E agora o desconhecido
A Grécia e os seus credores estavam à beira de um acordo, quando houve ruptura inesperada das negociações. O Eurogrupo chegou a propor condições mais generosas do que as que foram oferecidas a Portugal há dois anos e que permitiriam a Atenas prolongar por cinco meses o actual programa e negociar tranquilamente o terceiro resgate. A atitude dos negociadores gregos sugere que o governo de Alexis Tsipras não conseguiu convencer os membros mais radicais do Syriza ou, em alternativa, pretendia desde o início abandonar a União Económica e Monetária (UEM), culpando os europeus pelo desfecho. No comentário nacional, há observadores que acreditam na culpa exclusiva dos dirigentes europeus, ou seja, a estratégia teve êxito.
Entre os credores havia quem defendesse a saída da Grécia, sublinhando que podia facilitar a reparação da própria zona euro. O Grexit implica horrores económicos e riscos políticos, mas o copo pode ser visto meio cheio, pois a partir de agora quem não cumprir o Tratado Orçamental será vítima de gradual afastamento dos mercados, o que leva à porta de saída. Acabaram as ilusões: esta circunstância tem mais força do que a união política, cuja ausência no projecto inicial da UEM se revelou tão desastrosa.
Nos próximos dias, tudo o indica, assistiremos ao colapso financeiro que levará a Grécia a impor controlos de capital e a introduzir uma moeda paralela para pagar salários e pensões. A desvalorização dessa moeda permitirá recuperar a competitividade, mas entretanto haverá falências e serão destruídas as poupanças da classe média, que tem grandes quantidades de dinheiro debaixo dos colchões e, assim, poderá resistir durante alguns meses. O governo de esquerda pode finalmente cumprir as promessas eleitorais, acabar com a austeridade, imprimir dracmas, aplicar um programa radical. A Grécia empobrecerá ainda mais e a Europa (incluindo os contribuintes portugueses) pagará os incumprimentos gregos e correrá certo risco de perturbação nos mercados de dívida, mas do ponto de vista político tudo avançará mais depressa: nos próximos dois anos serão definidos mecanismos de maior integração e haverá mudanças fundamentais na UE, com a renegociação da relação dos britânicos e uma nova geração de líderes na Alemanha e talvez também em França, resultando num núcleo mais forte de países e em periferias mais distantes.


