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É sempre possível ir mais longe

por Pedro Correia, em 11.07.16

cristiano-ronaldo3[1].jpg

 

10 de Julho de 2016: nunca mais nos esqueceremos desta data. Portugal chegou onde muito poucos previam, contrariando todos os profetas da desgraça: somos enfim campeões da Europa. O nosso maior troféu de sempre no futebol sénior a nível de selecções.

Um troféu com que vários de nós sonhávamos há décadas.

Foi com indescritível alegria que vi o nosso capitão Cristiano Ronaldo acabar de erguer o troféu conquistado com tanto suor e tanto sofrimento pela selecção nacional no Stade de France, silenciando a arrogância, a pesporrência e o chauvinismo gaulês.

 

É uma vitória de Portugal, sim. Mas é antes de mais nada a vitória de um grupo de trabalho muito bem comandado por um homem - Fernando Santos - que revelou ambição desde o primeiro instante e soube incuti-la na selecção, que jogou unida como raras vezes a vimos, com uma maturidade táctica inegável e um ânimo que não claudicou quando Cristiano Ronaldo se lesionou gravemente num embate com Payet, iam decorridos apenas 8', e deixou de poder dar o seu contributo para esta final, acabando por ser rendido aos 25'.

As lágrimas que lhe caíam pelo rosto enquanto era retirado em maca integrarão a partir de agora a inapagável iconografia do desporto-rei.

 

Com ele em campo tudo teria sido mais fácil. Mas assim provámos à Europa do futebol - e a alguns comentadores portugueses que nunca deixaram de denegrir a selecção durante toda esta campanha europeia - que a equipa das quinas não é só "o clube do Ronaldo". É muito mais que isso. É uma equipa madura, sólida, solidária. Capaz de chegar mais longe do que qualquer outra.

Que o digam os jogadores franceses, que enfrentaram Rui Patrício - para mim o herói da final, naquela que foi talvez a melhor exibição da sua carreira como guarda-redes da selecção. E uma dupla imbatível de centrais formada por Pepe e José Fonte. E o melhor lateral esquerdo deste Europeu, Raphael Guerreiro, que disparou um petardo à barra da baliza de Lloris aos 108', naquilo que já era um prenúncio do golo português. E um Cédric combativo, que nunca virou a cara à luta. E um William Carvalho que funcionou como primeiro baluarte do nosso dique defensivo. E um João Mário com vocação para brilhar nos melhores palcos europeus. E um Nani que nunca deixou de puxar os colegas para a frente. E um Éder que funcionou afinal como a mais inesperada arma secreta da selecção nacional, marcando aos 109' o golo que levou a França ao tapete e nos poupou ao sofrimento acrescido das grandes penalidades que já muitos antevíamos.

 

Dirão alguns que tivemos sorte, que jogámos feio e jogámos mal: porque haveriam de mudar agora o discurso se não disseram outra coisa durante mais de um mês?

Mas é claramente injusto reduzir a estas palavras e estes rótulos um trabalho iniciado há quase dois anos e que já com Fernando Santos ao leme da selecção registou 14 jogos oficiais - com dez vitórias e quatro empates. Não perdemos uma só partida nesta fase final do Europeu, em que eliminámos a Croácia (uma das selecções apontadas como favoritas antes do torneio), o País de Gales (equipa sensação durante dois terços da prova) e a campeoníssima França, anfitriã e principal candidata à vitória desde o apito inicial do Euro 2016.

Todos os obstáculos foram superados. No momento em que Cristiano Ronaldo ergueu a Taça da Europa perante largos milhares de portugueses em delírio nas bancadas do estádio, estavam vingadas todas as outras ocasiões em que jogámos bem, jogámos bonito - e regressámos a casa sem troféu algum.

Esse tempo acabou de vez.

 

Ficaram também vingadas as nossas derrotas nas meias-finais do Europeu de 1984 e do Euro 2000, e o nosso afastamento do Mundial de 2006, igualmente nas meias-finais. Sempre contra a França. As tradições existem muitas vezes para isto mesmo: para serem quebradas.

O momento é de celebração nacional, com o campeão europeu mais velho de sempre (Ricardo Carvalho) e o mais novo de sempre (Renato Sanches). Enquanto escrevo estas linhas escuto uma sinfonia de buzinas na avenida onde moro e gente a gritar "Nós somos campeões!"

Muitos dos que buzinam e gritam nem se lembraram de pôr este ano bandeirinhas à janela e não deixaram de lançar farpas sarcásticas ao seleccionador, descrentes das nossas possibilidades de vitória. Nada como um triunfo desportivo para apagar memórias e congregar multidões.

Atenção, porém: ninguém merece tanto celebrar como Fernando Santos e os nossos jogadores. Sim, esta vitória é um pouco de todos nós. Mas é sobretudo deles.


24 comentários

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De jj.amarante a 11.07.2016 às 01:59

Desta vez concordo em quase tudo consigo excepto quando diz: "...todas as outras vezes em que jogámos bem, jogámos bonito - e regressámos a casa sem troféu algum. Esse tempo acabou de vez." Eu diria que essa sequência de vitórias apenas "morais" foi finalmente interrompida. Esperemos que por algum tempo.
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De Pedro Correia a 11.07.2016 às 10:05

Isso é o fado habitual, JJ Amarante. Mas desta vez não houve fado. Há um antes e um depois do 10 de Julho de 2016.
A era do "quase conseguíamos" chegou ao fim.

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