o lindo e maravilhoso Idioma Português por baixo...
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De t. c. a 17.04.2015 às 21:39

A questão é uma: há, legalmente um português internacional, com a grafia exactamente igual em vários paises. E há o português do Brasil com uma ortografia isolada, produto de concepções ideológicas ultrapassadas e de ideias nacionalistas.
Nesse país, há 75% de analfabetos "clássicos" e funcionais, pelo que a "simplificação da ortografia" - uma ideia caduca com 200 anos - não terá dado grandes resultados.
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De João Carlos Reis a 22.04.2015 às 07:27

Prezado t. c.,
não leve a mal, mas o Português do Brasil não é um "produto de concepções ideológicas ultrapassadas e de ideias nacionalistas". É, antes de mais, um produto do simplismo (quase que levado ao extremo) de países pobres que varreu os países (passe a redundância) Lusófonos após a implantação da República em Portugal, no que à ortografia diz respeito. A ideia até era "boa": levar a alfabetização às massas analfabetas com uma ortografia mais simples (e mais barata de ensinar, para países que infelizmente não tinham grandes recursos financeiros) e, teoricamente, mais fácil de ensinar e aprender. Bem... o que infelizmente se passou na prática é que nada disto aconteceu e, em particular no Brasil, a iliteracia continuou durante largas décadas que, ajudada por uma abolição acrítica de consoantes não pronunciadas na reforma ortográfica de 1943, incrementou o afastamento da pronúncia original de muitíssimos vocábulos, pelo que vemos que muitas das palavras que originalmente tinham uma fonologia aberta, passaram a tê-la fechada.
E assim vai por água abaixo o mote de "Exigência e Qualidade" que os nossos "queridos e amados" governantes tanto almejam...
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De Isabel Mouzinho a 15.04.2015 às 20:22

Pois deve ser por "querer lá saber" que não está devidamente informado. Não sei a quem se refere quando fala em "iluminados". Mas, não sei se sabe que o Português, que imagino que seja a SUA língua, já era uma das mais faladas mesmo antes do AO e que, nesse sentido, ele não veio alterar rigorosamente nada. Não saberá também provavelmente que, apesar do AO, o Português europeu e as suas restantes variedades, nomeadamente a brasileira, continuam a ser distintas, uma vez que as suas principais diferenças não se situam ao nível da grafia, mas do léxico e da sintaxe e essas mantêm-se.
Podia continuar, mas dir-lhe-ei apenas mais isto: o inglês e o espanhol nunca fizeram este tipo de acordo e não é por isso que não são também muito faladas "mundialmente". Chega?
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De Costa a 15.04.2015 às 20:40

E que pensa você que ganhará com o facto - que não se verificará (não com coisas destas) - da sua língua ser das mais faladas? Que vantagem virá para Portugal e os portugueses? Alguma patética glória estéril, talvez, como aquelas que parece que temos por conta de um certo treinador e um certo jogador. De futebol, claro. E em que melhorou isso a sua vida?

Mas não se entusiasme, não será a língua portuguesa, de facto, que alcançará com este acordo e por graça dele o estatuto que você tanto ambiciona. Se alguma o alcançar (e não será pelo acordo, será pelo simples número de falantes: inevitavelmente muitíssimo superior), será o português do Brasil - e eles, os brasileiros, já praticamente mandaram o AO90 às urtigas - ou mais correctamente, acredito, o brasileiro (correspondendo aliás, creio, a uma corrente académica brasileira que de há muitos anos assim o propõe).

O brasileiro, uma língua derivada do português, mas dele crescentemente afastada, tais as diferenças de ortografia, sintaxe e vocabulário (e o acordo só procurou - e com estrondoso insucesso - unificar a primeira), que foi adoptando. Uma língua que os portugueses facilmente compreendem, nas suas formas falada e escrita (sempre fomos bons, consta, no desenrascanço e no deslumbramento submisso), mas sendo cada vez menos verdadeiro o inverso.

Afirmo-o eu que por razões profissionais lido diária e bem proximamente com brasileiros e demonstram-no desde logo as edições em português e em português do Brasil de uma mesma obra literária (e não necessariamente traduções).

Vai sendo tempo disso mesmo: do brasileiro seguir o seu caminho, enquanto língua, fazendo então o que lhe der na realíssima gana e de nós estimarmos esse tesouro que é a nossa língua. Como já por aqui se escreveu, imagine-se ingleses, franceses ou espanhóis (e outros), a ceder da forma abjecta como nós fazemos para agradar a ex-colónias. Ex-colónias que, ainda por cima, se entretêm impondo-nos a humilhação adicional de ignorarem paulatinamente o que alegadamente "acordaram" connosco.

Tanta ingenuidade...

Costa
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De c. a 16.04.2015 às 15:55

Os brasileiros mandaram o acordo às urtigas? É uma frase um pouco sem sentido, já que o acordo consiste na imposição a Portugal e aos outros países com grafia igual à portuguesa, da imposição da ortografia decidida no Brasil - onde não há uma única palavra que seja mutilada. As mudanças que eles sentem de hifenização e o trema.

Aqui mudariam milhares de palavras, lá - sem a questão da hifenização, não mudava rigorosamente nenhuma.

As situações não são semelhantes em nada!
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De Costa a 16.04.2015 às 23:44

Mandaram. Não só eles parecem já "avançar" para uma ainda mais "aprofundada" "simplificação" da ortografia, como por lá (Brasil) permanece estabilizada a grafia de palavras que por cá, em nojenta subserviência, nos apressámos a modificar em nome de uma impossível uniformização.

