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Eanes exemplar

por Pedro Correia, em 02.04.20

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Como o Sérgio já assinalou, Ramalho Eanes concedeu ontem uma notável entrevista à RTP. Entrevista presencial, desde logo: o general deslocou-se pessoalmente ao estúdio da televisão pública apesar de pertencer a um grupo de risco nesta fase mais assanhada do coronavírus: tem 85 anos, embora pareça mais jovem - tanto pelo físico como pelo intelecto. «Nos tempos incertos vai-se ao local», declarou sem mais rodeios.

Com esta decisão - assumida sem a menor hesitação, como a jornalista Fátima Campos Ferreira assinalou - o antigo Presidente da República deu desde logo uma lição aos heróis de sofá que pululam por aí, muitos deles com idade para serem seus filhos e até seus netos. "Heróis" da treta, que exercem a função comentadeira no conforto doméstico, devidamente calafetados, e aí dão livre curso às suas bravatas verbais.

Deu igualmente uma lição àquele jovem deputado que há dias compareceu de máscara no plenário da Assembleia da República - hoje seguramente um dos lugares mais "higienizados" do País - esquecendo que àquela mesma hora faltavam máscaras em todos os hospitais portugueses. Imagem lamentável: só admito ver um político de máscara em local de grave risco sanitário, nunca na sala de sessões do Parlamento.

O general, em palavras lúcidas e inspiradoras, apontou a estes apavoradinhos o rumo a seguir: «Nós, os velhos, quando chegarmos ao hospital, se for necessário, oferecemos o nosso ventilador a um homem que tenha mulher e filhos.»

 

Eanes foi exemplar por tudo quanto afirmou. 

Anotei outras das suas reflexões e transcrevo-as aqui. Para mais tarde recordar.

 

«A primeira coisa que esta batalha nos exige é que sejamos virtuosos - isto é, que sejamos humildes. Que percebamos que somos falíveis e muito frágeis. Uma fragilidade que só se compensa através de uma comunicação autêntica com os outros.»

«O medo é razoável, mas é nossa obrigação ultrapassá-lo. Nesta altura temos que pensar que estamos com os outros. Temos que pensar menos no eu e mais no nós. De maneira que todos quantos carecem de apoio tenham a nossa solidariedade.»

«Esta crise demonstra que nenhum país, por si, consegue resolver os problemas. A própria China, poderosa, no início da crise recebeu o apoio da França e até da Itália.»

«Isto levar-nos-á, necessariamente, a uma nova reflexão. Primeiro, a uma nova reflexão sobre os nossos sistemas políticos. E sobre o homem: porque é que o homem se tornou tão egoísta, tão individualista, que até se esqueceu que o mundo é de interligação permanente? Como é que vamos gerir a globalização? A globalização é interdependência, mas deixou de ser solidariedade.»

«O homem, com os avanços da ciência e da tecnologia, julgou ser capaz de tudo. E esta situação pandémica demonstrou que afinal continua o tal ser frágil, falível, que está em permanente ligação com os outros.»

«Isto vai levar-nos a repensar as próprias funções do Estado. O Estado não pode ser o Estado mínimo, como se diz: tem que ser o Estado necessário. Que não olha apenas para a situação presente e para as eleições: olha para o futuro da sua comunidade.»

«Esta crise é um momento de silêncio, de reflexão, de comunhão. Se não for assim, estamos a perder uma oportunidade única que nos é oferecida - com dramatismo, com dor, com desgosto.»


156 comentários

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De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 10:28

Admira-me que a RTP tenha permitido que a entrevista fosse presencial. Porque, independentemente da vontade de Ramalho Eanes, creio que é política da RTP fazer sempre as entrevistas à distância, quanto mais não seja por motivos pedagógicos, isto é, para ilustrar a necessidade de distanciamento social.
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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 10:44

Não sei o que significa "distanciamento social". É um oxímoro, traduzido à pressa do "amaricano", como agora é moda.

