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(E/I)Migrantes

por jpt, em 01.07.19

Há alguns anos Pedro Abrunhosa apresentou esta canção, dedicada aos portugueses que emigravam. Serviu, e também através do próprio compositor, para criticar o governo de então, e em particular o PM Passos Coelho. Governando sob o espartilho dos compromissos internacionais foi-lhes, a governo e seu primeiro-ministro, apontada a responsabilidade directa pela emigração. Correndo, de forma constante, o dito que Passos Coelho  mesmo a ela apelava. Sublinho: foi afirmada, constantemente, a responsabilidade directa e primordial do governo português no processo de emigração dos nossos compatriotas.

O que não espantará quem tenha algum interesse sobre a história portuguesa recente: os fluxos migratórios dos décadas de 1950 e 1960, para a Europa e África, e também para a América do Norte, são imputados às responsabilidades do Estado Novo, e ao seu grande vulto, Salazar. Tanto pela sua política de povoamento colonial como pelo estado subdesenvolvido da socioeconomia nacional.

Olho para a fotografia que corre mundo, o pai salvadorenho afogado com a sua filha de dois anos no Rio Grande, durante a tentativa de entrar nos EUA. Comovo-me (como não?), e de forma redobrada, pois também pai de uma filha. Que pesadelo, a sublinhar o pesar com as questões sociológicas que um drama destes denota.

Mas, e mais uma vez, noto algo paradoxal: os mesmos que promoveram e seguiram a concepção abrunhosista da história portuguesa, que invectivaram Passos Coelho, são aqueles que esquecem por completo a origem dos desgraçados afogados. Como se estes oriundos de uma selva primeva, anómica, alheia à ordem cultural e à Política. E, em assim sendo, como se as responsabilidades políticas sobre isto residam, exclusivamente, no destino procurado e não na origem dos migrantes.

Exactamente ao contrário do que pensa(ra)m e agita(ra)m sobre Portugal. É uma interpretação dos factos que denota uma mundividência. Racista, incompetente. E aldrabona. E, acima de tudo, tão medíocre como o raio da cançoneta demagógica.


15 comentários

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De Bea a 01.07.2019 às 08:19

Ainda não ouvi a canção de Abrunhosa e nem me apetece ouvi-la agora. Concordo que devem procurar-se as causas de tanta migração (julgo não ser preciso, são conhecidas). Mas não ilibo Passos Coelho da migração e sim, incentivou os jovens licenciados a emigrar. Contribuiu alegremente para o país de velhos que somos cada vez mais e as consequências também são várias e sem benefício; espantou espíritos esclarecidos cuja educação o Estado português pagou para, perdulário, oferecer a outrém; desuniu famílias e desenraizou indivíduos que talvez nem voltem e faziam falta, que tinham direito a encontrar no seu país um modo de vida.

Se julga que são idênticos o mundo português do tempo de Passos e o mundo dos que, como o salvadorenho, morrem a caminho de lugares que não os querem...não pode haver conversa sobre.
Outra coisa é pensar que a solução deste fluxo persistente não passa apenas pela recepção de todos os que fogem de guerras e regimes autoritários, mas para que termine será necessário que as condições políticas e sociais se modifiquem nos países de origem. O que mexe com a ingerência estrangeira num país e governo. Será possível sem os estragos e as prepotências habituais que coartam liberdades, será possível em países desinteressantes, que não têm riqueza passível de exploração...isto era o que gostaria de saber. Os direitos humanos valem muito pouco apesar de andarem na boca de toda a gente.
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De Anónimo a 01.07.2019 às 09:20

Bom dia! Eu pençava que a muzica foi feita porque naquelas alturas, do Passos e assim, saeram de Portugoal mais gente que nos anos de 1960 e posto isto haver mercado para ela. Obrigado

Celso Silva
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De Anónimo a 01.07.2019 às 09:50

É isso tudo. :-)
Isabel
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De Justiniano a 01.07.2019 às 10:45

Parece-lhes evidente e confessam!!
Os outros, os povos exóticos, são meros agentes passivos da história!! Nem se apercebem da mais indigente arrogância e condescendência racista que promovem! E vão mais longe, ao ponto de afirmarem estar o destino desses povos exóticos nas mãos e nas decisões do ocidente!! Os outros serão o que nós deles fizermos.

