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Em louvor da sociedade

por Pedro Correia, em 21.03.20

Tenho ouvido, por estes dias, loas imensas ao Estado. O mesmo Estado, convém salientar, de que faz parte a directora-geral da Saúde, que a 15 de Janeiro declarava com todas as letras: «Não há uma grande probabilidade de um vírus deste chegar a Portugal.»

O mesmo Estado, convém não esquecer, de que faz parte uma ministra da Agricultura entretanto desaparecida em combate e que a 5 de Fevereiro - quando já havia 490 mortos e mais de 24.500 infectados na China - se ufanava perante a hipótese de o coronavírus poder vir a ter «consequências bastante positivas» para as exportações portuguesas.

 

Julgo ser tempo de elogiar não o Estado mas a sociedade. A que não precisou dos ditames estatais - incluindo a inédita declaração do estado de emergência a nível nacional, com a suspensão de direitos fundamentais - para se organizar e reagir à doença galopante.

Às empresas, aos clubes, aos ginásios, às colectividades, às igrejas (incluindo a supressão de missas e outras celebrações de culto).

Aos responsáveis da rede escolar privada que foram encerrando antes de um patético Conselho Nacional de Saúde, que ninguém conhecia, ter vindo a público, já no dia 11 de Março, recomendar que os estabelecimentos de ensino e os museu permanecessem abertos - precisamente na véspera de a Organização Mundial de Saúde proclamar o coronavírus como pandemia e de o Governo ordenar o encerramento de todas as escolas, mostrando a inutilidade daquele órgão de consulta criado sabe-se lá para quê.

 

Apetece-me, portanto, elogiar a sociedade. Onde se integram agricultores, assistentes de bordo, auxiliares de saúde, bancários, bioquímicos, bombeiros, caixas de supermercado, camionistas, carteiros, cientistas, comerciantes, controladores aéreos, cozinheiras, cuidadoras, distribuidores, educadoras de infância, empregadas de limpeza, enfermeiras, estivadores, farmacêuticas, ferroviários, informáticos, jornalistas, maquinistas, médicos, merceeiros, motoristas, operadores de máquinas, operários, padeiros, pastores, pescadores, pilotos, professores, psicólogos, revendedores, seguranças, taxistas, técnicos de informática, veterinárias, vigilantes, voluntários.

Gente que trabalha por vezes sem rede, sem horário, sem "direitos adquiridos", sem pedir nada em troca, sem a perspectiva de poder ter emprego no mês seguinte.

Gente como vós, gente como qualquer de nós. 


50 comentários

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De Vorph Valknut a 21.03.2020 às 10:53

Julgo que com esta crise iremos ver também as assimetrias brutais nos seus resultados. Mais precisamente entre quem trabalha para o sector público e quem trabalha para o privado.

Portugal tem além de uma população envelhecida, um tecido empresarial muito frágil.

Hoje, esforçamo-nos para "não morrer". Amanhã faremos as contas para viver.
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De Pedro Correia a 21.03.2020 às 14:57

A primeira e mais brutal dessas assimetrias relaciona-se com o desemprego.
Todos os dias, já, muitos portugueses estão a perder empregos. Prevê-se que nos próximos meses centenas de milhares percam os postos de trabalho.
Nenhum deles, claro, na administração pública.
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De o cunhado do acutilante a 21.03.2020 às 15:56

Não foi o que o senhor PM veio dizer ontem aos portugueses.
Muito pelo contrário assegurou o emprego de todos mediante a disponibilização de ajuda financeira às empresas, assegurando essas a manutenção dos postos de trabalho.

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De Vorph Valknut a 21.03.2020 às 18:06

Claro, mais um emprego para o acutilante e um par do botas para cada português
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De o cunhado do acutilante a 21.03.2020 às 18:17

Para mim não preciso, estou na reforma que, diga-se em passando, não tivesse cuidado da minha vida a tempo há que tempos tinha morrido de fome.
Mas foi o que ele disse. Ajuda do Estado às empresas, na obrigatoriedade dessas manterem os postos de trabalho. Acho que o Vorph também terá ouvido.