Sei o que é "distância higiénica" - avaliada em metro e meio pela DGS. Posso avalizar que Eanes se encontrava a mais de metro e meio de distância da jornalista. Cumprindo as regras, portanto. E sendo pedagógico também nisso.
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De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 10:51

Independentemente de os entrevistados, os entrevistadores, e todo o restante pessoal da RTP, incluindo quiçá as maquilhadoras, manterem todos entre si distâncias de metro e meio, o facto é que a política atual da RTP é fazer todas as entrevistas à distância, isto é, através de meios eletrónicos, pelo que muito me espanta que tenham feito uma exceção para o caso da entrevista a Ramalho Eanes. Eu suporia que, se qualquer pessoa ou colaborador ou opinador tivesse exigido uma entrevista presencial, a RTP teria recusado por uma questão de princípio. Pelos vistos abriram uma exceção para Ramalho Eanes, e isso surpreende-me.
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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 11:21

Quem é que lhe disse que "a política actual da RTP é fazer todas as entrevistas à distância"?
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De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 11:29

Ninguém mo disse, mas tenho fortes dúvidas de que todos os comentadores e opinadores da RTP estejam a dar entrevistas à distância somente por vontade própria, quiçá por serem todos uns fracos, uns cobardes, uns medrosos que não querem expôr-se ao vírus saindo à rua e entrando nos estúdios da RTP. Ao contrário, segundo a sua perspetiva, de Ramalho Eanes, que é um homem corajoso, bravo, destemido, que não teme dar o corpo ao manifesto, enfrentar o vírus cara-a-cara, sem medo, ali no centro do estúdio e no trajeto para lá.
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De Anonimus a 02.04.2020 às 12:14

O Prós e Contra é presencial, por exemplo
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De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 12:39

Bem observado. Eu não sabia (vejo pouquíssima televisão e nunca a RTP1).
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De Anónimo a 03.04.2020 às 12:32

Mas que importância tem se é à distancia ou presencial? Isso é completa mesquinhes… o que importa, e convém realçar e dar enfase, é o conteúdo. E esse está à altura do grande senhor que é, e sempres foi e será, o senhor general.
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De Miguel a 02.04.2020 às 13:57

Não creio que o confinamento se reduza ao cumprimento das regras da "distância higiénica" - 1 a 2 metros de distância. Isto aplica-se a interacções breves, vou comprar o pão e mantenho a distância higiénica com os outros clientes.

Com este vírus, duas ou mais pessoas num local confinado por um período superior a uns 10 minutos misturarão o vírus entre elas, a única justificação aceitável para tal reunião seria terem sido todas testadas com resultado negativo.

O "distanciamento social" é mais restritivo: requer o confinamento em casa limitando as saídas ao mínimo indispensável (incluindo o passeio higiénico se não for em grupo) e pelo menor período de tempo possível.

Do ponto de vista do controlo da propagação do vírus a distância higiénica não chega.

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De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 16:53

o confinamento em casa limitando as saídas ao mínimo indispensável (incluindo o passeio higiénico se não for em grupo) e pelo menor período de tempo possível

Isso não faz sentido nenhum.

Se eu fôr dar um passeio de uma hora no parque, por exemplo, basicamente não me cruzo com ninguém, ou então cruzo-me mas só por breves instantes e a uma distância de 1 ou 2 metros, ainda por cima ao ar livre: a possibilidade de contagiar alguém é, basicamente, zero. Posso estar na rua uma hora, ou duas, ou três, e não contamino absolutamente ninguém, porque não interajo de perto com ninguém (nem toco em superfície nenhuma).

Ou seja, o que interessa não é estar em casa, o que interessa é não respirar perto de alguém e não tocar em superfícies (com as mãos).

Não tem qualquer racionalidade mandar as pessoas estar em casa. Isso só as põe malucas. O que é preciso é explicar-lhes: saia à rua, mas não se aproxime de ninguém (mantenha distâncias de pelo menos um metro), não permaneça perto de ninguém por mais que breves segundos, e evite tocar em quaisquer superfícies que possam ser tocadas por outras.

