Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Afonso VI, pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques, morreu a 1 de Julho de 1109. Sabemos que se intitulava “imperador” por reger sobre três reinos, apesar de ter utilizado meios mais do que duvidosos para se apoderar das heranças dos irmãos. À morte do pai, D. Afonso VI teve apenas direito ao reino de Leão, pois D. Fernando I o Magno dividiu as suas posses pelos três filhos. Enquanto a rainha-mãe foi viva, os irmãos mantiveram-se sossegados. Mal ela fechou os olhos, porém, entraram em conflito. Sancho, o mais velho, seria assassinado, pensa-se que a mando do irmão Afonso, que assim se apoderou do reino de Castela. E acabaria por encarcerar o mais novo, Garcia, rei da Galiza, na fortaleza de Luna, situada numa região inóspita de fronteira com as Astúrias. Garcia viria a falecer depois de quase vinte anos de cárcere.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela.jpg

Afonso VI de Leão, Castela e Galiza. Imagem daqui, sem indicação de data e autor.

À altura da sua morte, Afonso VI tinha cerca de 62 anos e, apesar de ter sido um homem poderoso e temido, morreu amargurado, sobretudo, por não deixar herdeiro varão. Como referido num post anterior, o infante Sancho, filho da sua barregã moura e por ele legitimado, pereceu com apenas quinze anos na Batalha de Uclés, um ano antes do pai. O imperador reuniu então cortes em Toledo e declarou a filha Urraca sua herdeira universal, decisão que não pareceu agradar ao genro D. Henrique, pois é na sequência desta reunião que Afonso VI o expulsa da corte, considerando-o traidor. Tudo leva a crer que D. Henrique teria pretensões à coroa do sogro, ou pelo menos, à divisão da herança. Segundo José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (2007), o conde portucalense teria, então, encetado uma viagem à sua Borgonha natal, regressando cerca de um ano mais tarde, no Verão de 1109. É curioso notar que esta versão põe em causa a hipótese de o seu filho ter nascido em Viseu, a 9 de Agosto de 1109, pois, à altura em que teria de ser gerado (Novembro ou Dezembro de 1108) o pai, pelos vistos, não se encontrava por terras hispânicas.

Urraca I de Leão e Castela.jpg

Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada

Estamos a falar de uma época em que mulheres não eram bem vistas à frente de um território e, sendo D. Urraca viúva, os nobres castelhanos exigiram, nas cortes de Toledo, que ela casasse. D. Afonso VI deu-lhes razão e logo os mesmos nobres se apressaram a fazer-lhe a corte. Não é difícil imaginar a grande agitação que se teria gerado à volta da herdeira mais cobiçada da Hispânia. Porém, só cerca de um ano mais tarde, no leito de morte, D. Afonso VI estipulou que sua filha desposasse o rei D. Afonso I de Aragão e Pamplona.

Urraca cumpriu a vontade de seu pai, mas, na verdade, o casamento foi um erro, um verdadeiro desastre, e acabou por ser anulado pela Igreja. Pensa-se inclusive que nunca teria sido consumado, o que leva a especulações sobre as preferências sexuais do rei aragonês, que era aliás um bravo guerreiro e ficou na História com o cognome de Batalhador. Contudo, apesar de ter tido vida longa e um reino para legar, só esteve casado meia dúzia de anos e não se lhe conhecem filhos ilegítimos, como era habitual entre os monarcas medievais.

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe (1822–1856)

Enquanto foi casado com Urraca, Afonso de Aragão chegou a intitular-se “imperador”, à semelhança do sogro, mas a oposição de vários nobres castelhanos mergulhou o coração da Península Ibérica em combates sangrentos. D. Urraca tanto se posicionava do lado do marido, como apoiava os nobres castelhanos. Atitude semelhante tiveram, aliás, D. Henrique e D. Teresa, que oscilavam no seu apoio entre D. Urraca e o monarca aragonês. Trata-se de uma época confusa, sendo, hoje em dia, difícil de explicar o que levava os três a tanta indefinição, num conflito que haveria de provocar a morte de D. Henrique, em Abril de 1112.

Afonso VI morreu em Toledo, mas foi sepultado no mosteiro de Beneditinas de Sahagún, conforme seu desejo. Sendo as duas cidades separadas por cerca de 400 km, podemos imaginar quão penoso terá sido este cortejo fúnebre, naquele tempo, em pleno Verão. O funeral, em Sahagún, só se realizou a 21 de Julho.


6 comentários

Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 01.07.2019 às 12:20

Este post é verdadeiramente tétrico, uma exibição depravada dos maus costumes medievais. Um homem que assassina o irmão, encarcera um outro irmão, impõe o casamento de uma filha e, no fim, um enterro três semanas após uma morte, já com o corpo em plena putrefação. Que nojo.
Imagem de perfil

De Cristina Torrão a 01.07.2019 às 18:11

Ainda hoje há muita gente que se considera impune. Não propriamente por crimes destes, mas por outros também graves.
Imagem de perfil

De Corvo a 01.07.2019 às 12:29

Aquilo é que era uma família conflituosa, hã?
Nenhum se entendia com nenhuma nem nenhuma com nenhum.
Valha-lhes a desculpa que por esses reinos da Europa as coisas não se passavam muito diferentes, nem as diferenças eram muito significativas.
Imagem de perfil

De Luís Menezes Leitão a 01.07.2019 às 20:33

Sempre achei curioso o facto de Afonso VI, apesar de se ter proclamado imperador, ter tido o cognome de O Bravo, enquanto que o seu neto Afonso VII é que obteve o cognome de O Imperador. Isto apesar de ter assistido no seu império à independência de Portugal e à criação da Coroa de Aragão, acabando por dividir Leão e Castela entre os seus filhos após a sua morte. Foi de facto o último imperador da península ibérica.
Imagem de perfil

De Cristina Torrão a 02.07.2019 às 12:19

Verdade. E também se pode dizer que ele não só assistiu à, mas também contribuiu para, a independência de Portugal. Por algum motivo, nunca ousou hostilizar Afonso Henriques de forma dura (houve algumas refregas, mas nada de verdadeiramente grave). Muita gente se pergunta qual a razão.

Quanto à divisão da herança, e como referido no post, também o pai de Afonso VI, Fernando I, fez o mesmo. É difícil de explicar por que homens que tanto se esforçaram por reunir um território, o tornam a desmembrar, na herança. Será por acreditarem que os filhos, sendo irmãos, vão sempre colaborar uns com os outros? Serão os pais sempre tão ingénuos em relação aos próprios filhos?

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D