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De Vorph Valknut a 21.03.2020 às 10:53

Adenda :

Abraço a todos vós
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De Pedro Correia a 21.03.2020 às 14:58

Retribuído, pela minha parte. Saúde.
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De ChakraIndigo a 21.03.2020 às 10:59

Associo-me a esse louvor, não esquecendo que temos como Homens do leme ególatras a produzir decisões pusilânimes.
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De O ultimo fecha a porta a 21.03.2020 às 11:44

Concordo com este elogio público aos anónimos, muitas vezes com mais juízo que os responsáveis políticos.
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De o cunhado do acutilante a 21.03.2020 às 16:02

Menos a jeitosona da minha vizinha.
Fecharam o ginásio? Não importa, era o que mais faltava abdicar da minha corrida da manhã e da tarde.
Lá passou mesmo agora ela. De fato de treino, que por sinal lhe cai muito bem, airosa e ligeira a calcar o passeio vazio na sua primeira corrida diária.
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De O ultimo fecha a porta a 21.03.2020 às 18:36

desde que vá sozinha e tenha cuidado, até faz bem à alma. Duas corridas por dia? Isso é que é ter uma vizinha toda fit
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De Anónimo a 21.03.2020 às 13:23

Que confusão vai na sua cabeça. O Estado somos todos nós, está a citar membros do governo.

De qualquer modo não quer Estado mas quer que o Estado mande os particulares fecharem-se em casa.Abomina funcionários públicos mas exige que o SNS trabalhe. Acha o Estado violento mas quer a polícia nas ruas. Clama pela liberdade empresarial mas exige que o Estado colete impostos para redistribuir pelas empresas.
Tem de descobrir o que quer urgentemente.

"o Conselho Nacional de Saúde, que ninguém conhecia, ter vindo a público, já no dia 11 de Março, recomendar que os estabelecimentos de ensino e os museu permanecessem abertos - precisamente na véspera de a Organização Mundial de Saúde proclamar o coronavírus como pandemia e de o Governo ordenar o encerramento de todas as escolas, mostrando a inutilidade daquele órgão de consulta criado sabe-se lá para quê."

Nunca lhe ocorreu que se calhar o Conselho deveria ter sido ouvido.
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De Pedro Correia a 21.03.2020 às 14:49

"O Estado colete"...
E o Estado fraque? E o Estado cartola? E o Estado paletó?
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De Vorph Valknut a 21.03.2020 às 15:35

Para o Estado e os seus empregados? Tudo. Os empresários, os trabalhadores por conta outrem, os trabalhadores independentes, os pensionistas, logo pagam.

Não haverá nenhum funcionário público que não receba, na íntegra, os apoios estatais durante este período de quarentena, mais semelhante, para estes, a umas férias forçadas. Até será bom, vai dar para poupar, dizem já alguns artolas. No final da clausura voltarão às suas secretárias, ao seu trabalhinho, na maior parte das vezes, de faz de conta. Não haverá um funcionário público que perca o emprego. Quem não trabalha para o sector público poderá contar com :

Desemprego, falência, e aumento de impostos para pagar os aumentos salariais automáticos da função pública, a ADSE, o SNS e o despesismo estatal, em nome da camarilha do costume.

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De Vítor Augusto a 21.03.2020 às 16:40

"que o Estado colete impostos para redistribuir pelas empresas."

Ahahaha! (gargalhada)

Nada mais me apraz dizer.
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De Anónimo a 21.03.2020 às 13:27

Concordância plena.
E muito útil conservar a "memória histórica" das declarações produzidas por essas formas inferiores de vida ao longo desta crise - já que , com as preocupações e medos presentes , as actuações incompetentes/criminosas desta mesma cáfila se vão perdendo no tempo ( incêndios Verão 2017, Tancos,golpes de mão judiciais e um longo etc.).