A lógica do confinamento parte do princípio estúpido de que, quando as pessoas saem à rua, é para irem ter com outras, conviver, conversar, etc. Mas as pessoas podem sair à rua por outros motivos, como passear, fazer exercício, apanhar sol, etc, sem que interajam com ninguém.
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De Miguel a 02.04.2020 às 23:45

Sim, estritamente falando, você pode passar as tais horas no parque sem cruzar ninguém, mas isso é porque os outros estão fechados em casa; estatisticamente, se todos passassem todas essas horas no parque, passavam também o tempo a roçar-se uns pelos outros. Não é preciso ser o Einstein para o entender. Foi aliás mais ou menos isso que aconteceu no primeiro fim de semana em França, entre as decisões de fechar a maior parte dos locais públicos e do confinamento generalizado, e a razão pela qual as autoridades se decidiram pelo último. Todos os chico-espertos pensaram o mesmo: se eu for passear sozinho pelo parque não há crise. Foi casa cheia. Na praia de Carcavelos, casa cheia também. Um gajo tem todo o direito a ser solipsista e auto-centrado; mas será por essa razão que temos de gramar cientistas aparentemente incapazes de elaborar um raciocínio elementar que involva conceitos básicos como população, distribuições, cinética, probabilidade,...?
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De Luís Lavoura a 03.04.2020 às 11:27

Tem que se confiar na população. Não se pode reduzir tudo a proibições.
Quando se diz que as pessoas podem sair de casa para ir fazer compras, também está implícita a recomendação "não se aproximem demasiado do vendedor".
Quando se diz que as pessoas podem sair à rua, deve estar explícita a recomendação "mas não se aproxime de ninguém".
Além disso, estamos ainda na primavera, pouca gente quer ir ao parque ou à praia. Ou então, os dias em que isso acontecerá são previsíveis - os dias em que fará muito sol e a temperatura subirá. As autoridades podem e devem avisar a população "amanhã vai estar bom para praia, mas na praia mantenha-se afastado das outras pessoas, ou então prescinda de ir".
Não pode ser tudo proibições cegas e generalizadas. Estamos a cair numa ditadura.
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De Miguel a 02.04.2020 às 14:01

No site do Le Monde, a razão de ser do confinamento:

A quoi sert le confinement ?

https://www.lemonde.fr/les-decodeurs/visuel/2020/04/02/coronavirus-a-quoi-sert-le-confinement_6035266_4355770.html#slide=0
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De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 17:00

O sítio do Le Monde parte do princípio irracional de que, se uma pessoa sair à rua 18 vezes encontrará 100 pessoas, mas se sair somente 6 vezes só encontrará 33 pessoas.
Ora, uma pessoa real, quando sai à rua, não é necessariamente para encontrar pessoas. Eu todos os dias saio à rua duas vezes por dia (de manhã e de tarde) para ir trabalhar, e não encontro ninguém pelo caminho (cruzo-me com pessoas, claro, mas não me aproximo delas nem lhes falo).
Ademais, mesmo quando uma pessoa sai à rua e se encontra com outros, quase sempre se encontra com os mesmos. Ou seja, o número de pessoas que contaminará não aumentará proporcionalmente ao número de encontros. Por exemplo, eu todos os dias vou a um restaurante buscar o meu almoço, e encontro sempre os trabalhadores desse restaurante - não é pelo facto de eu ir lá mais vezes que encontro mais pessoas, encontro sempre as mesmas duas pessoas. Da mesma forma, nas lojas encontro quase sempre as mesmas pessoas, no trabalho idem, etc.
Portanto, de facto, mesmo que eu saia à rua 100 ou 200 vezes, na minha vida normal, dificilmente poderei contaminar mais que umas seis pessoas, na pior das hipóteses - as pessoas de quem estou mais perto, por exemplo no balcão da loja, no restaurante, etc. E não é por sair à rua mais outras 100 ou 200 vezes que poderei contaminar mais pessoas.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 02.04.2020 às 21:39

