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Eis o Presidente.

por Luís Menezes Leitão, em 11.10.15

Marcelo Rebelo de Sousa é indiscutivelmente um dos maiores talentos políticos da sua geração. Apesar de ter simultaneamente construído uma brilhante carreira universitária, a sua vida tem essencialmente dois pilares fundamentais: a comunicação social e a política. São eles que lhe permitiram chegar aonde chegou e lhe vão garantir o acesso ao palácio de Belém.

 

Na comunicação social foi sempre absolutamente temível: Desde a página 2 do Expresso, em que Marcelo criava sucessivos factos políticos que ocupavam o país todas as semanas, passando à TSF e depois à TVI (com a RTP em interregno), Marcelo ia sempre marcando a agenda política. Os jornalistas eram por ele facilmente manipulados, como o episódio da vichyssoise com Paulo Portas demonstrou. Na TVI Marcelo arrasou sistematicamente todos os governos, mesmo que fossem do PSD. O governo de Santana Lopes chegou ao ponto de pôr as embaixadas a pesquisar se noutros países existia algum caso comunicacional como o de Marcelo, e fez pressão para o pôr fora da antena, o que conseguiu. Mas foi o princípio do fim desse governo. A partir daí os governos continuaram a temer Marcelo, mas nunca mais se atreveram a tentar removê-lo.

 

Já na política Marcelo nunca teve o mesmo sucesso, sendo há muitos anos uma esperança adiada. Quando concorreu à Câmara Municipal de Lisboa, fez das maiores campanhas mediáticas alguma vez feitas, com mergulhos no Tejo, condução de táxi, e arruadas constantes, mas Sampaio impôs tranquilamente a solução da união de esquerda com o PCP e ganhou a eleição, num episódio que António Costa parece querer agora recuperar. Mais tarde Marcelo ainda chegou à liderança do PSD, mesmo depois de ter prometido que não o faria "nem que Cristo descesse à terra", mas o seu consulado no PSD não deixou boas recordações. Muitos militantes me diziam que era muito difícil lidar com alguém que escreve com as duas mãos, pois nunca se sabia qual das mãos lhes tinha escrito aquela carta. Só que Marcelo deu-se mal quando tentou jogar dessa maneira com Paulo Portas. Portas deu uma entrevista arrasadora em que pôs tudo em pratos limpos e terminou com a liderança de Marcelo, assim como com as suas hipóteses de chegar a primeiro-ministro.

 

Marcelo preparou-se então para uma longa travessia do deserto rumo às presidenciais. Há dez anos poderia ter avançado, mas preferiu ceder o palco a Cavaco. Há uns meses Passos Coelho, que não esquece o abandono a que foi votado por Marcelo quando este foi líder do PSD, fez aprovar uma moção no congresso a excluir o apoio do partido a Marcelo. Este mais uma vez preferiu esperar e foi pacientemente ganhando a simpatia do povo laranja, o que conseguiu, de tal forma a que nem o líder pode agora impedir a sua candidatura.

 

Tudo dependia, no entanto, dos restantes candidatos. Sempre achei que Marcelo só se candidataria à presidência se pudesse ir num andor, com a vitória assegurada na linha da partida. Era por isso evidente que se tivesse que travar um combate difícil como, por exemplo, com António Guterres, não avançaria. Mas António Costa fez-lhe o favor de arranjar um candidato folclórico de esquerda radical, como Sampaio da Nóvoa, e as outras candidaturas que foram entretanto surgindo à esquerda, como Maria de Belém ou o ex-padre Edgar Silva, serão facilmente descartáveis com uma pequena dose de paciência evangélica. Quanto a Rui Rio, já perdeu o momentum, e mesmo que agora avançasse com o apoio dos líderes da coligação, já não iria a lado nenhum.

 

O andor está assim assegurado e Cristo pode então finalmente descer à terra. Ecce homo! Eis o Presidente.


7 comentários

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De Luís Henrique Fernandes a 11.10.2015 às 11:32

Talento político?!

"Já na política Marcelo nunca teve o mesmo sucesso, sendo há muitos anos uma esperança adiada. Quando concorreu à Câmara Municipal de Lisboa, fez das maiores campanhas mediáticas alguma vez feitas, com mergulhos no Tejo, condução de táxi, e arruadas constantes,..."

O autor do Post(al) tem a obrigação de ser mais sério.

Luís Henrique Fernandes
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De Vento a 11.10.2015 às 12:19

Vejo que aprofunda a reflexão e homilia de LMM na SIC.

Em resumo: não há outro candidato à direita. Parece-me que é sempre isto que acontece à direita quando não se endireita.

Aliás, a direita em matéria teológica quando não vê o Redentor e se embrenha na noite escura tem tendência a deixar-se arrastar.
E também nisto Marcelo é hábil em perceber.
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De Octávio dos Santos a 11.10.2015 às 13:15

Declarar alguém como vencedor de uma eleição meses antes de aquela se realizar tem os seus riscos. Como, aliás, se verificou há uma semana...
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De Anónimo a 11.10.2015 às 13:29

Quando é que o PS apoiou Sampaio da Nóvoa? Quando e onde? Guterres prefere estar num lugar, onde é mais útil e onde se faz o bem e se é humano de verdade. Se Guterres avançasse era lógico que Marcelo não avançaria porque está farto de perder, mas mesmo assim nunca parou de sonhar e aí vai ele ao encontro do sonho. Acredito que será um Presidente de todos os portugueses, coisa que Cavaco não foi, foi sim, um péssimo Presidente que ficará na História como o pior dos Presidentes.
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De Retornado a 11.10.2015 às 16:56

Ao fim de 40 anos, o afilhado do Chefe do Estado Novo, quem diria!

O filho do último Governador de Moçambique, quem diria!

Teve gente tão boa e de selecção, o Estado Novo, e todos saneados, para serem substituídos por chicos-espertos.

Também no Estado Novo havia chicos-espertos, esses simplesmente saltaram de combóio e não perderam viagem, inclusive pides.

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De gty a 12.10.2015 às 20:48

Há partes do seu elogio que poderiam ser do Conde de Abranhos.

O Marcelo, sempre pensei que se estivesse a preparar para se candidatar à sucessão de... Dilma.

É que quem profere frases destas não estará à espera que votem nele para Presidente da República de Portugal:

‹‹Marcelo referiu que o Brasil hoje é a maior potência económica e o maior país lusófono e realçou a ideia que “Portugal precisa mais do Brasil, do que o Brasil de Portugal”.
Afirmou que o acordo tem “virtuosidades” e disse que “para Portugal conseguir lutar pela lusofonia no mundo tem de lutar por dar a supremacia ao Brasil.”››
http://jpn.up.pt/2008/05/01/marcelo-rebelo-de-sousa-o-mundo-da-lusofonia-tem-de-assumir-que-a-lideranca-e-do-brasil/
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De Hélder S. Neto a 13.10.2015 às 05:40

Marcelo Rebelo de Sousa vs Marcello Caetano.

Duas figuras incontornáveis para a doutrina jurídica na lusofonia. Não vejo com bons olhos a ida do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa a Belém, pois que não acho digno de louvor para ele, até porque os portugueses não saberão reconhecer o seu trabalho.
A panorama político português não têm a ética desejável e faz com que os restantes países da lusofonia concorrem para o mesmo erro, pois que é mais fácil copiar o exemplo do pai do que de seu parente mais próximo

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