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Delito de Opinião

DRH

José António Abreu, 14.02.15

Bate à porta duas vezes, com pouca força, e depois entreabre-a.

«Dá licença?»

«Ah, entre, João. Como está?»

«Bem, obrigado.»

Ela não se levanta. A mão que lhe estende é longa e magra e tem um anel com uma pedra azul no dedo médio. João aperta-a com cuidado. O toque é firme e suave, exactamente como esperava que fosse, mas ainda assim deixa-o perturbado. A mão dela está fria. Pensa em retê-la um pouco no interior da sua, para a aquecer, mas ela puxa-a. Ele segue a mancha azul com os olhos.

«Sente-se, João.»

Obedece. A cadeira é dura e baixa. João sabe ser quase dez centímetros mais alto do que ela mas naquele gabinete, sentados ela atrás da secretária e ele à frente, são da mesma altura. Repara no pequeno sinal castanho que ela tem junto ao olho esquerdo – e depois desvia o olhar.

«Anda tudo bem consigo, João?»

O tom de voz é neutro, impessoal, mas ainda assim ele sente um frémito. Hesita. Ela fez a pergunta a olhar para baixo, para os papéis em cima da secretária. Não estará verdadeiramente interessada na resposta, pensa João. Diz: «Dentro do possível.»

«Ainda bem, João.»

«A minha mulher morreu.»

Ela nem sequer ergue os olhos.

«Mas já foi há uns tempos, não foi?»

A reacção dela fá-lo arrepender-se de ter mencionado o assunto. Claro que ela tinha de saber. É directora de pessoal.

«Há oito meses. Quase nove.»

Ela levanta finalmente a cabeça. João repara que tem outro sinal, mais pequeno, do lado direito da testa, quase na têmpora. Não se vê bem porque às vezes o cabelo tapa-o.

«Ainda lhe sente a falta?»

Ele não sabe que resposta dar. Não quer mentir mas dizer que quase já não pensa na mulher, ainda por cima depois de ter puxado o assunto, vai parecer mal.

«Tento não pensar nisso.»

Ela continua a olhá-lo durante mais um instante. Depois diz: «É capaz de ser o melhor» e volta a baixar os olhos para os papéis. João sente desvanecer-se o orgulho de ter conseguido uma resposta inteligente.

João não apenas pensa pouco na falecida mulher como já nem se lembra bem dela. Houve um par de ocasiões em que tentou recordar-se das suas feições e não conseguiu obter uma imagem precisa. Mas recorda-se de muitas outras coisas. Recorda-se, por exemplo, de quando a directora de pessoal chegou à empresa, três anos antes, tinha ele já vinte e seis de casa. Disse-se que vinha de outra empresa do mesmo sector. Que nessa outra empresa liderara um processo de despedimento colectivo e depois fora também mandada embora. Claro que pode não ter passado de um boato. Uma forma de a diminuir e fragilizar logo à partida. João também trabalhara noutra empresa antes – mas há uma eternidade, entre os quinze e os vinte e um. Depois viera para esta. A constatação de que haviam decorrido vinte e nove anos (quase trinta, na verdade) deixa-o confuso e indisposto. Especialmente por isso o lembrar de que está a chegar aos cinquenta anos de idade. E sente-os. Gostaria de não sentir, por vezes tenta convencer-se de que não sente, mas sente.

A directora de pessoal deve ter trabalhado em mais empresas, não apenas na anterior e nesta. Ou então passou muitos anos na anterior. No início, quando ela chegara, João tivera dificuldades em determinar-lhe a idade. Magra, elegante, bem vestida, quase sempre de saltos altos, parecia não ter mais de trinta e cinco. Mas depois observava-se-lhe a cara e ficava-se na dúvida se a maquilhagem não servia para disfarçar os efeitos de um número de anos mais elevado. João perguntara a alguns colegas e fora gozado por isso mas acabara por descobrir: quarenta e um. Isto há três anos. Agora andará pelos quarenta e quatro. João pensa que ela não os parece. E depois, como em inúmeras ocasiões nos três anos anteriores, que é apenas seis anos mais nova do que ele.

Ao chegar à empresa era casada mas entretanto divorciara-se. Tinha um filho, que João vira apenas uma vez, logo no primeiro Natal. Nessa altura a empresa ainda fazia uma festa, com distribuição de presentes às crianças dos trabalhadores. O filho dela andaria agora pelos oito ou nove anos, o que significava que ela o tivera por volta dos trinta e cinco. João sabe que hoje em dia poucas mulheres têm filhos antes dos trinta e cinco. A carreira é mais importante. Ele também tem um filho. E uma filha. Mas ambos já acima dos vinte. Haviam nascido, com menos de dois anos de intervalo, numa época em que tanto João como a mulher andavam pelos vinte e cinco – praticamente a idade que o filho tem agora. Estão fora de casa, ele numa empresa de metalomecânica na Alemanha, ela a acabar o curso de assistente social no Porto. Espera-a o desemprego, é o que todos dizem, mas João tenta não pensar nisso. Desde que ficou sozinho em casa esforça-se por não pensar no futuro. A mulher é que fazia questão de estar sempre antecipar o futuro – constantemente cheio ameaças.

