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Há quem assinale a data de 5 de Outubro de 1143 como a da independência de Portugal. É um facto que, em Zamora, Afonso VII, o imperador da Hispânia, reconheceu o título de rei a seu primo e Portugal como reino. Contudo, não prescindiu da vassalagem de Afonso Henriques.

Zamora (2).JPG

Zamora, na nargem direita do rio Douro (Duero)

 

Atentemos ao que diz José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (2007; extractos das páginas 207 a 214):

No Verão de 1143, chegou ao reino de Leão o cardeal legado da Sé Apostólica Guido de Vico (…) Guido parece ter-se dirigido primeiro a Portugal. Há informações acerca da sua estadia no Porto e em Coimbra.

(…)

De Coimbra, o legado dirigiu-se a Valhadolid, onde, em 19 e 20 de Setembro, celebrou um concílio.

(…)

Depois de ter encerrado o concílio, o legado papal dirigiu-se a Zamora, onde estava a 4 e 5 de Outubro, e onde se reuniu com os reis de Portugal e de Leão. A este encontro chamam os historiadores modernos a «conferência de Zamora». Tem sido considerada como a reunião que selou o acordo entre Afonso Henriques e Afonso VII, que marcou o reconhecimento pelo segundo da dignidade régia do primeiro, e que permitiu a celebração de um tratado, que talvez incluísse uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos, mas do qual, infelizmente, não existe nenhum texto.

(…)

A 13 de Dezembro de 1143, Afonso Henriques dirigiu uma carta ao papa declarando que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos do cardeal Guido, como cavaleiro de São Pedro (…) Também se torna quase certo que esta decisão obtivera o acordo do cardeal, uma vez que a carta declara que o rei tinha prestado homenagem nas suas mãos. (…) Estes factos significam, por sua vez, a realização de conversações anteriores, talvez por ocasião da passagem de Guido por Coimbra [ou seja, antes da conferência de Zamora].

Tratado de Zamora.png

Assinatura do Tratado de Zamora. Painel de azulejos do início do século XX, em Portimão - Foto de Aires de Almeida no Flickr

 

Consideremos este ponto importantíssimo: antes de se dirigir a Zamora, Afonso Henriques prestou homenagem ao cardeal Guido de Vico. Porquê? Só podia ser por saber que o primo não prescindiria da sua condição de vassalo! Como imperador, Afonso VII podia ter reis (e tinha) como vassalos, por isso, o reconhecimento do título real a Afonso Henriques e de reino a Portugal não significa uma aceitação da independência por parte dele.

Neste sentido escreve igualmente o Prof. Miguel Gomes Martins em 1147 - A Conquista de Lisboa (2017):

[Na conferência de Zamora deve ter sido também debatido] o compromisso por parte de Afonso Henriques de não voltar a intervir militarmente na Galiza (…) Este ponto pode mesmo ter sido decisivo para o que se passou de seguida, ou seja, para que Afonso VII, em retribuição e talvez por pressão do legado [papal], reconhecesse o título de rei a Afonso Henriques, algo a que o imperador não deve ter colocado grandes entraves, já que em nada beliscava a sua supremacia face ao primo, que continuaria (…) na sua dependência vassálica. Pelo menos, assim o pensava, pois desconhecia o que secretamente tinha sido negociado em Coimbra, semanas antes, entre Afonso Henriques e Guido de Vico, ou seja, a preparação da vassalagem do monarca português à Santa Sé, acto que necessitava ainda de ser formalizado pelo rei, mas acima de tudo, pelo papado (p. 98).

1147 A Conquista de Lisboa.jpg

Temos aqui uma situação muito curiosa e que costuma ser ignorada: o cardeal Guido de Vico aceitou a homenagem de Afonso Henriques, prometendo libertá-lo do jugo de Afonso VII e, passadas semanas, serviu de mediador num encontro em que o rei português não contestou a sua condição de vassalo do imperador hispânico! Como se explica que um legado papal tivesse tal atitude?

A explicação estará em negociações secretas levadas a cabo entre D. João Peculiar, arcebispo de Braga, e o cardeal Guido de Vico, que terão incluído o casamento de D. Afonso e D. Mafalda de Sabóia. José Mattoso (2007) considera o arcebispo de Braga uma figura chave em todo este processo. Chega a afirmar que D. João Peculiar terá contribuído tanto como o próprio Afonso Henriques para a independência de Portugal.

João Peculiar.JPG

Estátua do arcebispo D. João Peculiar, em Braga.

A 13 de Dezembro de 1143, cerca de dois meses depois do encontro de Zamora, Afonso Henriques encontrou-se em Braga com o arcebispo D. João Peculiar e com os bispos do Porto e de Coimbra, a fim de se escrever a missiva (Claves regni celorum) a enviar ao papa, conforme combinara com o cardeal, solicitando vassalagem à Santa Sé. Ora, se o primo já tivesse reconhecido a independência de Portugal, tal passo seria desnecessário.

