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Delito de Opinião

Elogio de Pérez-Reverte

Pedro Correia, 01.02.21

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Arturo Pérez-Reverte é um dos meus escritores espanhóis preferidos, entre os contemporâneos - a par de Javier Marías e Antonio Muñoz Molina. Autor prolífico, com uma longa tarimba de repórter de guerra, não padece de angústias existenciais nem enfrenta o dilema da ausência de ideias ao ser colocado perante a folha em branco: boas ideias nunca lhe faltam. Por isso ele é também um dos meus cronistas de eleição. Desde logo por se demarcar em absoluto da cartilha politicamente correcta, por negar vénias e salamaleques às bempensâncias de aluguer, por escrever sem reticências aquilo que realmente pensa. E por nunca mandar recados por terceiros nem se refugiar em entrelinhas. Ao contrários de tantos outros, também por cá.

Não esconde a nostalgia de um tempo em que ainda era possível encontrar homens verdadeiramente livres - gente que não se circunscrevia às engrenagens da trituração & consumo nem se deixava manipular por algoritmos. O que não admira: se existe hoje alguém a quem possamos considerar um homem livre, é precisamente o autor d' A Tábua de Flandres. Que no próximo mês terá mais um livro seu lançado em português: o romance Cães Maus Não Dançam, publicado originalmente em 2018.

Acabo de ler uma excelente entrevista dele à revista do Expresso, muito bem conduzida pela jornalista Luciana Leiderfarb. Merece destaque, merece elogio. E merece ser citada. É o que farei nos parágrafos seguintes: eis Pérez Reverte em discurso directo. Com a devida vénia à autora da entrevista e àquele semanário que saía ao sábado mas passou a sair à sexta-feira.

 

«O ser humano é a soma daquilo que viveu e do que leu.»

«É impossível digerir bem o resultado da vida se não houver livros que o permitam.»

«A vida como repórter tirou-me ou diminuiu muitas palavras que antes eram importantes, como pátria, religião, Deus. Deixou-me poucas palavras, e entre elas está dignidade, respeito, honra, lealdade. Os cães são isso tudo, sobretudo leais. E a maior virtude do ser humano é a lealdade.»

«Numa luta entre cães, quando um deles se rende, oferece o pescoço ao vencedor e este deixa-o viver. Se o venceu, não o mata. O ser humano é o único que mata aquele que se rendeu. Isso vi-o com os meus olhos, ninguém me contou.»

«Houve um tempo em que havia homens livres. Havia desertos, estepes, bosques, campos, lugares onde o ser humano podia ser dono de si mesmo. Hoje, a televisão por satélite, o telemóvel, as telecomunicações, a internet, mataram o homem livre.»

«A tecnologia cria uma armadilha. Não mata o homem, mas encerra-o. Mete-o num campo de concentração tecnológico levando-o a acreditar que é livre quando não é. O homem perdeu a liberdade no momento em que o mundo se converteu num lugar controlável tecnologicamente.»

«O cão tem sentimentos extremamente refinados, elevados. É sensível ao amor, ao calor, à companhia, à bondade, à maldade. Não há cães maus, há homens maus.»

«O homem peca contra a natureza. Estamos continuamente a cometer pecados contra ela. Se existisse uma moral cósmica, estaríamos em pecado mortal, porque usamos a natureza e a abandonamos. Usamo-la como usamos os cães. A Humanidade vive em pecado mortal há muitos séculos.»

«O mundo é um lugar perigoso e hostil, onde o mal é frequente, onde a ambição, a luxúria e a crueldade são constantes e por vezes não são só características humanas, mas regras cósmicas - porque também o cosmos é cruel, aí estão os tsunâmis, os terramotos, as inundações.»

«Há uma frase que uso há muito tempo: se juntar um malvado com mil estúpidos, terá mil e um malvados. O mal é contagioso, mas, se não houvesse tantos estúpidos, os malvados não teriam tanto poder.»

«Hoje em dia todo o escritor, desde o maior génio da literatura ao medíocre junta-letras, tem sobre si a guilhotina terrível da estupidez.»

«Se tivesse que dividir o mundo em dois grandes núcleos de pessoas, não seria entre bons e maus. Seria entre os que sabem que vão morrer e os que não o sabem. As pessoas que sabem que vão morrer são melhores - são realmente humanas.»

«Vivi uma vida inteira a acumular possíveis "últimas vezes". Isso deu-me uma forma de olhar o mundo que não pode ser igual à de uma pessoa que não teve esse tipo de experiência. Não é uma queixa: gosto dessa espécie de melancolia, de me sentir incerto. Gosto de ter 70 anos (vou fazer este ano) e continuar a acreditar que no fim da madrugada cinzenta pode não haver nada, pode não haver outra noite. Desse modo vivo organizado, tenho tudo preparado.»

«A escrever ainda posso ser jovem, seduzir mulheres, lutar contra inimigos, bater-me em duelo, viver guerras. Acordo com a ilusão de ser capaz de contar bem aquilo que estou a contar. É um motivo excelente para viver e para envelhecer com dignidade.»

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