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Teresa, Bermudo e Urraca.JPG

Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)

 

Calcula-se que foi em Julho de 1122 que D. Teresa deu a sua filha mais velha, Urraca Henriques, em casamento a Bermudo Peres de Trava. Este consórcio gerou um verdadeiro vendaval no condado Portucalense.

Nesta altura, D. Teresa já tinha perdido muitos apoios, pois os nobres de Entre-Douro-e-Minho nunca aceitaram a influência da família de Trava. Convém, no entanto, fazer aqui um parênteses para explicar que o condado Portucalense, recebido por D. Teresa à altura do seu casamento com D. Henrique, era a junção de dois antigos condados: o Portucalense propriamente dito, que ia sensivelmente até à região do Douro, e o condado de Coimbra, que englobava o restante território, de fronteira sul indefinida, mas pertencendo-lhe ainda o castelo e a localidade de Soure. As terras de Viseu, Seia e Coimbra mantiveram-se fiéis a D. Teresa, pelo que, nos anos que antecederam São Mamede, poderia ter-se verificado a divisão. Para isso, contribuía igualmente o facto de os senhores do Norte, com mais posses e maior poderio militar, desdenharem dos cavaleiros vilãos de Viseu e de Coimbra, alguns deles estrangeiros, antigos companheiros de armas de D. Henrique.

A relação de D. Teresa com Fernando Peres de Trava terá começado à volta de 1120 e, à altura do casamento de Urraca Henriques, os dois tinham já, ou estavam prestes a ter, uma filha. Orientados pelo arcebispo de Braga, os nobres portucalenses acusaram D. Teresa de incesto, já que dava a mão da sua filha ao irmão do seu amante. Acusavam-na aliás de incesto duplo, pois alegavam a própria D. Teresa haver tido um caso com Bermudo Peres de Trava, casando assim a filha com o antigo amante. É, no entanto, provável que esta relação tenha sido inventada, no intuito de danificar ao máximo a reputação de D. Teresa, a fim de a substituir pelo filho, o mais depressa possível.

A pergunta que se põe é: porque patrocinou D. Teresa este casamento? Não previa ela as terríveis consequências? Uma das razões poderá ser precisamente o facto de ela não ter tido relação íntima com Bermudo Peres de Trava. De resto, há que compreender a estratégia de D. Teresa, que aspirava ao reino da Galiza, a fim de ser coroada rainha, título que já vinha usando, com o beneplácito dos nobres portucalenses, e usado igualmente por um papa, numa bula, como tratamento à filha de Afonso VI. D. Teresa planeva englobar nesse reino o condado que lhe pertencia, não admirando, por isso, que visse vantagens na sua aproximação à mais poderosa família galega.

Há indícios de que ela tenha tentado casar com Fernando Peres, anulando o casamento deste; há mesmo quem considere que eles realmente casaram secretamente, numa cerimónia em que o nobre galego terá repudiado a sua primeira esposa. À luz das leis medievais, tal atitude podia ser motivo suficiente para a Igreja anular o consórcio. Ora, tudo isto, aliado ao matrimónio de Urraca com Bermudo, reforçaria a ligação das duas famílias, dando-lhe legitimidade e aumentando a pressão sobre os barões de Entre-Douro-e-Minho.

Como sabemos, o contrário aconteceu, o que não admira muito, tendo D. Teresa dois arcebispos como contraentes: o de Braga e o de Santiago de Compostela. O braço-de-ferro entre a “rainha” e os nobres portucalenses duraria ainda seis penosos anos, até 1128, quando se deu a Batalha de São Mamede.

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13 comentários

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De Luís Lavoura a 17.07.2019 às 11:25

Tumbo de Toxosoutos

A palabra "tumbo" significa "arquivo"? É daí que vem o nome "Torre do Tombo"?
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De Cristina Torrão a 17.07.2019 às 12:18

Confesso que não lhe sei dizer, apesar de já ter ouvido a explicação para o nome "Torre do Tombo". Mas não anotei e não fixei. Vou tentar averiguar.

Quanto ao "tumbo" (deve estar relacionado, sim) encontrei esta definição:

"livro antigo de couros onde eram registados e transcritos documentos"

https://pt.wiktionary.org/wiki/tumbo
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De Luís Lavoura a 17.07.2019 às 11:33

foi em Julho de 1122 que D. Teresa deu a sua filha mais velha, Urraca Henriques, em casamento a Bermudo Peres de Trava

Qual deve ser a nossa opinião sobre uma mãe que dá a sua filha, como se se tratasse de uma cabra ou de uma vaca, em suma, como se ela fosse propriedade sua, em casamento a um homem que seria, presumivelmente, uns vinte anos mais velho?

Há algumas pessoas que atualmente acusam o profeta Maomé de ter sido um nojento pedófilo por ter casado com uma miúda ainda impúbere. Que deverão essas pessoas pensar sobre os primeiros reis de Portugal?

Como encaramos as pessoas que, atualmente, usam as suas filhas da mesma forma que Dona Teresa usou a dela?

São questões que me perturbam.
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De Cristina Torrão a 17.07.2019 às 12:31

É claro que, hoje em dia, repudiamos comportamentos destes. Mas eram normais, na Idade Média, e não só em Portugal, em toda a Europa, principalmente, entre a nobreza. Qualquer menina ou mulher nobre era dada em casamento, este servia para efectuar alianças políticas e/ou de poder. Há casos em que elas tinham apenas dois anos. Mas também os rapazes podiam ser dados em casamento ainda na infância. Quando D. Dinis acordou o casamento do seu herdeiro (futuro Afonso IV) com a princesa castelhana Beatriz, os "noivos" tinham 6 e 4 anos. D. Beatriz veio para a corte portuguesa, a fim de ser educada pelos sogros, e a cerimónia nupcial (seguida da consumação) deu-se sensivelmente dez anos depois. Normalíssimo, naquele tempo.

