Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Dos pobres de espírito

Maria Dulce Fernandes, 13.07.22

transparent-silhouette-mans-head-small-260nw-61007

Há muitas maneiras de morrer.
Há aquela, a mais conhecida, aquela de que todos ouvimos falar e da qual sabemos unicamente que acontecerá. Está escrito no passaporte que nos entregaram quando entrámos neste mundo, mas foram omissos na data e por tal fazemos por não pensar na morte anunciada de que nada sabemos e apesar de vivermos toda a nossa vida nessa corda bamba, vivêmo-la todos os dias, dia após dia,  como se não houvesse amanhã.
 
Há outras mortes. Não é à toa que se diz morrer de mil e uma mortes matadas. Há mortes piores do que a própria morte, a real, a autêntica, a definitiva.
Há a morte intelectual, que acontece quando morremos para os valores morais que sempre nos guiaram, e renascemos um ser abjecto, uma sombra de nós próprios, um monstro de Frankenstein mal remendado com pedaços de personalidades castiças que apanhámos aqui e ali, e que no fundo não compõem nada, não formam ninguém com carácter nem vontade própria, apenas seres amorfos com o espírito envenenado de promessas carnais, que perderam o rumo e não conseguem entender o seu lugar no mundo.
Vulneráveis e vorazes como crianças famintas numa loja de doces, não conseguiremos parar, comeremos com loucura, lambuzando-nos e enchendo-nos alarvemente até rebentar.
 
Morreremos de novo, talvez, aquela morte que dói mais do que todas as mortes juntas, que é a morte do esquecimento, a do abandono. Renasceremos seguramente conscientes  de que ultrapassámos os limites da nossa audacidade e que o preço que temos de pagar é o do descrédito, duro, pesado, solitário. Aí procuramos os amigos, aqueles que nos fizeram felizes na nossa loucura e constatamos que um a um foram saindo de mansinho, porque nos tornámos uma ambiguidade titubeante com a ideia megalómana duma coexistência pacífica entre as dualidades da existência.
Ninguém abraça voluntariamente a loucura a não ser em bando, num culto de demência irreal, de devassidão colectiva que envolve os fracos e reprimidos naquele abraço de prazer tão difícil de abandonar.
 
Quando o engenho roda vertiginosamente, ferido de muitos golpes e nos tentamos apoiar nas paredes da fortaleza que construímos e acreditamos inviolável, verificamos que desaba agora em nosso redor e ocorre-nos constatar que morremos outra vez.
 
(Imagens Shutterstock/Google)

2 comentários

Comentar post