"mesmo que eu saia à rua 100 ou 200 vezes, na minha vida normal, dificilmente poderei contaminar mais que umas seis pessoas, na pior das hipóteses"

Dos textos mais pungentes que alguma vez li. Um abraço, caro Luís. Olhe um Beijo, que se lixe.
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De Miguel a 02.04.2020 às 23:55

o nosso amigo é físico mas ainda não percebeu o que é uma função exponencial: essa de que não pode contaminar mais do que seis pessoas é uma delícia. alguma alma caridosa se prestará a ensinar-lhe aquela do rei, do tabuleiro de xadrez, dos grãos ....

2x2x2x2x2x2x2x...=6x6x6x6x6x6x....=um poucochinho sem importância de maior
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 03.04.2020 às 00:16

Miguel, é um faiscado de física quântica. Sabe como é : o gato pode estar morto, vivo, morto e vivo e vivo-morto.
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De Miguel a 02.04.2020 às 23:50

Você, ou é muito reinadio, ou nunca ouviu falar em transportes público. Hora de ponta, então... Quanto ao raciocínio científico, pode começar ler por dois autores que lhe abrirāo horizontes até hoje desconhecidos: Isaac Asimov e Hari Seldon.
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De José Dias a 03.04.2020 às 09:36

você está completamente errado.
Certo que só se cruza com 2 pessoas, mas no seu exemplo essas 2 pessoas cruzam-se diariamente com dezenas ou quiçá centenas (restaurante). Se você tiver o azar de estar contagiado e infectar uma dessas duas pessoas, antes delas terem sintomas ou saberem que estão infectadas quantos dias continuarão a trabalhas??? para quantas pessoas não trabalharão nesses poucos dias? quantas pessoas não infectarão nesses dias.
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De Luís Lavoura a 03.04.2020 às 11:33

Não. As pessoas na maior parte funcionam em grupos restritos, que interagem somente marginalmente uns com os outros. Por exemplo, o grupo das pessoas que comem no mesmo restaurante, ou que fazem compras na mesma loja.
(O principal grupo é a família, claro.)
Se eu contaminar o empregado do restaurante em que como (o que é improvável que aconteça), ele, quando muito contaminará os outros clientes do restaurante.
É claro que cada pessoas faz parte de múltiplos grupos, mas também é claro que a contaminação não é um processo inevitável.
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De Miguel a 03.04.2020 às 11:36

É impressão minha ou o Luis Lavoura pretende num simples comentário afundar todos os modelos epidemiológicos markovianos? É obra...

E ficámos a saber que não frequenta transportes públicos, não apanha táxis, nem o restaurante dele é frequentado por gente dessa.
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De Luís Lavoura a 03.04.2020 às 11:50

Não é impressão sua.
Os modelos epidemiológicos falham redondamente. Falharam na epidemia de SARS (a qual não se materializou). Agora, perante os nossos olhos, estão a falhar nesta.
Sim, os transportes públicos podem ser um grande problema. Tal como, em geral, todas as situações nas quais muitas pessoas não relacionadas umas com as outras se encontram temporariamente próximas: manifestações políticas, eventos religiosos (missas, etc), eventos desportivos, etc. Todas essas coisas devem ser severamente limitadas. E estão-no a ser, e devem continuar a sê-lo no futuro.
Quanto à vida que faço, você tem razão: eu desloco-me quase sempre a pé e sem utilizar qualquer meio motorizado. E vou dessa forma a todos os sítios onde preciso de ir.
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De Anónimo a 03.04.2020 às 19:42