Este pedido de vassalagem chegou, porém, a Roma numa altura conturbada, em que se realizaram dois conclaves no espaço de seis meses. Inocêncio II, o papa que enviara Guido de Vico à Hispânia, morreu antes do regresso do cardeal. O seu sucessor, Celestino II, faleceu, antes de responder ao rei português e foi finalmente Lúcio II quem enviou a bula Devotionem tuam, datada de 1 de Maio de 1144. Quando finalmente o nosso primeiro rei a segurou nas mãos, porém, deve ter ficado desiludido.

Em primeiro lugar, o papa não o intitulava rei, mas sim «dux portugallensis». E não dizia claramente que Afonso Henriques estaria livre da suserania do primo, optando por uma linguagem difusa: promete-lhe, tanto a ele, como aos seus sucessores, a protecção de São Pedro para as suas almas e para os seus corpos.

Afonso Henriques viu-se, assim, numa situação bastante ambígua: Roma aceitava-o vassalo (e o censo em ouro), ao garantir-lhe a protecção de São Pedro. Mas intitulava-o apenas de «duque»!

O nosso primeiro rei teria de esperar ainda mais de trinta anos para ver reconhecido o seu título real, por parte da Santa Sé. Tinha já cerca de setenta anos, quando recebeu a Bula Manifestis Probatum de Alexandre III.

Manifestis_Probatum.jpg

Bula Manifestis Probatum, de 23 de Maio de 1179


6 comentários

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De V. a 05.10.2019 às 13:51

Então quer dizer que os republicanos se enganaram a roubar o dia de Portugal? É bem feito.
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De Anónimo a 05.10.2019 às 19:25

Pequena nota: a estátua de João Peculiar já não se encontra no local onde a foto postada foi tirada. Recolheu aos armazéns camarários.
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De Cristina Torrão a 06.10.2019 às 11:27



Não sabia.

E obviamente não sei qual foi a razão. Mas sinceramente sempre achei que a estátua não era muito apropriada a um clérigo, de feições duras e braços musculados, como um guerreiro. Enfim, na Idade Média, até seria possível, houve bispos e arcebispos guerreiros. Não foi, porém, o caso de D. João Peculiar. Acompanhou várias vezes o exército de D. Afonso Henriques, mas em missão diplomática. Imagino-o um homem perspicaz, muito inteligente, não com feições de guerreiro.

Acho, no entanto, que não deveria faltar uma estátua dele, em Braga.
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De Luís Lavoura a 07.10.2019 às 10:38

É curioso como naquele tempo, em que mal havia estradas, estas pessoas viajavam tanto. Afonso Henriques ia a Zamora, depois a Braga... Todas estas viagens deveriam demorar um ror de tempo, e serem muito caras e custosas de planear.
Zamora fica a uns bons 400 quilómetros de Coimbra (nesse tempo a capital de Portugal), que devem ter custado a Afonso Henriques uns bons dez dias a percorrer...
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De Cristina Torrão a 07.10.2019 às 11:41

Ao contrário do que se pensa, na Idade Média viajava-se muito, sim. Principalmente, imperadores, reis e príncipes andavam sempre numa roda viva. Compreende-se: tinham de manter o contacto com a população, dar-se a conhecer. Lembremos que não existia comunicação social. Um rei que não viajasse pelo seu reino só era conhecido por aqueles que com ele privavam, na corte. Corria mesmo o risco de o povo nem saber bem quem reinava. Enfim, com Afonso Henriques não haveria tanto este perigo, já que ele se manteve quase sessenta anos no poder.

Sim, as viagens eram custosas de planear, mas uma comitiva como a que acompanhava Afonso Henriques teria já uma certa rotina. Não eram, porém, tão caras como pensaríamos, os magnates e alcaides das terras e das localidades por onde a comitiva real passava, como vassalos do rei, tinham a obrigação de o receber, assim como aos seus acompanhantes, e de os alimentar (a maior parte das vezes, porém, o rei preferia pernoitar na sua própria tenda, mais luxuosa do que muitos paços e residências de alcaides).

Dependendo do tempo e das condições do terreno, faziam-se, em média, de 30 a 50 km por dia.

Já agora: Coimbra não era a capital de Portugal, nesse tempo ainda não existia o conceito de capital. Mas era realmente onde Afonso Henriques tinha a sua corte, a partir de, sensivelmente, 1130/31. Afonso Henriques viveu mais de 50 anos em Coimbra e é curiosamente identificado com Guimarães. Mas há outro caso deste tipo: D. Dinis é identificado com Coimbra, mas a sua cidade preferida (e onde viveu) era sem dúvida Lisboa (e foi em Lisboa que ele fundou a Universidade).

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