É preciso é que a bola role

Recomeça hoje o mais estranho campeonato nacional de futebol das nossas vidas. À porta fechada, como se as bancadas dos recintos desportivos, ao ar livre, fossem perigosíssimos focos de contágio. Isto quando o Governo já autorizou a reabertura de centros comerciais.
Um campeonato que esteve parado quase três meses, que tenta mudar as regras da competição a meio como se isso não atentasse contra a elementar ética desportiva. Com uma equipa açoriana a jogar voluntariamente muito longe de casa, transformando numa farsa o discurso contra a macrocefalia lisboeta. Com a perspectiva inicial de se disputar "no menor número possível de estádios", que começaram por ser apenas nove mas que afinal serão dezassete. Tudo e o seu contrário sempre a pretexto do novo coronavírus.
Um futebol que assume o divórcio compulsivo entre jogadores e público, embora ainda lhe chamem espectáculo, apesar de proibirem sócios e adeptos de frequentar as bancadas dos seus estádios, enquanto se permite que a malta acorra ao Campo Pequeno para aplaudir o humorista Bruno Nogueira, com a complacente presença do primeiro-ministro.
E a gente, do lado de fora, aplaude também. Cada vez menos cidadãos, cada vez mais súbditos deste Estado em incessante produção de decretos e portarias desdizendo numa semana o que dissera na semana anterior e vai tolerando chocantes excepções, até ao alegado "estado de emergência", enquanto proclama o primado da igualdade perante a lei.
É preciso é que a bola role sobre a relva e que a gente se entretenha de olhos fixos na pantalha. Todos embalados na cantilena do "novo normal" com o estribilho "vai ficar tudo bem" a servir de placebo enquanto nos dias pares se grita às pessoas para recolherem a casa (e se for preciso encerram-se em "cerca sanitária") e nos dias ímpares se estimula as pessoas a saírem de casa e "consumirem" seja o que for com o dinheiro que deixaram de ter.
Que soe o apito inicial. Quero lá saber do "desconfinamento", estou-me nas tintas para a "curva exponencial", tenho raiva a quem sabe o que é uma zaragatoa: quero é bola. Eis-me pronto a trocar o estádio pelo sofá, em festiva celebração do "distanciamento social" - expressão que todos usam sem fazerem a menor ideia do que significa.
Até já estou de cachecol, apesar do calor. E se a Senhora Directora-Geral da Saúde mandar, assisto obedientemente aos jogos em casa de máscara e luvas, como faz agora o Senhor Presidente quando frequenta um restaurante para mostrar aos portugueses como este doce país se tornou muito mais seguro com ele ao leme.