O que mais pena me dá é que por cada português íntegro, esclarecido, humilde, inteligente, existem 100 Lavouras para fazer deste país, uma cambada de mesquinhos, idiotas, tagarelas, invejosos e vagarosos mentais...só um idiota como tu é que se dá ao trabalho para vir comentar o que menos importava comentar e esquecer o conteúdo...vai ver um concerto do carreira a comer uma alheira e acabar a ver o B.I.G. brother c o gajo a morder-lhe a ceira!!! Que pena haver tantos idiotas per capita
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De rui a 03.04.2020 às 11:43

Homens como Ramalho Eanes ja a poucos e acredito que se tenha providenciado todas as precauções para a devida entrevista, mas como sempre e so criticos que não fazem nada.
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De Pedro Correia a 06.04.2020 às 10:45

Há poucos como ele, sim.
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De Anónimo a 03.04.2020 às 16:57

O Sr Luís Lavoura não sabe o que diz neste caso presente. É a história do copo meio cheio ou meio vazio.
Melhor fora que não gastasse espaço para que outros pudessem exprimir melhores ideias.
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De Pedro Correia a 06.04.2020 às 19:49

Não se canse. Não falta quem lhe ande a dizer isso há dez anos, sem sucesso algum.
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De Sérgio de Almeida Correia a 02.04.2020 às 10:44

Ainda bem que transcreveste, Pedro. Escrito não se esquece.
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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 10:50

Fica-me a lição das pesquisas diárias que vou fazendo para a rubrica 'DELITO há dez anos', Sérgio.
90% das fontes a que fazemos referência nesses textos desapareceram. Sempre dos jornais portugueses, quase nunca dos estrangeiros. Dos portugueses, praticamente apenas se salva o 'Expresso'. O 'Público' tem tudo apagado, o 'DN' quase tudo. Idem para o JN, o 'Negócios' e o 'CM'. O 'Sol' e o 'i', é como se nunca tivessem existido na esfera digital. Do já extinto 'Diário Económico', nem o mais remoto rasto.

Alguns textos, sem esta referência de origem, tornam-se incompreensíveis. E só passou uma década.

É algo que me preocupa muito. Como é que os historiadores do futuro farão História se os próprios jornais se encarregam de apagar os seus arquivos digitais?
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 02.04.2020 às 11:17

Excelente reflexão, se me permite.

Pela carência de fontes "digitais" na historiografia que se há-de fazer

"A ausência de prova não é prova de ausência"
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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 11:20

Hei-de voltar ao tema, num futuro próximo.
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De Costa a 02.04.2020 às 13:26

Afasto-me do tema, mas não poderia deixar de, invocando o último parágrafo deste seu comentário, levar mais longe essa futura dificuldade de fazer História. Aquela História que usualmente não consta dos manuais escolares. Não de forma directa, pelo menos, não o relato e interpretação dos grandes momentos, das convulsões nacionais, crises, guerras, das opções que a cada momento as nações pelos seus líderes, ou pela falta destes, tomaram. Não o que a literatura, mesmo que coisa crescentemente bizarra, por si só assegurará. Mas a pequena História, a do cidadão comum, a das famílias de existência banal, substancialmente anónimo, mas cujos fundos de gaveta, aqueles que se salvam, acabam por contribuir para o conhecimento de uma época, de uma cultura. Nem que seja limitado ao universo e benefício de uma família e da sua robustez.

Registar o que se faz há-de ser cada vez mais raro. Escrever - mesmo mal, mesmo de forma primária - custa, toma tempo e não faltam por aí, além do telefone de sempre, "aplicações" de voz e imagem de uso, imagino, quase intuitivo. E sem registo perene do que nelas se transmitiu. Mesmo, salvo disciplinada vocação diarística e sob forma clássica, aquilo que se escreve acaba por sê-lo em suportes imateriais, ou quase. E imprimir (somos bombardeados com isso todos os dias), faz mal ao ambiente.

E fica em "contas" o que se escreve. Contas que se perdem com a morte de quem lhes conhece a palavra-passe. Um dia perceber-se-á a falta das cartas amarelecidas encontradas nesses fundos de gaveta.

