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É um nightmare!

por Teresa Ribeiro, em 28.01.17

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Hoje quando saía de casa olhei o céu e imediatamente saltou dos confins da minha memória a expressão "chove a potes". Sorri de mim para mim. Essas palavras faziam parte do fraseado da minha avó. Acho que já não as oiço há anos. Há expressões que carregamos de tanta ternura que quando as usamos é como se fosse um agasalho. Por isso gosto de as revisitar. No entanto o que se usa agora, mais que nunca, são os vocábulos de importação. Comecei por ouvi-los com mais insistência em reuniões de trabalho (kick off, meeting point, status, fee, statement, empowerment, boost, icebreaker, core business...). Mas agora é também quando penduramos o heterónimo que usamos no trabalho: entre amigos saltam frases como "foi um nightmare", "nada como um pouco de facetime", "ele é um risk taker", "precisamos de quality time".

O que se passa connosco? Já houve quem respondesse aos meus protestos insinuando que estou uma bota de elástico (oops! shall I say "elastic boot"?) e que globalização também é isto. A mim o que me parece é que continuamos tendencialmente saloios, sempre deslumbrados com o que é estrangeiro e prontos a descartar ou desvalorizar o que é nosso. Se assim não fosse não haveria tanta gente a abraçar o Acordo Ortográfico sem pestanejar. No mundo empresarial, então, é um a ver se te avias. Como se resistir à adopção do "aborto", pelo menos até ver como isto fica, fosse um sinal de decadência. Whatever...

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28 comentários

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De V. a 27.01.2017 às 19:09

Junte-se a preguiça e o medo de errar induzidas pelo funcionalismo público (veja-se com atenção a linguagem dos formulários para o público em geral) e a inexistência de uma cultura.. humm.. open source?... e... voilá.
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De Teresa Ribeiro a 28.01.2017 às 08:54

Falta de cultura open source. Aí está uma boa pista :)
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De Anónimo a 27.01.2017 às 19:31

O abuso dos anglicismos é uma nova versão de chico-espertismo saloio.
O mesmo que, desgraçadamente, também está na base desta ditadura de partidos, a que os mesmos insistem em chamar democracia.
Ou seja, há que exibir algo de transcendente, inacessível à populaça, que deve ficar estarrecida e esmagada, debaixo de tanto saber e competência... a competência que nós conhecemos e sofremos na pele.
Estarrecida, esmagada e preparadinha para a manipulação e a exploração.
Parece uma tese rebuscada.
Mas olhe que não, olhe que não!
João de Brito
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De Teresa Ribeiro a 28.01.2017 às 08:58

Até ver, a ditadura de partidos ainda é a melhor das ditaduras... quanto ao chico espertismo saloio, acho que nalguns casos o abuso de anglicismos também é isso. Noutros é mesmo só saloice...
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De Anónimo a 28.01.2017 às 13:11

Teresa Ribeiro,
muito bom fim de semana!
"Até ver, a ditadura de partidos ainda é a melhor das ditaduras...".
Ainda não dá para ver?!
É para mim claro que cada vez mais há condições para o exercício de uma democracia direta.
E não negará que, como princípio, onde e quando tal for possível, o que cada um de nós puder decidir não deve ser entregue ao arbítrio, muitas vezes perverso, de terceiros, sejam eles partidos ou outra coisa qualquer.
João de Brito
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De lucklucky a 27.01.2017 às 22:21

Teresa Ribeiro Trumpista? LOL! ;-)

Como é óbvio as pessoas tornam-se multilingues.
Se as pessoas usam inglês em várias das ferramentas com que trabalham, se expressões em alguns casos indicam melhor a intenção, se vêem filmes seja na TV e no Cinema, séries em inglês, lêem livros em Inglês obviamente ficam com tendência para usar várias palavras e expressões em inglês.
É assim a aprendizagem de uma língua como as crianças fazem.


