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Manifestis_Probatum.jpg

Bula Manifestis probatum. Imagem Wikipedia

 

Completam-se hoje 840 anos sobre a emissão da bula Manifestis probatum, pelo papa Alexandre III, reconhecendo oficialmente a independência de Portugal. Muitas vezes se assinala o dia 5 de Outubro de 1143 como sendo o da criação de um reino independente, mas o assunto não é pacífico. Na sua biografia de D. Afonso Henriques (Temas e Debates 2007), um livro de mais de 400 páginas, o Professor Mattoso reserva apenas um pequeno parágrafo à conferência de Zamora, aqui transcrito na sua totalidade:

“Depois de ter encerrado o concílio, o legado papal [Guido de Vico] dirigiu-se a Zamora, onde estava a 4 e 5 de Outubro, e onde se reuniu com os reis de Portugal e de Leão. A este encontro chamam os historiadores modernos a «conferência de Zamora». Tem sido considerada como a reunião que selou o acordo entre Afonso Henriques e Afonso VII, que marcou o reconhecimento pelo segundo da dignidade régia do primeiro, e que permitiu a celebração de um tratado, que talvez incluísse uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos, mas do qual, infelizmente, não existe nenhum texto (p. 212)”.

D. Afonso VII reconheceu, em Zamora, a dignidade régia de D. Afonso Henriques (que utilizava o título de «rei» desde 1139), mas não há provas de que tenha prescindido da condição de vassalo do primo, já que se intitulava «imperador de toda a Hispânia», o que lhe dava o direito de ter reis como vassalos - algo que, muitas vezes, é esquecido, ou ignorado, na nossa historiografia. O certo é que D. Afonso Henriques teve necessidade de enviar, a 13 de Dezembro de 1143 (apenas dois meses depois de Zamora) a carta Claves regni ao papa, declarando que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos do cardeal Guido de Vico, como cavaleiro de São Pedro, solicitando, assim, a sua libertação do poder central hispânico.

É, por isso, difícil de atribuir uma data para a independência de Portugal, mas acrescente-se que uma situação dessas não é anormal, tendo em conta que estamos a lidar com a Idade Média, uma época em que ainda não se entendiam as nacionalidades como hoje em dia. Não existiam fronteiras definidas e o poder estava na mão de potentados regionais, que, em determinadas circunstâncias, conseguiam alargá-lo, ousando ignorar a autoridade de reis e imperadores. Afonso Henriques não foi caso único na Europa, ou na Cristandade, como se dizia. A haver uma entidade superior, seria a Santa Sé, mas mesmo esta se revelou dúbia, durante décadas, quanto ao caso português (desenvolverei este assunto num próximo post).

D. Afonso Henriques estava, em 1179, velho e debilitado. Tinha cerca de setenta anos e já há dez que se encontrava incapacitado, na sequência do desastre de Badajoz. Parece certo que não se conseguia mover pelos próprios meios, o que lhe deixaria os músculos fracos. Ainda assim, só morreria a 6 de Dezembro de 1185, constituindo, na época, um caso raro de longevidade, sobretudo, considerando as circunstâncias em que viveu os seus últimos quinze anos.

Afonso - Rosto.jpg

Afonso Henriques, escultura em bronze (pormenor); Ourique, 1979

 

Tendo em conta as viagens morosas daquela época, a chegada da bula Manifestis Probatum à corte portuguesa só se terá dado na segunda quinzena de Julho. Segurar nas próprias mãos este importante documento deve ter sido um momento muito emocionante para o velho monarca, que aspirava à independência do seu reino havia quase cinquenta anos.

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14 comentários

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De Cristina Torrão a 23.05.2019 às 12:45

Não há dúvida de que a operação de Badajoz foi um erro. D. Afonso Henriques poderia ter mesmo perdido a soberania portuguesa, já que esteve prisioneiro do rei de Leão durante algumas semanas. Talvez o facto de o monarca leonês ser seu genro tenha abonado a seu favor, mas não se sabe bem o que aconteceu a seguir ao desastre, em que o nosso rei se terá ferido gravemente.

