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Delito de Opinião

Em memória do Fernando Sobral

Pedro Correia, 17.05.22

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Se houve comentador que citei muitas vezes ao longo destes anos e nos ciclos políticos mais diversos, no DELITO DE OPINIÃO, foi o Fernando Sobral. Na sexta-feira, um amigo surpreendeu-me com a notícia da morte dele: ainda recentemente o havia visto algures no bairro de Alvalade, nosso território comum. Ele nascera em 1960, eu sou um rapaz quase da mesma idade, havia códigos geracionais que de algum modo nos irmanavam embora nunca tivéssemos trabalhado juntos e os nossos contactos fossem esporádicos. Não por algum motivo especial: apenas porque assim calhou.

Cheguei a considerá-lo, sem favor, um dos melhores cronistas portugueses - sobretudo pela coluna que manteve durante largos anos no Jornal de Negócios. Em espaço nobre, como ele merecia.

A coluna chamava-se Pulo do Lobo. Clico no sítio do Negócios à procura desses textos, supondo-os armazenados: talvez por incapacidade minha, não consigo encontrar nenhum. As hiperligações à coluna do Fernando que transcrevo abaixo batem na parede e voltam para trás. Como se nunca tivessem existido.

Isto preocupa-me. A memória do jornalismo - fundamental para a preservação da nossa identidade colectiva - vai-se diluindo nesta era digital em que os arquivos parecem ter a consistência da plasticina e ser tão volúveis como o éter. 

 

Ao Fernando, homem tímido, não faltavam amigos, leitores ou admiradores de vários quadrantes. Mas como lhe escasseava vocação para se pôr em bicos de pés ou integrar a academia do elogio mútuo em que Lisboa é fértil, ficou sempre um pouco aquém do que o seu talento merecia e a sua seriedade profissional recomendava como cartão de visita. Honrava os compromissos que assumia ao ponto de não se furtar a qualquer deles mesmo enfrentando graves problemas de saúde.

Morreu sexta-feira, 13. Nesse mesmo dia saiu o último artigo com o seu nome, como salienta o Jornal Económico - periódico para o qual agora trabalhava - na sucinta notícia fúnebre que lhe dedicou. Lamento que esse artigo, publicado no suplemento Et Cetera, não esteja disponível em espaço aberto: seria a melhor homenagem que o semanário poderia prestar-lhe neste momento. Além de uma prova adicional de consideração pelos seus leitores, entre os quais me incluo.

Hoje, a partir das 10.30, a despedida ocorrerá no centro funerário São João de Deus, à Praça de Londres, seguindo o funeral às 13 horas, para o cemitério dos Olivais. Por mim, celebro-o neste espaço lembrando dez textos dele que fui citando no DELITO ao longos dos anos. Num respeitoso silêncio em sua memória.

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11 de Agosto de 2011: «Não foi por acaso que Adam Smith chamou ao seu livro basilar A Riqueza das Nações. A pobreza das nações actuais é uma traição à arquitectura que ele desenhou. Porque é feita, nalguns casos, por quem se considera herdeiro dos seus pensamentos.»

12 de Setembro de 2011: «Até agora, a principal oposição ao Governo PSD/PP partiu dos partidos que o integram. Os partidos do poder passaram a ser, ao mesmo tempo, o poder e o contra-poder. O que tem transformado o PS num entreposto turístico de oposicionistas.»

15 de Setembro de 2011: «A lenda conta que, em Bizâncio, as elites debatiam ainda o sexo dos anjos quando os turcos assaltavam a cidade. Era uma questão de prioridades. A União Europeia é a nova Bizâncio: debate a sua crise existencial em vez de combater a essência da crise.»

1 de Abril de 2013: «Sócrates sabe que só pondo o dedo nas feridas do presente, que doem a todos, fará esquecer as ficções onde governou no passado. A memória dos portugueses, acredita, é curta. Por isso colocou a pintura de guerra na face. Voltou à batalha. Sem inimigos não vive. Na paz da filosofia só poderia sobreviver, porque Sócrates não questiona o que faz: actua sem se questionar.»

19 de Dezembro de 2013: «Como não falava, Harpo Marx usava uma buzina para se exprimir. Todos percebiam melhor as suas emoções do que quando se escutam Christine Lagarde ou Mario Draghi. O que dizem fica a meio termo entre uma buzina, uma sirene e um martelo pneumático.»

17 de Abril de 2014: «A mensagem de Passos Coelho foi uma pobreza total: de sonhos, mas sobretudo de ideias. O País pode estar melhor mas vive uma enorme insolvência de ideais, de ética, de moral e de cultura. E nisso Passos não está sozinho. Basta escutar a oposição.»

21 de Outubro de 2015: «António Costa ameaçou com uma "maioria de esquerda" que se assemelha a um leite-creme sem consistência. Porque, para lá de uma identidade de interesses (afastar o PSD/CDS do poder), falta uma confiança total entre quem conspira e é inexistente a possibilidade de conciliação de conceitos tão diferentes sobre a Europa, a dívida e o défice.»

22 de Novembro de 2016: «As emoções ocupam o território outrora ocupado pela reflexão e pela interrogação. Este é o mundo do Twitter e do Facebook: um bom insulto vale mais do que uma reflexão séria ou irónica. E a imprensa entrou neste afã suicidário: alimenta-se das "redes sociais", assinando a sua morte perante o seu fascínio pela tecnologia que a destrói.»

13 de Fevereiro de 2017: «Não é normal que um Governo tenha aceitado abdicar dos poderes do Estado democrático permitindo que um gestor (com o auxílio de uma sociedade de advogados) pudesse ousar mudar uma lei da República para se encontrar uma solução à vontade do freguês. É aqui que está o cerne da questão. E, neste caso, o aroma do caso CGD evoluiu de forma vergonhosa.»

7 de Agosto de 2017: «A tentação totalitária existe. Desmonta-se com facilidade o mito de que certas eleições não são, na realidade, hologramas. A propagandeada por Nicolás Maduro na Venezuela (aplaudida em Portugal por quem parece preferir um regime onde a paz e o pão são hoje miragens) é uma das grandes mentiras contadas aos crédulos e aos idiotas úteis.»

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