Sim, infelizmente raparigas de 12, 13 ou 14 anos eram dadas em casamento a homens 30 ou até 40 anos mais velhos. Gostaria, porém, de acrescentar que, quando uma moça não tinha atingido ainda a maturação sexual, o noivo/marido esperava por ela. Normalmente, os casamentos eram consumados, quando a noiva atingia os 14 ou 15 anos, raramente antes. Terá havido casos em que não foi assim, infelizmente, mas era esta a regra.

Repudiamos, e com razão, comportamentos destes, mas queria lembrar que foram costumes que se mantiveram durante muitos séculos. Não podemos vê-los à luz da nossa mentalidade. Não podemos modificar o passado. O importante, no estudo da História, é precisamente evitar erros do passado. Infelizmente, nem sempre é assim.
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De Luís Lavoura a 17.07.2019 às 12:47

hoje em dia, repudiamos comportamentos destes. Mas eram normais, na Idade Média, e não só em Portugal, em toda a Europa, principalmente, entre a nobreza.

Sim. Mas seria conveniente que esse facto (que esses comportamentos eram normais) fosse mais bem conhecido, para que as pessoas pudessem ver a uma outra luz pessoas que usualmente são glorificadas nos livros de História.

quando uma moça não tinha atingido ainda a maturação sexual, o noivo/marido esperava por ela

Certo, e foi isso que Maomé terá feito com a sua esposa menor Aicha. Coisa que parece não chegar para desculpar Maomé aos olhos dos seus detratores. Não se tratava de pedofilia - de gostar de fazer sexo com menores - uma vez que só havia sexo quando a rapariga já era "maior".

foram costumes que se mantiveram durante muitos séculos. Não podemos vê-los à luz da nossa mentalidade.

Não tenho a certeza de que não possanos e devamos vê-los à luz da nossa mentalidade. Podemos e devemos, pelo menos, tornar conhecido que esses costumes foram praticados, para que as pessoas tenham consciência dos lados mais negros das sociedades passadas e, em particular, das grandes figuras do passado. Tal como atualmente não desculpamos a tortura e os Autos-de-Fé da Inquisição, também não deveríamos desculpar os casamentos forçados. Ou não?
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De Cristina Torrão a 17.07.2019 às 18:25

Quando eu digo que não os podemos ver à luz da nossa mentalidade, não quer dizer que concorde. Precisamente para mostrar como as coisas eram, eu iniciei esta série. Dou o meu contributo. Mas pouca gente se interessa pela História e pelos erros do passado. Só uma minoria reflecte sobre o assunto. E também há quem gostasse que tudo voltasse a ser como era...
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De Luís Lavoura a 18.07.2019 às 10:26

Dou o meu contributo.<\i>

Pois dá, é verdade. Diz as coisas de forma nua e crua, como em "deu a sua filha mais velha em casamento". Cumprimento-a por isso.
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De Vorph Valknut a 17.07.2019 às 12:39

Sucedeu o mesmo com D. Maria, filha de D. Pedro IV, entregue ao seu tio D. Miguel, em pleno séc. XIX.
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De Cristina Torrão a 17.07.2019 às 18:27

Exactamente, era normal. Esses costumes, na nossa civilização ocidental, só acabaram no século XX. E sabemos que noutras civilizações ainda é assim.
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De Anónimo a 17.07.2019 às 12:30

Isto aqui, o Bermudo Peres de Trava, parece-me que até era muito mais velho c`á Urraca..., esta D.Teresa devia ser cá uma pecinha...!
Quanto a este "Tumbo", livro de registos de documentos antigos , eu tenho um equivalente a este e que é ainda mais explicito para estudos...
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De Cristina Torrão a 17.07.2019 às 12:43

D. Teresa era uma pessoa do seu tempo. Nem mais, nem menos.

Foi uma grande mulher, injustiçada pela História. Tomou conta de um extenso condado e exerceu o poder com competência, reforçando a autonomia da sua terra. Muito mais do que o conde D. Henrique, delineou o caminho que o filho Afonso viria a percorrer.

A História não lhe fez justiça, pois realçou a sua vida privada, em prejuízo da sua acção governativa. Tivesse ela sido um homem e o contrário aconteceria. Aliás, num homem, um percurso semelhante teria passado perfeitamente despercebido.
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De Anónimo a 18.07.2019 às 12:59

Por aquilo que nos é possível perceber acerca da vida de D. Teresa e das decisões que tomou, antes e após a morte do marido (marido que segundo creio, pouco terá "riscado" para o que veio a ser o reino de Portugal) deve-se também e talvez, sobretudo, á "guerra" que travava ininterruptamente com sua irmã Urraca e os barões da Galiza. Daí o interesse em dar filha ao de Trava. Isto não invalida que D. Teresa tivesse uns "date" sobretudo com aqueles que lhe poderiam ser úteis. Como dizes, Cristina e eu concordo em absoluto, foi uma época de traçar fronteiras, conquistar e dividir territórios, conseguir apoiantes, eliminar inimigos e consolidar posições. D. Teresa, (que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente ;) o que espero vir a fazer na tua companhia, utilizando aquela máquina que teletransporta matéria) precisou ser uma mulher de "tomates" para conseguir lidar com toda aquela malandragem que, não se poupava a esforços, a manhas e a intrigas para lhe sacar aquilo que Afonso VI de Leão e Castela lhe tinha entregue. Mas quem se interessar pela figura de D. Teresa e "os seus pensamentos", poderá adquirir o teu livro "Memórias de D. Teresa".
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De Cristina Torrão a 18.07.2019 às 18:17

Muito obrigada pela publicidade e pelo interessante comentário.

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