Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Em Setembro ou Outubro de 1127, D. Afonso VII entrou com um exército no norte do condado Portucalense. D. Afonso VII, ou Afonso Raimundes, o primo de D. Afonso Henriques, era rei de Leão, Castela e Galiza havia cerca de ano e meio. Depois da morte de sua mãe, D. Urraca, em Março de 1126, os reinos hispânicos entraram em convulsão e o jovem rei viu-se obrigado a impor a sua autoridade, a fim de suceder a seu avô como imperador. Organizou campanhas contra Aragão e, tendo subjugado o rei aragonês, entrou pelo Minho à frente de um exército.

O condado estava já muito dividido, porquanto o Norte, mais poderoso, apoiava Afonso Henriques. Por isso, ele se aquartelou em Guimarães, enquanto D. Teresa e Fernando Peres de Trava se quedavam por Coimbra ou Viseu. Afonso VII soube aproveitar este conflito. Foi na sequência desta sua invasão que se deu o cerco a Guimarães, originando uma das lendas mais conhecidas da nossa História: a lenda de Egas Moniz de Ribadouro, que terá ido, com a família, de corda à garganta, pedir perdão ao rei leonês, ao ver-se impossibilitado de manter a sua palavra, em como Afonso Henriques prestaria vassalagem ao primo.

Egas Moniz em Leão.png

Egas Moniz em Leão (Roque Gameiro, Quadros da História de Portugal, 1917

 

Na verdade, e segundo José Mattoso (2007), esta lenda terá sido obra de um trovador da corte de D. Afonso III, pai de D. Dinis, chamado João Soares Coelho. Na segunda metade do século XIII, a família de Ribadouro estava extinta, mas João Soares Coelho era seu descendente por linha bastarda. A fim de honrar o seu antepassado, criou um cantar épico, a Gesta de Egas Moniz, onde se contava o episódio. Este entranhou-se no imaginário colectivo e foi incluído nas crónicas medievais, como se de um facto se tratasse.

Como todas as lendas, é baseada em acontecimentos verídicos (invasão de Afonso VII e o cerco a Guimarães), mas fica por dizer que, nessa altura, era D. Teresa quem regia sobre o Condado Portucalense, pois ainda não se tinha dado a batalha de São Mamede. Além disso, Afonso Henriques, com cerca de dezoito anos, era um jovem infante (por sua mãe se intitular rainha), que tinha sido investido cavaleiro há apenas um ou dois anos (conforme as versões) e que não tinha ainda travado nenhuma batalha, nem feito uma conquista que fosse.

2009-05-06 Guimaraes 004.JPG

Castelo de Guimarães, Foto © Horst Neumann 2009

Nota: Só na segunda metade do século XIII, com as reformas góticas, o castelo de Guimarães adquiriu as características que se lhe conhecem, hoje em dia, incluindo os oito torreões de planta quadrangular, os merlões pontiagudos e a torre de menagem de planta quadrada.

 

Ao saberem Guimarães em perigo, alguns barões do Norte foram acudir ao infante, entre eles, Soeiro Mendes o Grosso, tenente da terra de Sousa. Parece ter sido ele quem coordenou a defesa da vila e do castelo. As fontes não permitem perceber com rigor a cronologia, a duração, ou mesmo a forma como decorreu o cerco, mas o seu desfecho parece ter sido favorável ao rei de Leão. A vila de Guimarães, nesse tempo, e ao contrário do castelo, não tinha ainda defesas eficazes, não estando sequer amuralhada em todo o seu perímetro. Por isso, e contrariando a lenda, Afonso Henriques acabou por se render e por aceitar as exigências do primo, prometendo-lhe vassalagem, mas… em nome da mãe, D. Teresa!

Neste caso, o filho rebelde, pelos vistos, não teve problemas em reconhecer sua mãe como soberana do condado. E conseguiu, assim, uma situação dúbia, pois prometeu vassalagem sem a prestar, uma situação que, como sabemos, virá a explorar ao sabor dos seus interesses, no futuro. A prova da rendição de Afonso Henriques está no facto de ter confirmado, com a sua assinatura, três importantes diplomas de D. Afonso VII, lavrados a 13 de Novembro de 1127 (pouco depois do cerco), em Santiago de Compostela. Ou seja, depois de se render e prometer vassalagem em nome de sua mãe, Afonso Henriques acompanhou o primo à capital da Galiza.

 

Fontes:

Af H Mattoso.jpg

 

Guerreiros de Pedra.jpg

 

1147 A Conquista de Lisboa.jpg

 


3 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 27.09.2019 às 11:58

Cristina, é sempre bom aprender consigo e, se não me leva a mal aproveitar os seus conhecimentos de história, pergunto o que sabe sobre a hipótese de Afonso Henriques ser filho de Egas Moniz? É lenda? Obrigada.

Isabel
Imagem de perfil

De Cristina Torrão a 27.09.2019 às 12:50

Isabel, só conheço uma versão e é lenda, sim.

Há uma lenda que diz que Afonso Henriques nasceu aleijado das pernas. Egas Moniz pediu aos pais para lhe confiarem o menino, pois tinha muita fé em Santa Maria, em honra da qual mandara construir uma igreja em Cárquere. A igreja ainda não estava pronta, mas ele fazia vigílias, colocando o bebé sobre o altar. Afonso Henriques cresceu saudável e escorreito, pelo que a lenda diz que Egas Moniz o substituiu por um filho seu.

Não acredito na troca dos bebés, mas há dois aspectos nesta lenda que me põem pensativa:

1 - Afonso Henriques nasceu aleijado das pernas? Qual a origem desta crença? Todos sabemos que numa lenda, há sempre um fundo de verdade...

2 - Se Egas Moniz realmente trocou as crianças, que foi feito do "verdadeiro" Afonso Henriques? Não consta que Egas Moniz tivesse um filho aleijado...

Enfim, mistérios da História...

Também há quem diga que, antes de Afonso Henriques, D. Teresa terá dado à luz um menino aleijado, que acabou por morrer. Ao nascer o segundo, deram-lhe o mesmo nome: Afonso (por ser o nome do avô). Acho esta tese interessante, pois podia inclusive ajudar a explicar a confusão sobre a data do seu nascimento. Penso, porém, que a tese não é passível de ser confirmada.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 27.09.2019 às 14:16

Em pleno século XX havia mais do que uma família com o lema: ‘nós’ não descendemos dos reis, os reis é que descendem de ‘nós’.
Dito precisamente por quem se afirmava descendente de Egas Moniz. Daí a curiosidade.

Isabel

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D