Ou talvez já nem se ligue a isso e eu seja mesmo um tipo serôdio.

Costa
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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 16:23

Irei regressar a esse tema, fatalmente. Até porque sou confrontado com ele todos os dias, ao verificar como os arquivos digitais da imprensa portuguesa desapareceram em apenas dez anos.
É um acto de lesa-jornalismo, de lesa-cultura, de lesa-informação, de lesa-História.
Uma vergonha. E ninguém fala disto.
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De jpt a 03.04.2020 às 22:20

Os arquivos electrónicos da imprensa. Os arquivos do bloguismo (e, posteriores, das redes sociais) são já uma matéria fundamental para a História. Bloguei sobre isso, e conversei com historiador bloguista, há para aí 12 anos. Julgo que não estará muito feito para a preservação desse manancial.
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De Pedro Correia a 06.04.2020 às 10:46

Devia haver uma Biblioteca Nacional Digital. Urgente haver. Voltarei ao tema muito em breve.
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De jpt a 06.04.2020 às 12:53

E deves. Devemos. Honestamente não sei o que andam a fazer as instituições públicas relacionadas com esta matéria. Se é que andam a fazer algo.
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De Pedro Correia a 06.04.2020 às 19:47

Assim farei, mal o monotema saia de cena.
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De marina a 02.04.2020 às 11:01

Um intervalo na cobardia geral foi uma grande surpresa . Bem haja , General, por vir mostrar o que é um Homem.
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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 11:19

Um dos raros políticos portugueses que admiro sem reservas.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 02.04.2020 às 11:03

Não me parece adequado que se deva recriminar quem decide ficar em casa a comentar. Há pessoas que se impuseram um retiro social, não por estarem doentes ou pertencerem a grupos de risco mas, essencialmente, para não constituírem, para outros, mais fragilizados, incluindo familiares, um factor de risco acrescido. Não são, assim e para mim, heróis de sofá e pelo modo como corre o texto parecem-se com homens de pacotilha, lendo - se, nas suas entrelinhas, breve, indelével mas indelicada censura. Aliás, poderia entender a relatada atitude de Eanes como rasto, não de humildade ou coragem (abdicar da nossa vontade em nome dos outros), mas do cultuar egotista e bravateador da "marca", por si criada, aquando das primeiras eleições presidenciais pós PREC. O General Sem Medo.

Dito isto, admiro o General Ramalho Eanes (o maior político português do século XX??) , não esquecendo as virtuosas razões que o levaram a recusar o Bastão de Marechal e uma subvenção estatal que, com retroactivos, somava 1 milhão de euros.




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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 11:19

Lembra muito bem, no seu parágrafo final, essas duas atitudes de Ramalho Eanes. Fê-lo sem espavento, mas com firmeza. E com uma rectidão cada vez mais rara.
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De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 11:21

Concordo 100% com este comentário.
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De Pedro Correia a 06.04.2020 às 10:48

Você mudou de avatar e de nome outra vez? O problema é que, a cada mudança, tudo para trás muda também. E torna incompreensíveis diálogos vários, as alusões a Vorph, à Transilvânia, etc.
Para a ditadura digital não existe passado: só há presente. E tudo se reescreve à luz desta lógica.
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De Anonimus a 02.04.2020 às 11:06

Onde passou a entrevista? Qual das RTP?
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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 11:17

Passou logo a seguir ao Telejornal.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 02.04.2020 às 11:29

Adenda :

Não haverá nenhuma reforma do "Sistema", seja lá o que isso for. Em descobrindo-se a cura, a bala de prata, contra o "bicho", correremos, no primeiro dia do pós há de vir, desenfreadamente, para o Centro Comercial, atulhando-nos em nome do jejum forçado (Thanathos e Eros) . E tudo o vento levará. Sempre assim foi, umas vezes mais demoradamente do que outras. A seguir às grandes guerras também se vaticinou muita coisa. Veja-se a Europa de hoje.

