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Emprego em números (curtinho e simples*)

por João André, em 22.07.14

 

Quando falamos do desemprego temos duas correntes: a corrente governativa, onde o pior já passou e agora estamos todos em direcção à paz celestial; e a corrente anti-governo, onde o apocalipse está ao virar da esquina e o desemprego real é de 450 mil por cento. Como não gosto de andar a ler notícias sobre as estatísticas em jornais carregados de analfabetos matemáticos que estão amiúde comprometidos com uma das duas correntes, decidi dar uma espreitadela aos números absolutos, i.e., quantas pessoas estavam activas, quantas pessoas empregadas e quantas pessoas desempregadas. O resultado está no gráfico acima (retirado dos dados do INE).

 

O que se vê é claríssimo: o desemprego caiu entre o 3º trimestre de 2012 e o 1º trimestre de 2014. O emprego por outro lado também desceu no mesmo período. Em termos absolutos, o número de desempregados caiu em cerca de 59 mil e o número de empregados caiu em cerca de 137 mil. O emprego recuperou um pouco no último ano registado acima mas não irei debruçar-me sobre razões nem sobre as razões do decréscimo no início de 2014.

 

A realidade é que a queda do desemprego de 15,7% para 15,1% com um pico de 17,5% no 3º trimestre de 2013 terá decorrido mais de emigração e óbitos que de qualquer outra coisa. Em termos líquidos pode-se dizer que se perderam empregos no período decorrido e a recuperação dos mesmos (em termos absolutos) ainda não parece muito notória.

 

O governo gosta de retirar para si os frutos de qualquer número positivo e atirar para o governo de Sócrates ou para a Europa qualquer má notícia. Os números acima apontam para uma real influência do governo na diminuição da taxa do desemprego através da promoção da emigração. Não quero contudo retirar-lhes outro mérito. A verdade é que há limites para aquilo que um país pode cair desde que tenha um estado funcional (mesmo que não ideal): após tanta queda havíamos de ressaltar um pouco.

 

Gostaria de ser optimista como outros colegas do blogue (admiro o optimismo e a esperança do Luís Naves, por exemplo) mas não consigo. Uns tempos de bom clima económico e uma pneumonia do BES arrisca atirar-nos para os cuidados intensivos. Apesar de todos estes esforços do nosso bando de incompetentes do governo, os bons resultados parecem-me continuar a dever-se mais ao espírito aventureiro dos portugueses e a influências externas.

 

Infelizmente a situação provavelmente não irá mudar muito nos próximos tempos: não vejo quem em Portugal faça muito melhor (até porque pior só se for o Santana).

 

* - talvez não tão curtinho quanto pensava. Perdoem-me o pouco jeito para o resumo.


7 comentários

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De Miguel a 22.07.2014 às 21:34

"A realidade é que a queda do desemprego [...] terá decorrido mais de emigração e óbitos que de qualquer outra coisa".

o João André deveria acrescentar á sua lista de motivos os "desencorajados" que desisitiram de procurar e, portanto, não surgem na estatistica como desempregados e ainda todos os que se têm ocupado em "formações", mais ou menos oficiais, que os mantêm fora da estatistica.
No que diz respeito á aparente estabilização da população activa, tambem o INE disponibiliza a fracção de novos empregos em "part-time", temporários, mal pagos...etc.

Compreendo a teoria das "correntes", padecendo no entanto do defeito de as apresentar aparentemente simétricas e, quem sabe, equidistantes da realidade.

Não estão. A verdade é que o governo declaradamente acreditou que tinhamos de "empobrecer" para "vivermos dentro das nossas possibilidades". Depois de atingidos estes dois objectivos, não se sabia o que se seguiria visto que nenhum plano de desenvolvimento alguma vez foi apresentado.

Portanto, sendo justo, o governo atingiu 50% dos seus objectivos. Empobrecemos. Os outros 50% de "vivermos dentro das nossas possibilidades" terão de esperar por melhor oportunidade. O que, em abono da verdade, é compreesneivel visto que ninguem sabe muito bem o que quer dizer...

Miguel
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De João André a 23.07.2014 às 09:52

Caro Miguel, propositadamente deixei isso de fora. Não quis acrescentar mais especulações. Em termos práticos, desistir da busca de emprego é o mesmo que emigrar. Simplesmente não há crença em encontrar trabalho decente e procuram-se outras soluções (conheço pessoas a trabalhar na economia paralela).

