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engana-me que eu gosto

por Patrícia Reis, em 14.06.18

Esta semana deparei-me, numa rede social, com uma publicação patrocinada de mais uma aplicação de localização de pessoas. A mesma é vendida com a palavrinha “safe” associada. Ora, bem sei que vivemos tempos negros e que as questões de segurança são hoje mais pesadas do que em tempos idos, mas há algo de imoral e pouco ético nesta ideia de que possuímos o direito de “seguir” as pessoas de quem gostamos.

Seguir por amor? Não, por controlo. E controlar o outro, localizá-lo minuto a minuto no seu dia-a-dia, ter acesso ao histórico dos seus movimento (promessa da dita cuja aplicação) é uma forma de censura e não um princípio saudável. Confiar no outro é crucial? Para alguns de nós sim, para outros nem tanto.

Se fizermos um bom exercício de memória e formos honestos, sabemos que todos temos, filhos ou parceiros(as), certas coisas que são só nossas. Precisamos de autonomia, de silêncio, de privacidade e de certos segredos, por ser inerente à nossa condição humana. Quem não mentiu aos pais? Quem não omitiu? Esse processo de conquista de autonomia fez-se sempre, creio, destes caminhos, porventura menos “limpinhos”, mas urgentes para alcançarmos o outro lado da vida. Chama-se crescer.

Andar atrás de saber o que os filhos fazem, a toda a hora, muitas vezes sem o conhecimento dos mesmos, controlando com uma ferramenta digital que garante que é para a sua segurança é uma bizarria e é desonesto. O mesmo se aplica aos maridos e mulheres que, em vez de praticarem de forma veemente a confiança, vão para o outro lado das coisas.

Há uns anos, uma mulher que era idiotamente controlada pelo marido (ele via os seus sms, lia os seus emails, controlava os seus gastos tendo acesso à sua conta bancária) disse-me: “Como ele não confia em mim, vou arranjando outras formas de fazer as minhas coisas. O princípio de funcionamento do nosso casamento é o 'engana-me que eu gosto'. Se ele não gostasse de ser enganado não fazia estas coisas”. O casamento terminou há uns meses. Eu não me surpreendi.

Que moral existe na perseguição do outro? Como se pode legitimar essa perseguição e controlo invocando conceitos amorosos, palavrinhas que derivam do tal “safe”, de amor e cuidados constantes? Não se pode.

Parece que a dita aplicação, que se apregoa como sendo muito melhor do que um sistema sinistro de invasão e espionagem, é um sucesso de vendas. Perante estes dados, admito que fico surpreendida. Talvez seja ingenuidade minha, aceito que o seja.

Que mundo é este? Não o reconheço. E quando os discursos se inflamam sobre a privacidade, a intimidade, os direitos básicos de cada um, pelo menos por padrões ocidentais, parece que vivemos numa bipolaridade ou numa esquizofrenia: queremos liberdade para nós, não damos liberdade aos outros. Que é como quem diz: não faças o que eu faço, faz o que eu digo, porque a teoria que se apregoa é lindinha e sustentada em bons princípios. A prática? Ah, muito haveria a dizer sobre isso mas não há tempo.

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4 comentários

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De Isabel a 14.06.2018 às 23:10

Se esse tipo de aplicações já são perversas quando utilizadas por quem as considera um instrumento de controlo justificado por um grande amor, imagine as consequências sinistras que fatalmente têm quando são usadas por quem é movido por sentimentos de inveja, vinganca, ódio ou puros impulsos psicóticos.
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De Anónimo a 15.06.2018 às 10:50

Os meus parabéns, um post brilhante e que nos deve fazer PENSAR !
Sem dúvida para mim um dos mais importantes que li nos últimos meses.
O meu sincero agradecimento.

WW
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De Luís Lavoura a 15.06.2018 às 11:09

A minha cunhada há uns anos descobriu que o marido a andava a enganar com uma brasileira. Ele tinha o cuidado de mandar a fatura do telemóvel para o escritório, de tal forma que ela não a pudesse ver. Mas uma vez ela viu-o a falar ao telemóvel no jardim e depois caçou-lhe o telemóvel e viu o número que era.
Esta coisa dos telemóveis hoje em dia é muito traiçoeira.
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De Anónimo a 18.06.2018 às 17:26

Grande amor? Eu sei dum caso dum telemóvel que, o amor era tanto, que o rapaz conseguiu uma aplicação à namorada, para a seguir para todo o lado, acabando por matá-la intoxicada !

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