Temos uma Natureza e a única forma de derrotá-la é obedecendo-lhe.
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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 13:35

A natureza escarnece de quem a idolatra.
Escarnece nas mais diversas formas. Dilúvios, sismos, tufões, maremotos, ciclones, pragas, magma vulcânica, fogo incontrolado, surtos epidémicos, vírus e bactérias.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 02.04.2020 às 13:46

E escarnece de quem se julga fora dela.
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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 14:00

Nesses casos não exerce o direito rasteiro ao escárnio: exerce o direito majestático ao desprezo.
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De Joana a 02.04.2020 às 11:41

Nota-se aqui bem o que eu escrevi há dias num comentário: as pessoas fazem as suas avaliações à balda de acordo com as suas opções ideológicas. Elogiam ou criticam consoante o outro é do mesmo quadrante ou não sem grandes preocupações pelo rigor. Não assisti à entrevista mas o que transcreve aqui são lugares comuns que já ouvi até á exaustão. Por exemplo "Que percebamos que somos falíveis e muito frágeis. " Não há padre nenhum que não diga isto. O General Eanes não disse nada de interessante para reproduzir aqui? Se calhar até disse.
"demonstra que nenhum país, por si, consegue resolver os problemas" Quantas vezes isto foi dito por António Costa (sobretudo nos últimos dias a propósito do holandês)?
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De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 12:41

Excelente comentário. 100% de acordo. Gostei!!!
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 02.04.2020 às 13:46

Tome lá e seja cavalheiro
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De s o s a 03.04.2020 às 23:18

foi o que pensei ao ler o post. Por isso usei a expressao velhinhos queridos
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De Tiago a 02.04.2020 às 11:51

Um verdadeiro Estadista, essa figura em vias de extinção a nível global. Grande homem! E não apenas pelo que disse nesta entrevista.
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De Pedro Correia a 02.04.2020 às 12:19

Um estadista, sim. E os verdadeiros estadistas começam a demonstrar que o são através do exemplo em momentos de crise.
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De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 12:45

Eu diria que, no momento atual, não é grande exemplo uma pessoa de 85 anos sair de casa e andar por perto de outras.
Note-se que eu estou muito longe de ser adepto desta política do "não sair de casa" para a população em geral. Mas acho que é uma recomendação que faz todo o sentido para, especificamente, as pessoas idosas. Mesmo que se trate de generais galardoados e muito corajosos.
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De Pedro Correia a 05.04.2020 às 23:26

Você dá uma no cravo e outra na ferradura.
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De Luís Lavoura a 06.04.2020 às 10:37

Sou como os judeus. "Onde há dois judeus, há três opiniões."
Ter diversas opiniões ajuda a sopesar os prós e os contras. A tentar ver as diversas faces da moeda.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 02.04.2020 às 12:59

Sobre a leveza dos velhos e a gravitas dos recém acabados , raspando nos ditos populares "borda fora os velhos, primos os jovens", ou como a sociedade moderna contempla os gerontes :

Gerúsia


https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ger%C3%BAsia
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De Pedro Correia a 06.04.2020 às 10:50

Nós condenamos os gerontes à morte em massa por coronavírus por falta de condições mínimas de assistência na velhice, quando se trata de uma velhice sem recursos financeiros.
É a face mais triste e mais condenável e mais repugnante (usando um termo caro ao PM Costa) destes dias que temos vivido.
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De Joana a 02.04.2020 às 14:15