Há ainda a camuflagem dos números através de estágios mal remunerados e sem hipótese de darem permanência na empresa, trabalho a tempo parcial sem condições e muito mal pagos, etc.

A realidade completa é que o governo está de facto a empobrecer o país e a reduzir ao máximo os custos do emprego. A certa altura é normal que o desemprego diminua. Se baixassem o custo do emprego a zero então teriam certamente desemprego zero...
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De cristof a 23.07.2014 às 08:38

mas que se pode esperar de influencia economica dum governo que não tem dinheiro para pagar tudo o que deve e não pode fazer dinheiro? gere a propaganda nos media com os amigos que tem a defender-se dos adversarios que fazem o mesmo em sentido contrario.Pode ser uma realidade -virtual, apaixonante mas uma fantasia para quem gosta de contos de fadas.
interessante é discutir que politica de educação se anda a promever e não que greve dos professores anda a "defender" a escola publica; pelo que me apercebo anda-se a gozar com a educação ao mesmo tempo que se gere a agenda eleitoral.
o problema maior dos povos mal governados não é só a falta de dinheiro é a falta de cabeça.
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De João André a 23.07.2014 às 10:44

A questão da falta de dinheiro é uma bela desculpa para não se fazer nada. Governar sem dinheiro é fácil: fecha-se tudo. É o que se faz nas empresas. Um estado tem outras obrigações. Se é para ser gerido como um departamento de uma empresa então não tem razão para existir - e claro que é este o pensamento de muitos que estão no governo.

Obviamente que existem dívidas para pagar, mas ainda não as vejo a ser pagas. Pelo contrário, esta história de ir buscar financiamento aos mercados significa simplesmente que se paga dívida com dívida. As únicas formas de resolver o ciclo é deixar de cumprir obrigações enquanto estado (o tecido social é destruído), deixar de pagar dívida (default, também não desejado) ou simplesmente um meio termo que dá mais trabalho porque obriga a governar. Neste casoe ntra de facto a questão da educação, mas nãos e pode pedir muito a quem também a teve de forma deficiente.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 23.07.2014 às 12:35

Lendo o post e os comentários oderemos concluir que o principal falhanço deste , ou doutro governo qualquer, é a falta de capacidade para criar empregos.
Criem-se então um milhão de empregos por decreto, que assim a coisa passa a ter força de lei.
O Sócrates, desconfio que a grande paixão do comentador Miguel, prometeu que criava 150 mil, mas (des)criou 400 mil! foi azar, porque as intenções eram as melhores.
Que tal começar a escrever posts, com ou sem gráficos, a explicar porque é que há 10-15 anos se destróiem ano após ano empregos em Portugal, e como é que seria possivel inverter esta situação?
No entanto a esperança para a resolução detodos os nossos problemas aí está:
http://observador.pt/2014/07/23/antonio-costa-falar-de-financas-fica-para-depois/
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De João André a 23.07.2014 às 13:57

Não, o governo não cria empregos or decreto. Mas se não os cria por decreto também não os destrói por decreto (quer dizer, pode fazê-lo, mas se algum o fez deve-me ter escapado).

Um governo cria ou não condições para o emprego. Isso é verdade para Sócrates, Coelho ou qualquer outro que tenha vindo antes. O emprego ou desemprego resulta depois dessas condições e de situações circunstanciais (se a economia mundial estiver má o emprego torna-se mais difícil, independentemente das condições internas).

A única coisa que eu fiz foi apontar que este governo não deveria andar a chamar a si quaisquer glórias na questão do emprego porque não houve ainda aumento do mesmo. Só isso.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 23.07.2014 às 14:30

Não estou a defender aqui as posições do governo. Já o tenho feito, mas não é o caso. O desemprego tem sido arma de arremesso para os partidos da oposição e o governo socorre-se do que pode, como seja a tendência da queda do emprego se estar a inverter desde há um ano, seja lá por que razões for.
No entanto estamos de acordo num ponto: os governos apenas têm de criar condições para a economia se expandir, e para a consequente criação de emprego. Mas como sabemos pelo menos desde 1998 que isso não acontece, e o drama é que ninguém, politicos e "sociedade civil", quer discutir os "porquês".
E andamos nisto.

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