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E agora, PS?

por Pedro Correia, em 03.12.14

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Mário Soares (com Salgado Zenha e Manuel Serra) no I Congresso do PS, em 1974

 

Já não há paciência para o uso e abuso de certos chavões na política portuguesa. Um deles - que escuto desde miúdo, há 40 anos - é a necessidade de "virar o PS à esquerda".

Isto encerra dois equívocos.

Primeiro: desautoriza a identidade dos socialistas como força política de esquerda, por sinal aquela que é desde sempre a mais votada neste segmento.

Segundo: pretende arrastar o PS para fora do eixo governativo, tornando-o um partido inútil.

 

A verdade é que, em quatro décadas de democracia, os socialistas sempre governaram ao centro - ou não governaram de todo. Todas as cisões "pela esquerda" ocorridas no partido - desde a primeira, com Manuel Serra, logo após o congresso inaugural, em 1974 - não conduziram a lugar algum.

Mário Soares sabia disto como ninguém: nas duas ocasiões em que chefiou o Governo, nas décadas de 70 e 80, concretizou este objectivo aliando-se à direita - primeiro com o CDS, depois com o PSD.

António Guterres, que nunca obteve maioria no Parlamento, viu os seus orçamentos viabilizados não pela esquerda mas pelo centro-direita, alternadamente, com Manuel Monteiro ou Marcelo Rebelo de Sousa.

E José Sócrates, fiel à letra e ao espírito do Tratado Orçamental, nunca deixou de ser um dos políticos predilectos de Angela Merkel - facto que alguns dos seus mais abnegados discípulos tentam fazer esquecer por estes dias. De resto, na segunda legislatura sob o seu comando, o ex-primeiro-ministro socialista só conseguiu governar porque o PSD, com Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho, lhe viabilizou dois orçamentos do Estado.

A auto-intitulada "verdadeira esquerda" fechou-lhe a porta com o estribilho de sempre: o PS "pratica políticas de direita" .

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Francisco Assis: o rei vai nu

 

Esquecer tudo isto é ignorar deliberadamente a contínua obstrução que as forças colocadas à esquerda dos socialistas sempre fizeram à acção governativa do PS, erigido em permanente adversário principal. Não deixa de ser irónico, portanto, que Francisco Assis seja agora o maior alvo das críticas internas no partido que acaba de sufragar a orientação política de António Costa por um voto quase unânime.

Qual é o seu delito de opinião?

Defender, como prioridade para o PS, aquilo que Soares sempre praticou: o bloco central revisitado. Algo que alguns actuais expoentes da "ala esquerda" do PS, como Ferro Rodrigues - e outros, como Vera JardimVítor Ramalho ou o ex-presidente Jorge Sampaio -, defenderam no passado.

Assis - dotado de visão estratégica - revelou para já o mérito de ter sido o único socialista de primeiro plano a anunciar que o rei vai nu. Por outras palavras, a dizer algo óbvio mas que agora quase todos recusam reconhecer: que a "viragem à esquerda" levará o PS a esbarrar contra a parede.


4 comentários

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De Sérgio de Almeida Correia a 04.12.2014 às 03:13

Em Outubro se verá quem tinha razão, Pedro.
A última "viragem à esquerda" foi na Câmara de Lisboa. Valeu a vitória e pela primeira vez a maioria na Assembleia Municipal. O problema de Assis é outro. "Virar à esquerda" é uma expressão ilusória e com pano para mangas, mas a seu tempo direi alguma coisa sobre isso. Aqui recordo que a moção de Costa fala em "grande espaço político da esquerda democrática e do centro-esquerda em Portugal". É discutível, em especial porque se fala na confluência da "tradição da social-democracia, do trabalhismo e da esquerda socialista". Mas não me lembro de alguma vez o PS se ter definido como partido do "centro-esquerda".
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 09:33

Caro Sérgio, teremos ocasião de ir debatendo um pouco tudo isto ao longo dos próximos meses pois, à velocidade a que se processa a torrente dos acontecimentos políticos, não faltarão pretextos para isso.
A minha tese é que Assis se limita a proclamar agora (na linha, aliás, de um Valls em França ou de um Sigmar Gabriel na Alemanha - e já nem falo do "novo trabalhismo" britânico) aquilo que o PS sempre praticou quando foi governo em Portugal. Não desde os tempos do tão mal-amado Guterres (naqueles anos testemunhei de perto a fúria que tantos barões socialistas votavam ao "católico" e "moderadíssimo" líder do PS), mas do próprio Soares - que sempre governou aliado à direita e sob uma permanente chuva de críticas e até insultos da "verdadeira esquerda". A que se esgota no protesto, esteja o governo que estiver.
Não interessa qual o rótulo que o PS utiliza em matéria de geografia política: interessa reconhecer que ou governa ao centro (vincando as suas características de "centro-esquerda") ou não governa. Porque a verdade é esta: com Guterres ou Sócrates minoritário foi sempre a tenebrosa "direita" que lhes viabilizou os orçamentos do Estado.
No fundo, Assis defende hoje o que Soares já disse e praticou no passado. Ou o que já defendeu Sampaio. Ou Ferro. Ou Vera Jardim. Ou Vítor Ramalho. O espaço de expansão natural de um PS com ambições de Governo é o centro. Porque à sua esquerda só encontra intransigência sectária e hostilidade radical daqueles partidos que não querem assumir responsabilidades governativas de qualquer tipo e encaram os socialistas como adversário principal.
Nada de novo debaixo do sol.
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De Sérgio de Almeida Correia a 04.12.2014 às 16:55

Pois, Pedro, mas foi esse caminho que nos trouxe até aqui... (refiro-me a Portugal, não ao PS). Há outros caminhos, e não só para o PS.
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 21:58

O caminho era muito estreito, Sérgio. E havia um precipício na berma da estrada.
Mas não faltarão ocasiões para irmos comentando e até antecipando os acontecimentos. Embora eu me sinta cada vez me sinto menos capacitado para futurologia. Raciocinar a mais de seis meses de distância já é um raciocínio demasiado arriscado.
Repara nisto, por exemplo: no congresso do passado fim de semana o António Costa fez um elogio especial ao novo primeiro-ministro sueco, pertencente à família política do PS. Hoje mesmo fomos informados que o Governo sueco afinal caiu, por ter visto o orçamento chumbado, e haverá novas eleições.

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