É difícil avaliar hoje o que levou D. Afonso Henriques a Badajoz. Talvez o desejo de alargar a fronteira para lá do Guadiana. Os sucessos de Geraldo Sem-Pavor (o verdadeiro conquistador de Évora) também terão pesado na sua decisão (D. Afonso Henriques foi em auxílio de Geraldo, que tinha encurralado o alcaide e a elite de Badajoz na alcáçova).

Enfim, Badajoz será ainda tema nesta série.
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De Luís Lavoura a 23.05.2019 às 12:52

Eu não digo que a operação de Badajoz tenha sido um erro, mas foi-o certamente a participação de Afonso Henriques, então com 60 anos de idade, nela. Um rei idoso deve resguardar-se da linha da frente de batalhas.
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De Corvo a 23.05.2019 às 15:53

Pois, hoje ser rei é mais fácil.
Por exemplo: a rainha Isabel II, com 93 anos ainda está ali para as curvas.
Não se sabe muito bem porquê e para quê Sua Graça ali se encontra, mas está.
Só que Afonso Henriques tinha um sonho de formar uma nação, e isso desgasta.
Sobretudo quando a diplomacia contemporânea, naqueles tempos era conhecida pela espada.
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De Cristina Torrão a 23.05.2019 às 18:51

Afonso Henriques chegou quase ao oitenta anos, o que era raro, na Idade Média, sobretudo, num rei guerreiro (poucos casos há de tal longevidade, quase só alcançada nos mosteiros, tanto por homens, como por mulheres).

Quanto à diplomacia, sim, fazia-se muito uso da violência. Mas a outra, a diplomacia como a conhecemos, também havia. E D. Afonso Henriques fez muito uso dela nas negociações com Roma, mas também com o genro leonês. Tirando o episódio de Badajoz, as suas relações com Fernando I basearam-se na diplomacia.
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De Vorph Valknut a 23.05.2019 às 23:34

Segundo documentos coevos ( cf Juleo Paes de Avintes, Rei Afonso, Rei Amigo, 1169) Afonso Henriques era vegan, razão pela qual, talvez possamos, parcialmente, compeeender tão longeva vida.
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De Cristina Torrão a 24.05.2019 às 12:47

Nunca ouvi falar, Pedro Vorph, mas não conheço essa fonte que cita. Pode-se consultar online?

No entanto, repare, ser vegan não quer dizer mais saudável, embora se possa concluir que D. Afonso Henriques terá levado um estilo de vida saudável, ou seja, fisicamente activo e sem grandes excessos à mesa. Na altura, a caça era um "desporto" muito apreciado pela nobreza, por isso, se depreende que ele também tivesse caçado. Provas, no entanto, não há. E de outros reis se sabe que apreciavam muito a caça, como D. Dinis, muito zeloso com os seus falcões, por exemplo. Sobre D. Afonso Henriques, nunca me apercebi de referências nesse sentido. Sei, sim, que ele apreciava muito os eremitas e a sua forma de vida e de sustento. Será que lhes seguia o exemplo? Ou o dos monges? Há quem diga que talvez. Facto é que a vida monacal, naquele tempo, era muito rigorosa, no que respeita à alimentação, seguindo a Regra Beneditina, que evitava a carne (só em ocasiões especiais) e proibia mesmo o consumo de quadrúpedes (e ainda estamos longe dos doces conventuais, que só surgiram vários séculos mais tarde). Há historiadores que ligam D. Afonso Henriques a práticas parecidas.
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De Cristina Torrão a 24.05.2019 às 13:03

Desculpem, o genro de Afonso Henriques era Fernando II de Leão. O primeiro Fernando de Leão, conhecido como o "Magno", conquistador de Coimbra, era o bisavô de Afonso Henriques.
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De Luís Lavoura a 24.05.2019 às 09:34

Não se sabe muito bem porquê e para quê Sua Graça ali se encontra

Em geral, não se sabe muito bem porquê e para quê cada um de nós aqui se encontra.
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De Corvo a 24.05.2019 às 14:19

Pelo Luís Lavoura não sei. O Luís lá terá as as sua razões para se questionar do porquê da sua existência.
Por mim sei perfeitamente. Nunca a minha vida, mas nunca mesmo, foi meramente decorativa.
Nasci grande, vivi grande e hei-de morrer grande.

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