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Paio Mendes da Maia - Galeria dos arcebispos de Br

Representação de D. Paio Mendes da Maia na Galeria dos arcebispos de Braga

No Verão de 1122 (mais uma vez, não se sabe a data, mas Agosto é um bom símbolo para esta estação do ano), D. Teresa mandou prender o arcebispo de Braga, D. Paio Mendes da Maia. No ano anterior, o clérigo não regressara a Braga, depois de participar no Concílio de Sahagún, optando por se refugiar em Zamora. É de presumir que, já nessa altura, D. Teresa ameaçara mandar prendê-lo, o que denuncia conflitos graves entre os dois.

Paio Mendes, tutor de Afonso Henriques e a quem haveria de ficar sempre muito ligado, era um grande opositor à relação de D. Teresa com Fernando Peres de Trava. O arcebispo de Braga fez acusações muito graves à “rainha”: adultério e incesto duplo, dando assim legitimação religiosa à oposição dos barões portucalenses em relação ao conde galego.

A revolta de D. Teresa é bem notória ao dar a ordem para prender o arcebispo, assim que ele pusesse os pés em Braga, o que aconteceu, no Verão de 1122. Nada se sabe sobre as condições da prisão, mas suponho que não seria um calabouço. Talvez D. Paio Mendes tenha ficado confinado ao seu paço, numa espécie de prisão domiciliária.

Como “rainha”, D. Teresa pretendia dar um sinal da sua autoridade, mas recebeu uma bula do papa Calisto II, ordenando a libertação do arcebispo, sob pena de excomunhão contra si e os seus cúmplices. A seguir, dá-se uma série de acontecimentos, sobre cuja explicação só podemos conjecturar.

A 3 de Novembro desse ano, D. Paio Mendes, já liberto, confirmou a doação do castelo de Soure a Fernando Peres de Trava, pelos bons serviços que a rainha recebera dele, cedendo-lhe ainda o castelo de Santa Eulália e a Villa de Quiaios, em troca do castelo de Gogia (c. Arganil), que, por sua vez, era doado à Sé de Coimbra. Fernando Peres de Trava deixou depois de aparecer nos documentos oficiais da corte portucalense, só voltando a surgir cerca de dois anos mais tarde, em Março de 1125, no foral de Ponte de Lima. Durante este interregno, o infante Afonso e o arcebispo D. Paio Mendes assinaram todos os documentos de D. Teresa (doações, forais, etc.). Os nobres portucalenses, porém, mantiveram-se afastados. Tentemos analisar a situação, escolhendo três pontos essenciais:

Primeiro ponto: D. Teresa liberta D. Paio Mendes. Não lhe restava outra hipótese. Nesta libertação, porém, está implícito o começo de uma amizade, ou, pelo menos, de uma colaboração, pois o arcebispo passa a assinar os documentos oficiais. Terá D. Teresa, na altura da libertação, pedido o perdão do arcebispo, prometendo modificar a sua vida, em troca do apoio do clérigo? E teria o arcebispo imposto, como condição, a sua separação do amante galego?

D. Teresa - primeira rainha.jpg

Segundo ponto: o afastamento de Fernando Peres de Trava. Segundo Marsilio Cassotti (2008) Fernando e Bermudo Peres de Trava teriam ido em peregrinação à Terra Santa, a fim de mostrar o arrependimento por grandes pecados cometidos. Isto justificaria realmente uma ausência de cerca de dois anos. E como explicar as doações que se fizeram ao conde galego, antes da sua partida, com o beneplácito do arcebispo? Na verdade, estas doações soam a liquidação de serviços prestados a D. Teresa, no fim de uma colaboração à frente dos destinos do condado Portucalense. E consideremos que o castelo de Soure, que lhe era doado, estaria muito devastado, em sequência de ataques almorávidas alguns anos antes, e necessitaria de alguém que o recuperasse. Além disso, reparemos que o castelo de Gogia, até aí, na posse do conde galego, era doado à Sé de Coimbra. Resta saber se esta separação foi exigência do arcebispo, ou se já teria sido combinada entre D. Teresa e D. Fernando Peres. O facto de ele regressar à corte do condado parece indiciar esta última hipótese, ou seja, uma separação temporária, para que a rainha pudesse, entretanto, recuperar aliados.

Terceiro ponto: o regresso de Fernando Peres de Trava. Como foi referido, ele confirmou, em Março de 1125, o foral de Ponte de Lima, assinado igualmente pelo infante Afonso e pelo arcebispo de Braga. Porém, e apesar de se tratar de documento muito importante (a criação de uma vila no coração do Entre-Douro-e-Minho), os maiores magnates do condado mantiveram-se afastados da cerimónia. Aliás, eles mantiveram-se igualmente afastados durante a ausência do conde galego. Se D. Teresa esperava recuperá-los, enviando D. Fernando em peregrinação, enganou-se. Os barões que a tinham abandonado não mudaram de ideias. E, depois do regresso de Fernando Peres, muito menos. A Batalha de São Mamede dar-se-ia três anos mais tarde.

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6 comentários

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De kika a 24.08.2019 às 21:35

Obrigada Cristina Torrāo pelo prazer que me oferece com
estas suas efemérides históricas. 🌻
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De cheia a 24.08.2019 às 22:48

A nossa História, com todos os detalhes!
Bom domingo
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De Cristina Torrão a 25.08.2019 às 11:24

Eu é que agradeço os comentários, kika e cheia.

Continuação de bom Domingo para as duas.

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De Cristina Torrão a 25.08.2019 às 11:27

Peço desculpa ao autor do comentário com o pseudónimo "cheia". Fui ver os seus blogues e parece-me que se trata realmente de um autor, em vez de autora.

Reitero os votos de bom Domingo.

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De Anónimo a 30.08.2019 às 00:07

Desculpe Cristina a minha correcção.
A Batalha que se seguiu 3 anos mais tarde foi a Batalha de S. Mamede e não a de Ourique.
A de Ourique foi em 1139.

(só agora cheguei a este seu blogue por indicação de um amigo. Como sou um curioso da nossa Gloriosa História, tem em mim um freguês assíduo)
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De Cristina Torrão a 30.08.2019 às 10:21

Tem toda a razão! Peço imensa desculpa e vou já corrigir.

E obrigada pela sua presença e comentários.

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