(É evidente que esta indigência moral e intelectual não absolve Passos Coelho do seu momento mais infeliz. Passos Coelho também tinha destas coisas, ao invés de se calar, encontrar a forma mais infeliz de confessar que o Estado não tinha como valer ao sustento e realização profissional dos seus jovens professores. Um momento lamentável que, sinceramente, ainda hoje deve lamentar com amargo)
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De Luís Lavoura a 01.07.2019 às 11:01

medíocre como o raio da cançoneta demagógica

A canção não me parece nada medíocre, pelo contrário, é gira.

E também não me parece demagógica, é simplesmente sobre a saudade dos emigrantes, isso não é demagogia.
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De jo a 01.07.2019 às 11:11

Está um pouco confuso.
Comparar a migração recente em Portugal com a migração de pessoas que arriscam a vida para passar uma fronteira é não ter noção das proporções.

Quando temos governos do suposto mundo civilizado que pensam que é mais importante barrar as pessoas do que impedir que se afoguem, temos um problema de civilização. Acontece que nós vivemos nesse mundo dito civilizado, e temos alguma responsabilidade sobre os seus governos.

É natural que nos indignemos mais com as coisas que são feitas mal em nosso nome do que com as feitas em nome de outros.

Isso não invalida, claro, que se devam também condenar os países que deram origem a esses fluxos. Mas a nossa imprensa parece só conhecer a Venezuela e o Brasil na América Latina, e África para eles é um mundo lá para o sul cheio de cafres.
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De Cristina Torrão a 01.07.2019 às 11:51

Mais um excelente post.
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De Anónimo a 01.07.2019 às 13:46

Passos Coelho enxotou malvadamente a nossa juventude qualificada. Já António Costa aconselhou-a sensatamente a procurar oportunidades noutros países.
Qual é a diferença práctica? Pois imensa, Costa é do PS.
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De Anónimo a 01.07.2019 às 17:42

E no entanto a esposa e mãe não quis arriscar, sabia que era suicídio, mas tem culpa de não ter impedido o pai de levar a filha para a morte certa.
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De Vento a 02.07.2019 às 02:10

É-nos mostrado na foto, que na posta não se reproduz, sem dúvida, a perspectiva de um ocidente caduco - aquele que fica para lá do rio mas que também nos atinge, quer na vertente intelectual quer na ausência de um sentido de amanhã - diante de um outro ocidente mais rico em humanidade, talvez devido à ausência de pão.
É pena que o(a)s "cientistas" hodiernos ainda não tenham aprendido sobre a neuro-plasticidade do cérebro e a capacidade que a mente tem, algo distinto do cérebro, em rebobinar a sua viciada estrutura e até mesmo alterar a influência genética. 87% a 95% das doenças são determinadas pela forma como dirigimos nossos pensamentos e resignadamente os aceitamos.

Dito isto, um breve historial importa referir em torno do fenómeno (e)migratório português. Procurarei ser preciso nas datas, mesmo sem consulta a livros.

O referido fenómeno poderá constatar-se a partir do século XVI e percorre também com grande intensidade o século XIX. Este mesmo fenómeno, tendo em conta o tempo histórico, pode levar a concluir com exactidão que este partir inicialmente é determinado mais pelo espírito de aventura de um povo que o enraizamento dele à terra que o viu nascer. Não é estranho que assim seja, pois escrevo sobre um Portugal Imperial num período em que o Império animava as mentes da nação; e não só desta. Esta mundivisão do proporcionar ao mundo um olhar do todo e nele permanecer é uma característica que acompanha até nossos dias o mais intimo da alma lusa.