O tchau não apareceu do Ciao já de si vindo de uma ou várias telenovelas brasileiras?
Uma coisa que noto também nos jornais Italianos é proliferação de expressões inglesas.
Veja-se aqui o La Reppublica um jornal da esquerda Italiana: "Tutti aspettano la Juventus il mercato dopo il weekend"
http://www.repubblica.it


O que isto também revela é simplesmente a baíxíssima produção portuguesa e em geral da Europa. Quando as energias de um país estão volta de variantes de socialismo e estado social a energia para a cultura de fazer, criar, inventar coisas é nula.
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De Anónimo a 28.01.2017 às 00:08

É tudo efeito do marxismo.
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De lucklucky a 28.01.2017 às 02:54

O teu post é...
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De Teresa Ribeiro a 28.01.2017 às 09:15

Trumpista?! Vá de retro!
É evidente que há expressões, que decorrem da utilização da tecnologia que não contesto (internet, browser, download, upload, attachment, hacker, back up, bug, joystick, password, nerd, desktop...) São tantas, para algumas nem temos tradução. Mas é preciso acrescentar à lista expressões correntes para usar em conversa casual? Note-se, que pontualmente também as uso (ok, "tchau"...) até a escrever. Às vezes servem-me para expressar ironia, como foi o caso do meu "whatever" neste post. O que refiro é a quase caricata utilização do inglês que desde há um par de anos observo: a percentagem de anglicismos em cada frase, só pode ser uma coisa antinatural. Trata-se de uma atitude, algo que se está a convencionar como forma de afirmação e que na minha opinião, como tantas vezes acontece quando há exagero, resulta um pouco ridícula.
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De Dário a 28.01.2017 às 16:07

Teresa,

Diz-se Vade retro!, que é uma abreviação da jaculatória latina "Vade retrum Satana!" - para trás Satanás!, e não vá de retro.
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De Teresa Ribeiro a 30.01.2017 às 13:24

Obrigada. Reparei que tinha posto acento, quando não devia, mas teria mantido o "va" separado do "de". Falta de latim em pequenina...
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De lucklucky a 29.01.2017 às 00:13

O seu whatever é um bom exemplo de economia para expressar um sentimento de despreendimento que indica melhor a intenção do que colocar um "qualquer coisa" que não é um hábito na nossa lingua.
É a própria construção do parágrafo que beneficia o uso do inglês.

E só pode dizer que é antinatural - cuidado com a expressão a Polícia Política anda por aí - se as outras pessoas tiverem o mesmo grau de contacto com o Inglês como você, e mesmo assim...

Pense numa pessoa que está todos os dias a ler "papers" - aqui está mais uma ;-)- em Inglês, ou trabalhar num programa em língua inglesa e tem de falar por telefone/skype em Inglês com alguém na Alemanha, Croácia ou outro lado qualquer? Sai do emprego a pensar em inglês ou português?

Eu por exemplo quando leio um texto em inglês e tenho de criar um pasta para o guardar e classificar a minha primeira tendência na maior parte das vezes é para o nome da pasta ser em inglês, quanto mais longo o texto e mais textos tenha de ler mais as hipóteses.

A conta não se faz só do lado de quanto Inglês se fala, escreve, lê, mas de também quanto português se fala, escreve , lê oposto ao Inglês. Se 80% de actividade um pessoa na sua semana de trabalho é em Inglês em que língua vai ela pensar? Agora imaginemos que essa pessoa é solteira/divorciada não tem muita gente com que falar em Português em casa e vai-se por a ver uma série em Inglês em casa...
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De Teresa Ribeiro a 30.01.2017 às 13:37

Lucky, uso expressões como essa e sem complexos, há muitos anos. Não sou uma purista. É claro que os nossos hábitos de trabalho, cada vez mais em torno de textos ouvidos e falados em inglês, nos influenciam. Mas quando a percentagem de anglicismos passa para lá de certa conta, torna-se ridículo (vide sketch dos Gato Fedorento e poema postados em baixo). É disso que falo.
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De PiErre a 28.01.2017 às 11:25

Temos duas línguas; o português, que já está adulterado, e o mirandês, que ainda não está. Falemos então o mirandês, que é melhor...
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De V. a 28.01.2017 às 17:08

