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Delito de Opinião

Dona Laurinda: uma história de Lisboa

Pedro Correia, 16.12.23

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O bom jornalismo é assim: sabe contar uma história, consegue captar com sabedoria a atenção de quem lê, rejeita o sensacionalismo e a gritaria tipográfica.

Interessa-se pelas pessoas, mantém um olhar atento ao espaço circundante, ocupa-se mais da realidade concreta do que da verdade abstracta, tantas vezes ilusória.

Trata com amabilidade o cidadão comum a quem dá voz.

Trata com discreta cumplicidade o leitor que lhe concede uns minutos de atenção: é a melhor forma de estabelecer contacto.

Com amor à língua portuguesa, nosso traço de união.

 

Isto aprende-se em escolas. Mas aprende-se sobretudo na vida.

Jornalismo desligado da vida é jornalismo condenado ao fracasso. Ao contrário desta reportagem que li hoje, publicada no jornal digital lisboeta Mensagem. Intitula-se «Drogaria Laurinda: o adeus a uma das comerciantes mais antigas da Baixa».

Título apelativo, que não ilude: é chamariz para um relato digno de ser passado a escrito. Com vagar, pausadamente, saboreando a arte de narrar.

 

Parabéns ao jornal, parabéns à autora da reportagem, Eunice Lemos - que não conheço.

Apresentou-me a Dona Laurinda, testemunho vivo de uma Lisboa que já é passado mas ainda é presente, de uma Lisboa com identidade própria que vai resistindo em cada bairro. Também com pessoas transplantadas de outras paragens, como sucede com esta senhora de 88 anos, proprietária de uma velha drogaria prestes a trocar enfim o balcão da loja pelo recato doméstico. Mas sem esconder uma apreensão que nos enche de ternura: «Se fico em casa começo a andar como as outras da minha idade, tudo assim com a bengalinha na mão. Passam a vida sentadas a ver a televisão, ficam marrecas porque a coluna está fraca. Tenho tanto medo de ficar assim.»

 

Jornalismo com gente dentro: motivo para celebrar. É o que faço aqui.

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