Duplicidade e cobardia
"Darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão" (Êxodo, 21; 23)
"Não deixarás viver a feiticeira" (Êxodo 22; 17)
"Quando se encontrar no meio de vós um homem ou uma mulher que faça o que é mal aos olhos do Senhor teu Deus (...) apedrejá-los-ás até que morram" (Deuteronómio 17; 2 - 5)
Também nós, cristãos, travámos a nossa guerra santa. Dos autos de fé à evangelização a fio de espada transcrevemos a sangue muitas passagens do nosso livro sagrado. Mas isso foi há séculos. Desde então fizemos o longo caminho que consagrou o respeito pela vida humana. Algo sem paralelo noutras culturas. Orgulho-me desta marca civilizacional, por constituir a maior prova de que é possível superar os estreitos limites da natureza humana e alcançar algo maior.
Sou cristã não católica e ainda que seja muito crítica em relação à ICAR, reconheço que embora contradiga algo de fundamental na mensagem cristã, que prega a igualdade de todos os seres humanos perante Deus, a hierarquia facilita a sua afirmação no mundo e uma certa coerência doutrinária.
Os islamistas não têm um chefe supremo, mas várias coutadas, umas mais influentes que outras, representando diferentes correntes. Estas circunstâncias explicam dificuldades e constrangimentos de comunicação para o exterior, mas não desculpam a ausência de concertação de posições face ao que se passa actualmente no mundo islâmico, o seu mundo.
Os moderados juram que o seu Corão é fundamentalmente uma mensagem de amor pela humanidade. Assumem-se como pacifistas, demarcam-se dos movimentos extremistas e recolhem-se no recato das suas orações, esperando que os infiéis lhes resolvam os problemas de má Imprensa. Há dias, o chefe da comunidade islâmica em Portugal, Abdool Karim Vakil, interrogado numa entrevista ao Expresso sobre a escalada de terror que se tem observado no Iraque e na Síria, respondeu: "Também há cristãos terroristas, hindus terroristas, judeus terroristas. O ser humano é assim. Matar é um pecado muito praticado." E seguiu, afirmando: "Também existem fanatismos na política. Há muitos fanatismos, cristão, judaico, hindu, etc. O do islão é mais mediático."
À pergunta: "Não acha que deve haver uma condenação mais forte e uma demarcação mais taxativa dos moderados em relação aos extremistas?", respondeu: "Eu abstenho-me de fazer comentários. Telefonam-me a pedir opinião, eu queria evitar falar muito."
Sobre a guerra de morte entre sunitas e xiitas, repetiu como um realejo: "Fanatismo existe em muitos lugares." Na mesma linha de raciocínio, sobre a discriminação das mulheres pelo islão, argumenta: "A mulher é inferiorizada em muitas sociedades. Em Portugal a mulher não tinha os mesmos direitos. Não podia votar."
Tudo é relativizado por este homem de paz. Sobre os jihadistas: "Não são assassinos por natureza. Julgam que estão a fazer o bem." As suas atrocidades são reprovadas com um lacónico: "O islão não prega isso."
Sobre os bombistas suicidas e a ficção das 70 virgens no paraíso, comenta: "O que se há-de fazer? Estou feliz por em Portugal não haver isso."
O que se há-de fazer?! Pilatos não diria melhor. Estes moderados-não-me-comprometa não põem a cabeça no cepo. Preferem deixar o trabalho sujo para os infiéis.