Ela fala de novo: «João, não sei se desconfia da razão por que quis falar consigo.»

No decurso daqueles três anos João vira-a poucas vezes. Apesar de ser directora de recursos humanos, raramente vai à fábrica. Mas ele lembra-se de que houve uma época em que andava abatida. Foi antes e logo depois do divórcio que – João ouviu-o não sabe a quem – coincidiu com a morte da mãe. Um dia, por volta das três e meia da tarde, João ia a sair, depois de concluir o turno, quando a viu dirigir-se para o carro. Parou. Trabalhando em horários desencontrados, nunca tinha oportunidade de falar com ela. Mas agora ali estava, saindo mais cedo por qualquer razão. Começou a caminhar na direcção do carro dela, tentando lá chegar ao mesmo tempo que ela. Estavam ambos a cerca de dez metros quando ela o viu. João notou as olheiras e o ar cansado e ficou sem coragem para meter conversa. Disse «Boa tarde» ao passar por ela e continuou a caminhar. Que se lembre, ela não falou. João só olhou para trás quando ouviu o carro arrancar. Depois foi para casa.

Apercebe-se de que ela disse qualquer coisa que lhe escapou.

«Desculpe, o quê?»

Ela olha-o rapidamente e depois desvia os olhos.

«A empresa não faz isto com agrado, João, mas os tempos estão complicados e é necessário reduzir os custos.»

«Vou ser despedido?»

«Não tome isto como uma questão pessoal, João. A empresa precisa de reduzir o pessoal. Vai ser cortado um turno e vão ser dispensados alguns elementos da área administrativa.»

João consegue agora perceber que o sinal mais pequeno não é bem preto. É escuro mas ligeiramente rosado. Ou talvez fique assim quando ela está nervosa.

«Evidentemente, serão pagas todas as indemnizações devidas. Tenho aqui o valor da sua.»

Mas é difícil ter certeza de que está nervosa. Parece mais cansada do que nervosa. E aborrecida - ou talvez farta. João pensa que não deve ser fácil ter de dar aquelas notícias. Pega no papel que ela lhe estende.

«Porquê eu?»

«Você está no sector onde temos mais excesso de capacidade. E depois não tem família a seu cargo.»

«A minha filha ainda está a estudar. Sou eu que lhe pago os estudos.»

Ela olha para os papéis.

«Deve estar a acabar o curso, não deve? E você vai ter subsídio de desemprego. De qualquer forma, a maioria dos seus colegas tem filhos mais novos.»

É verdade. Não obstante a empresa ter muitos trabalhadores com idade parecida com a dele, raros foram pais antes dos trinta ou trinta e cinco anos. Toda a gente tem filhos mais tarde, hoje em dia.

João não tem vontade de discutir a situação. Olha para o papel. Ela diz: «Não é um valor baixo. Você já cá trabalha há muitos anos.»

Ele não sabe o que dizer. Não lhe apetece discutir. Não com ela, pelo menos. Ficam assim, em silêncio, durante vários segundos que parecem acabar por ser mais desconfortáveis para ela.

«Quer fazer alguma pergunta, João, ou dizer alguma coisa?»

Está a olhar para ele, agora. Mas neste momento é a João que apetece desviar os olhos. Perpassa-lhe pela mente a ideia de que a comunicação dela e o papel que tem na mão são provas do seu falhanço. Em vinte e nove anos de serviço (falhará os trinta por dois meses) não conseguira tornar-se importante para a empresa. Pelo contrário: é dos menos importantes. E é ela quem lhe comunica o facto.

«Não.»

«Não leve isto pessoalmente. Não deixe que o afecte. E, se precisar de falar comigo outra vez, esteja à vontade.»

Estende-lhe a mão. João levanta-se da cadeira e aperta-a. Continua fria.

«Boa sorte, João», diz ela.

«Obrigado.»

João roda e dirige-se para a porta. Pára junto dela e roda outra vez.

«Talvez volte. Vou pensar no assunto e depois talvez volte.»

«Claro, João. Mas marque primeiro, está bem? Se aparecer sem avisar pode estar cá alguém e eu não o poder atender.»

João faz que sim com a cabeça. Abre a porta e sai. Enquanto a fecha, aproveita para a olhar uma última vez. Está de novo a prestar atenção aos papéis.

 

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