Tenho procurado perceber como será a definição de "grande estadista". Há muito a dizer que não cabe aqui. Mas vejamos o caso de Eanes. Em primeiro lugar reconheço que o senhor tem méritos. Depois sei que participou, ou mesmo liderou, o 25 de Novembro. Isso não foi coisa pouca. Em virtude disso foi empurrado para Presidente da República. Fez algo de excepcional? Não sei, talvez. Terminou o mandato e apesar de ainda muito novo nunca mais fez mais nada de politicamente relevante, exceptuando asneiras. De facto fundou um partido, tentou governar o país mas falhou redondamente. Depois desistiu e apagou-se. Nunca governou, nunca liderou o país, nunca foi primeiro-ministro nem sequer ministro. É um notável, concordo. Mas que fez para lhe chamarmos um grande estadista? Ou podemos dar esse título a todos que estejam ideologicamente próximos de nós? Cada um dá o título que quiser e a quem quiser. Certo! Ou estou a ver tudo erradamente?
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De o cunhado do acutilante a 02.04.2020 às 15:31

Não, cara Joana: não está a ver erradamente.
Está a ver tudo acertadamente.
Nada tenho contra Ramalho Eanes e considero-o uma pessoa de bem, mas daí a elevá-lo a um patamar nunca inferior ao de um salvador nacional, vai uma grande distância.
Dizer que dava o ventilador a um pai com filhos que precisasse dele, não fazia mais do que o seu dever humanitário. Eu dava-o a qualquer pessoa, quer fosse pai ou não. Tenho 78 anos e já vivi o que tinha a viver. Até já vivi de mais.
Talvez ele pense assim. Como disse, tenho-o como uma pessoa de bem
Viu e disse tudo muito acertadamente, cara Joana.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 02.04.2020 às 17:06

"Tenho 78 anos e já vivi o que tinha a viver. Até já vivi de mais."

Eu pensava isso aos 20 anos
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De o cunhado do acutilante a 02.04.2020 às 17:34

Acredite se quiser, mas olhando em retrospectiva parece-me que já vivi séculos e séculos. A última das minhas preocupações é a morte.
Só não queria morrer em sofrimento. Não porque não possa ou a dor me assuste, mas honestamente analisando a minha vida, o que fui e o que fiz, acho que merecia morrer em tranquilidade.
Pois aos vinte anos o que menos queria era morrer. Aliás e com uma arma na mão, a minha preocupação era se dava bem conta do recado, não fosse o Diabo tecê-las.
A melhor saúde para si, e para todos que lhe sejam queridos.
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De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 17:36

Tenho 78 anos e já vivi o que tinha a viver. Até já vivi de mais.

Muito bem dito.

É normal que qualquer animal, racional ou irracional, tenha horror à perspetiva de morrer e rejeite a morte.

Mas uma pessoa racional deve saber reconhecer quando já viveu a vida útil que lhe foi dada, e quando já é tempo de morrer.
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De o cunhado do acutilante a 02.04.2020 às 20:49

É isso, Luís Lavoura: Uma vida útil. E essa tive-a.
Honrada e digna, e nunca vencido.
À vontade de Deus, humildemente baixo a cabeça, à dos homens, nunca!

Sou um pássaro viageiro,
pelo mundo caminheiro.
Verdadeiro e sincero,
morrerei com o orgulho por inteiro.

Muitos céus eu cruzei,
muitos mares naveguei.
Muitas estradas calcorreei,
íngremes montanhas alcancei

Ao Céu já subi,
e ao Inferno desci.
Já amei e já ri,
já chorei e padeci.

Já matei e vidas salvei,
o ódio nunca acoitei.
Fui criança e desobedeci,
fui homem e protegi

Por isso quando Ela chegar,
a rir me vai encontrar.
Não me assustas Ceifeira,
de há muito és companheira.
De bom grado te acompanharei,
porque por tudo quanto passei,
pelo mundo que conheci,
pela vida que já vivi,
estúpida que tanto tardou.
Levas-me sim,
mas fui eu quem sempre ganhou.
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De marina a 02.04.2020 às 21:35

Vida completa . Quando for , vai subir de nível de certeza.
Também não tenho medo nenhum da morte.. Tenho mais medo dos homens , muito mais.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 02.04.2020 às 21:44

Luís, duvido que um animal irracional pense.

Luís, acredito que haja muita gente que, porque nascida, se julga viva.

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