Há de facto, fruto da aberração do AO90, por estes dias três grafias da língua portuguesa: a europeia, anterior ao AO90; aquela decorrente do AO90 e a brasileira (que, manifestamente, se não confunde com a segunda). Nada mau, atendendo ao objectivo pretendido...

"Receção", por exemplo, diz-lhe alguma coisa?

Costa
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De c. a 17.04.2015 às 21:34

A "receção" nasce da necessidade de não se perceber, senão passados 10 minutos, que o acordês é a ortografia brasileira. Depois, o "p" de recepção - e outras consoantes diacríticas que os brasileiros resolveram manter - seria concedido a Portugal para satisfazer as justas reinvindicações dos portugueses. Ainda teríamos de agradecer...
O ex-deputado Tavares do Livre, acordista da primeira hora, escrevia algures que escrevia excepção porque pronunciava o p...
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De gty a 15.04.2015 às 22:46

iluminados é o termo certo: a ortografia fonética foi uma ideia de Voltaire, há mais de dois séculos, que Verney trouxe para Portugal. Verney era maçon e, em 1911, a república, inteiramente maçónica, correu a pôr em prática as ideias de Verny e dos seus sequases - Gonçalves Viana incluído - em prática. Viana tinha uma fraca preparação teórica (era autodidacta e amanuense das alfândegas) escrevia coisas absurdas mais ou menos baseadas em modas do positivismo cientista da época. Uma amostra, onde se pode notar a parca preparação e o ressentimento de quem não acabou a universidade: "Estou de há muito convencido, e várias vezes o tenho dito pela imprensa, de que a denominada ortografia etimológica é uma superstição herdada, um erro científico, filho do pedantismo que na época da ressurreição dos estudos clássicos, a que se chamou Renascimento, assoberbou os deslumbrados adoradores da antigüidade clássica e das letras romanas e gregas, e pôde vingar, porque a leitura e a conseqüente instrução das classes pensadoras e dirigentes só eram possíveis a pequeno círculo de pessoas, cujos ditames se aceitavam quase sem protesto."
É essencial o estudo do léxico empregue, para filiar ideológicamente o seu autor.
Uma das ideias da época de oitocentos esquecidos era a de que a "evolução" da lingua portuguesa acarretaria o desfazer das sequências consonânticas ("mn", por exemplo, e por isso, apenas por isso, tem no Brasil "anistia" e "indenização", via decreto). Aqui, a coisa não chegou a isso, mas havia a crença de que a "evolução" signficava amputação das consoantes etimológicas - embora bastasse o exemplo do inglês e do francês para desmentir tal tese. Já nem se lhe pedia que pensassem que a evolução vai do simples ao complexo e não ao contrário...
Por outro lado, as linguas nacionais eram tidas como nefastas, por instigarem ao nacionalismo. A reforma de 1911 foi feita pela maçonaria iberista, no sentido de aproximar o português e o castelhano, tal como a de 1990 foi feita para que o brasileiro surja candidato a língua universal (por mais tola, não são de descartar estas hipóteses "iluminadas").
É de crer que hoje, sejam as mesmas organizações a que pertenceu Verney - tantas vezes chamado à colação a propósito do acordo - que têm sabotado a reacção dos linguístas e da discussão verdadeiramente científica e pública da questão, passando por cima da lei.
Sem uma ideia da história das concepções da língua em Portugal e das suas conotações e implicações políticas não se compreende o acordismo nem a sua imposição através do estado aos portugueses.
Se não compreendermos o que irmana os três leaders parlamentares do CDS, PSD e PS, e se não começar a denunciar o escândalo político do acordismo, será difícil.
É que o acordo, como uma vez afirmou Malaca é política. Que política? O ministro Pinto Ribeiro esclarece - a propósito do acordo, sim: "Só assim poderemos participar, e a nossa participação é essencial na criação de um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso. (...) Por isso Portugal ratificou o acordo ortográfico da língua portuguesa e criou um fundo para o aprofundamento da língua nas regiões do mundo que contam com comunidades de portugueses e nos países da CPLP."

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De João Carlos Reis a 16.04.2015 às 12:37

Prezado César,
pois... mas o Português (bem ou mal) já é o terceiro idioma europeu mais falado em todo o mundo, mas pode ter a certeza absoluta de que não é por causa de reformas ortográficas que ela vai passar a ser mais falada (ou escrita) por esse mundo for, mas sim utilizando-a onde quer que estejamos...
Um excelente contra-exemplo do que acabei de escrever foi o "nosso" "querido e amado" primeiro-ministro discursar em Português, num encontro para empresários (ou lá o que foi), em Portugal e, na parede atrás dele... nem uma única palavra escrita em Português... assim não há idioma que resista...
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De Rui Pereira a 16.04.2015 às 15:53

Mas ainda se fala português? Com a actual invasão de estrangeirismos que a nossa língua tem sofrido duvido que haja alguém que ainda fale da língua de todos nós...
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De jpt a 17.04.2015 às 00:10

Lamento mas muito discordo do que está no postal: a moção; e o apoio explícito que lhe é dado. Discordo de processo AO, renego-o, como peça política, ideológica e pela trapalhada ortográfica que vem causando. E pela redução da compreensão dos portugueses. Mas não tem cabimento organizar um referendo sobre esta questão, é um tipo de proposta que só tem efeitos inversos aos pretendidos - na prática não terá efeito nenhum, potencia o silêncio e a modorra. A gente vota de vez em quando, elege representantes, nossos delegados. Para matérias cruciais, que convocam (ou deveriam convocar) a atenção e a preocupação de muita gente há referendos. Para as outras há a pressão sobre esses delegados e sobre o governo que deles emana.

Lamento, e bastante, mas parece-me que se perdeu uma boa oportunidade.

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