JSP
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De Pedro Correia a 21.03.2020 às 23:46

Sim, nunca percamos a memória.
Uma coisa é não manchar este período de emergência sanitária (que pode estender-se pelo menos até Junho, como o PM ontem admitiu) com tricas políticas absolutamente deslocadas, outra é lembrarmos a inconsciência e a irresponsabilidade de algumas figuras que ocupam lugares de responsabilidade e que andaram semanas ou até meses a desvalorizar o perigo.
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De José Couto a 21.03.2020 às 14:15

Excelente entrada.
Estou, também, profunda e positivamente admirado com a capacidade de os Portugueses se auto-organizarem.
Agora, resta saber quando é que o Governo diz que ninguém pagará bens essenciais à vida, como a água, a luz e as comunicações...
Também espero que seja decretado que, todas empresas que despedirem empregados (sejam elas de que dimensão forem) aproveitando-se maleficamente desta pandemia, serão pesadamente multadas e penalizadas, em todos os aspectos: económicos, financeiros e sociais.
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De Pedro Correia a 21.03.2020 às 23:46

Espero o mesmo. E confio que assim sucederá.
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De Pedro Nogueira a 21.03.2020 às 14:27

Que no final, possamos estar todos vivos para dessa forma, fazermos nas urnas e através do voto, o merecido enterro a Costa, Marcelo e restante camarilha, banindo-os de vez do mapa político nacional.
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De Pedro Correia a 21.03.2020 às 23:47

No actual contexto, sugiro que palavras como "enterro" sejam usadas apenas no sentido denotativo.
Já basta o que basta.
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De FatimaP a 21.03.2020 às 14:40

E, deixe-me acrescentar, Pedro, elogiar também os que escrevem, os que informam, os que comunicam. Por dever profissional, claro, mas também "meramente" por gosto, por impulso vital, por impulso cívico, por empatia, por partilha, por generosidade para com aqueles que mantêm a leitura virtual como uma das raras portas de acesso a um mundo exterior que hoje, e sabemos lá por quanto tempo, não lhes pertence mais.

É bom manter alguns gestos normais, como abrir o laptop ou o iphone e ter acesso a pensamentos que nos habituámos a reconhecer como individuais e livres, e que embora hoje condicionados pelos pelos incontornáveis temas do momento, inevitavelmente, nos trazem perspectivas pessoais inteligentes, controversas, não raro divertidas. Sem o peso, a contenção e o drama, porque reais, dos canais oficiais.
Bem hajam todos!
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De Pedro Correia a 21.03.2020 às 23:48

Sem dúvida, Fátima. Faz todo o sentido, a sua adenda.
Cuide-se. Muita saúde, para si e os seus.
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De Anónimo a 22.03.2020 às 02:08

Muito obrigada, Pedro, muita saúde para todos.
E haja imaginação, para resistir à quarentena!
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De Manuel Gonçalves Pereira Barros a 21.03.2020 às 14:40

Em tempos de ameaça séria,quem fomenta o divisionismo não presta!
Quem presta sabe que muitas vezes se engana e tenta retificar a pontaria. Não ter dúvidas e raramente se enganar é a divisa de tratantes!
Em muitos lados podemos ser úteis,só nos supermercados há diferentes estantes para diferentes produtos...na vida,creia, não há prateleiras para vivos!
Tenha juízo e arregace as mangas: verá como lhe passa a má-disposição!
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De Pedro Correia a 21.03.2020 às 14:54

Sabe onde pára a ministra da Agricultura? Se a vir, pergunte-lhe se ainda pensa que as mortes na China por coronavírus ainda podem ser "bastante positivas" para as exportações portuguesas.
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De Anónimo a 21.03.2020 às 18:03

Manuel Gonçalves Pereira Barros aqui vai dirigido a Pedro Correia se ele publicar. O que acho difícil pois aqui neste blogue joga-se avançada contra a defesa.
https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/saudemos-competencia-de-quem-nos-guia.html
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De Pedro Correia a 21.03.2020 às 20:53

Já que estás numa onda de autocitação, podias ter citado este teu texto sobre o coronavírus:
https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/saudemos-competencia-de-quem-nos-guia.html

«Por estes dias os noticiários televisivos têm, inevitavelmente, o coronavírus como tema de abertura. À falta de um caso positivo em Portugal, que leve ao paroxismo as ansiedades das audiências, repetem-se as escassas atualizações oriundas das lonjuras asiáticas, tantas vezes quantas as necessárias..
O sobressalto coletivo vai sendo alimentado por muito que a Organização Mundial de Saúde racionalize a situação com a evidência de não estarmos perante uma pandemia, que justifique tamanhos receios.»

Um pouco patético, não?
Ou pateta, melhor dizendo.

Não te constipes, pá.

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