Também lhe tiraram os pês e cês, foi pró AO pré AO. Sem razão nenhuma porque estão lá todos (e consoantes muitas vezes a dobrar) no velho e bom Leonês de onde deriva.
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De Anónimo a 28.01.2017 às 19:32

Eu acho que tanto o português como o mirandês são adulterações do latim. Para sermos puros, o melhor é não falar: assim não pecaremos.
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De V. a 30.01.2017 às 11:40

Para não pecar, neste caso, basta não interpolar o assunto em questão com outros assuntos com o intuito de desviar o debate do centro da questão onde não têm razão nenhuma. A cambada que governa esta espelunca faz sempre isso para gaúdio da turba praticamente analfabeta. É o que vocês fazem sempre: utilizar argumentos ideológicos em questões científicas ou de outra natureza qualquer. Vem lá sempre o moralismozinho republicano e temos sempre de salvar um pretinho para apaziguar os vossos complexos ultramarinos.
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De Liberato a 28.01.2017 às 21:39

Sobre a utilização de anglicismos Fausto Bordalo Dias escreveu esta canção no álbum "A Ópera Mágica do Cantor Maldito" de 2003.

"Barbaros em "Passerelle" (minuto 43)

https://www.youtube.com/watch?v=CxIojDC_0-M&t=391s

um ar “negligé”
furtivo em “dress code”
“cool calm and collected”
outro “enfant gate”
“whisky un the rocks “

cara estampada em qualquer
“hall”
mesmo imprimida em
“outdoor”
o aedo é “low profile”
o bardo vai “démodé”
o propriamente dito
é “forever” “verités”
no “glamour” da cidade
no “jet set” a novidade
do atirador furtivo
perdão
do “sniper” a abater
em “open space”
“just in time”
e no “prime time”
e então

II
o cantor não tem “it”
a voz canora “in blue”
se sou mais eu e tu
e um “partner” todo nu
sou eu mais tu e “true”

mais adoramos um “spin-off”
erguido em nosso “buzzword”
o “charman of the board”
em “scoop” em “guid lines”
no “damage control”
na maldição do jacobino
fica aqui já pelas custas
o “study case”

o valdevinos
“out” e “in” na volúpia
do concúbito
um “hat-trick”
bem chique
na “flash-interview”
que mais podemos nós
fazer
de “to do”

III
somos a “entourage”
brilhante “brain storm”
“made in” em “New York”
“opion makers” e
“follow-up” informe

e por falar em português
o “flash back” é amanhã
o “sponsor” do artista no “casting” da cortesâ
na de Rimbaut “en passant”
na de Cervantes era dantes
na de Camões p’ra depois
valha o William
se não nunca
falariamos nunca mais
jamais
no “ranking” de culturas
império
“shooting room”
em lingua pura
e em vez das quatro
um

e melhor seria
um outro “boom”
via “e-mail”
e vez do “bug”
bedum

“wait and see”
“me”
mi
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De Pedro Correia a 29.01.2017 às 10:03

Cinco estrelas. Ou five stars, para entrar no espírito da coisa.
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De Teresa Ribeiro a 30.01.2017 às 13:27

Uma delícia, Liberato :)
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De Isabel Mouzinho a 29.01.2017 às 00:18

Completamente de acordo, Teresa.
Este teu post fez-me lembrar um sketch dos Gato Fedorento.
Este: https://www.youtube.com/watch?v=0DnEpNpCWdM
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De Anónimo a 29.01.2017 às 09:39

Dos Gatos Fedorentos. Já agora falemos então português com gramática e tudo.
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De Teresa Ribeiro a 30.01.2017 às 13:40

Não, anónimo. O correcto é dizer os Gato Fedorento, que é o nome artístico do grupo.
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De Anónimo a 01.02.2017 às 19:40

Olhe que não. Soa pessimamente.
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De Teresa Ribeiro a 30.01.2017 às 13:32

Ehehe! Bem lembrado, Isabel. Se considerarmos a conversa deles até meio, a coisa está bem perto do que é hoje a realidade dentro de uma sala de reuniões.
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De Pedro Correia a 29.01.2017 às 10:03

Muito bom, o teu texto, Teresa. Very good indeed.

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