Aqui chegado, induziria em erro se não referisse factos e exemplos que os corroboram. A independência do Brasil ocorre em 1822. Porém em 1709, como norma futura, determinou-se que para emigrar para aquele território seria necessário passaporte. Os registos obtidos permitem constatar que a emigração era na sua base masculina, constituída em mais de 60% por pessoas instruídas, em regra caixeiros e negociantes, e que pouco menos de 30% eram pessoas rurais. Um maior fluxo de partida nota-se a norte de Portugal.
Um período de paragem verifica-se durante a guerra civil (absolutistas e liberais) que ocorre entre 1832-1834. Mais tarde as revoltas militares, a instabilidade política e o recrutamento de jovens para o exército também determinam este ciclo.
Com a Carta Constitucional de 1826, já com a instauração do liberalismo (1834), passa a vigorar o exercício pleno da liberdade, políticas e públicas, e nesta se insere o direito do cidadão abandonar o país e sair para o estrangeiro munido de um passaporte.
Se o princípio do fenómeno ocorre segundo o espírito acima apontado, deve-se também entender que o Estado Liberal, a partir de 1834, até meados do século XIX revela incapacidade em conter a agitação sociopolítica, a crise económica e Financeira em que Portugal mergulhou.
Determina-se, assim, que a outra causa da emigração é a hereditária incompetência política que assola a nação.
O caso das ilhas sempre foi um fenómeno típico a que Portugal nunca deu resposta. E também estes portugueses, alguns deles vendidos como escravos no Brasil independente, encontram aí a sua nova terra, não menos dura, mas mais humilhante que a anterior. De tal forma se agigantou o escândalo que Portugal ordena a retirada desses emigrantes.
E assim, a partir de 1838, começa a emigração para Angola com instruções ao Governador Geral de assistir os que em extrema miséria tinham sido tirados do Brasil, dando-lhes terras para cultivar, oferecendo-lhes sementes para o primeiro ano bem como utensílios agrícolas.
Anos mais tarde Salazar aceita tacitamente a emigração, impondo que ela seja constituída por homens, garantindo assim que as receitas arrecadadas por esses emigrantes chegassem às mulheres e aos filhos e engrossassem com divisas o Banco de Portugal.
Após a revolução de Abril, e com empenho em não quebrar a tradição, os diversos governos, até hoje, apostaram na continuidade.
Conclui-se, assim, que a fuga dos ditos cérebros não é um fenómeno de hoje, pois a edificação e feitos dos portugueses no mundo ao longo da história atestam a sua capacidade científica, intelectual e empreendedora. Sem esquecer que também nas mãos de oportunistas se encontraram, até mesmo de alguns seus conterrâneos.
Finalmente, nessas terras fizeram e fazem sua pátria efectiva sem nunca renunciar à sua pátria afectiva.
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De Anónimo a 02.07.2019 às 15:19

Vento,
Permita-me o abuso. Que leituras aconselha para se entrar no mundo da emigração portuguesa na primeira metade do século XX, especialmente, dos anos 20 aos 40, para o Brasil e Angola? E, já agora, recuando um pouco, onde podemos encontrar testemunhos da segunda metade do século XIX, na colonização da África Ocidental. Obrigada.
Isabel
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De Vento a 02.07.2019 às 18:11

Isabel, não é abuso o que solicita. Pede informação sobre matéria que envolve o cruzamento de muitos dados. No sentido de ajudar a suas questões, ao invés de livros, anexo algumas ligações que, certamente, a conduzirão a organismos e instituições (e também livros) que lhe proporcionarão matéria para sua pesquisa.
Aqui vai:
https://journals.openedition.org/lerhistoria/1950?lang=en
Nota: siga as ligações que são apontadas através da numeração a azul.

http://observatorioemigracao.pt/np4/4707.html

http://observatorioemigracao.pt/np4/1308

http://antt.dglab.gov.pt/exposicoes-virtuais-2/passaportes-e-vistos/

https://www.degruyter.com/downloadpdf/j/jbla.1976.13.issue-1/jbla-1976-0113/jbla-1976-0113.pdf

http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223378081S4cET4df4Yh89IX7.pdf

Ainda para indicação de organismos e instituições que pode contactar, anexo esta ligação:
http://observatorioemigracao.pt/np4/file/5751/OEm_EmigracaoPortuguesa_RelatorioEstatis.pdf
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De Anónimo a 03.07.2019 às 21:30

É uma ajuda preciosa para tentar perceber alguns momentos do passado recente. Já fui passando os olhos ao de leve e dei com dados sobre o crescimento da população branca em Angola, a pneumónica e a guerra civil espanhola. Muito útil:)
Isabel
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De Vento a 05.07.2019 às 12:56

Consulte também os gráficos que dizem respeito ao fluxo migratório entre os anos 20 e 40 do século passado, neste trabalho que já tinha anexado e que volto a fazer:
http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223378081S4cET4df4Yh89IX7.pdf

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