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Dois reis medievais e “suas” cidades

por Cristina Torrão, em 07.01.20

Este postal não se insere na série das efemérides à volta da formação de Portugal, mas não quis deixar de assinalar o aniversário da morte de D. Dinis, pois ele e D. Afonso Henriques são os dois reis mais significativos da nossa Idade Média. Além disso, aproveito para falar da sua ligação às cidades com que os identificamos.

D. Dinis morreu a 7 de Janeiro de 1325, com sessenta e três anos, depois de um reinado longo e sobejamente preenchido. Apesar de ter sido coroado com apenas dezassete primaveras, D. Dinis estava, desde o início, perfeitamente vocacionado para a sua tarefa. Pode-se dizer que foi um monarca feliz, se exceptuarmos a recta final do reinado, marcada pela guerra civil contra o seu próprio herdeiro, conflito que tanto o amargurou e desgastou, que bem pode ter acelerado a sua morte.

De todas as medidas que tomou ao longo dos 46 anos de reinado, a fundação da Universidade é a que mais se recorda, levando-nos a acreditar que o Rei Poeta preferia a cidade de Coimbra, onde terá vivido a maior parte do seu tempo, escrevendo poemas nas margens românticas do Mondego. Esta imagem, porém, não passa de uma fantasia. Apesar de gostar de Coimbra (como gostava, ou amava, todo o seu reino), D. Dinis identificava-se, acima de tudo, com Lisboa, a sua cidade-natal e, de longe, a preferida. E foi precisamente na nova capital do reino (desde o tempo de seu pai, D. Afonso III) que a Universidade (inicialmente apelidada de Estudo Geral das Ciências) foi fundada.

A 12 de Novembro de 1288 redigiu-se, em Montemor-o-Novo, a carta ao papa Nicolau IV, pedindo autorização para a criação do Estudo Geral das Ciências em Lisboa. Em resposta, o papa emitiu, a 9 de Agosto de 1290, a bula De Statu Regno Portugaliae, confirmando o ensino de Cânones, Leis, Medicina e Artes e autorizando a concessão de grau de licenciado pelo bispo ou vigário da Sé lisbonense.

Dinis Biografia.jpg

Cerca de dezassete anos mais tarde, porém, é feito o pedido de transferência do Estudo Geral para Coimbra. Das razões, pouco se sabe. Na sua biografia de D. Dinis, o Professor José Augusto Pizarro refere conflitos com a Casa da Moeda em relação ao terreno que D. Dinis doara para a construção do edifício do Estudo Geral, no Campo da Pedreira à Lapa, perto do Mosteiro de São Vicente de Fora. Também haveria conflitos entre os estudantes e a população de Lisboa, embora, como referi, os motivos, tanto para uns, como para outros, não sejam hoje claros. A transferência foi autorizada por Clemente V a 26 de Fevereiro de 1308 e, a 15 de Fevereiro de 1309, pela Charta magna privilegiorum, D. Dinis estipulou os estatutos do Estudo Geral de Coimbra.

O assunto, no entanto, não ficou por aqui. A Universidade mudaria várias vezes de local, sempre entre Lisboa e Coimbra, e só ficou definitivamente instalada junto ao Mondego em 1537, mais de duzentos anos depois da morte do Rei Poeta.

UC Ana Zayara.jpg

Fotografia: © UC | Ana Zayara

Para a identificação de D. Dinis com Coimbra contribuíram, não só a fundação da Universidade e a estátua inaugurada, nos anos 1950 como o facto de D. Isabel ter vivido recolhida, depois de enviuvar, no mosteiro de Santa Clara, junto ao Mondego, por ela própria mandado construir, e ter lá ficado sepultada. Ao contrário de D. Dinis, que preferiu ficar junto a Lisboa, no mosteiro de Odivelas, também por ele fundado.

Imagem do Túmulo.jpg

Túmulo de D. Dinis em Odivelas. Foto ©José Custódio Vieira da Silva

Na verdade, quem devia ser identificado com Coimbra era D. Afonso Henriques! Não ponho em causa a importância de Guimarães no início da nossa nacionalidade. Apesar de haver reservas quanto ao facto de o primeiro rei lá ter nascido, foi lá que ele assentou arraiais, ainda infante, ao afastar-se de sua mãe e de Fernando Peres de Trava. Como sabemos, o conflito viria a desembocar na Batalha de São Mamede, junto ao castelo de Guimarães, na sequência da qual D. Afonso Henriques atingiu o poder sobre o condado Portucalense. Lembremos, porém, que, à altura deste prélio, o nosso primeiro rei tinha apenas cerca de vinte anos. Viria a morrer com cerca de setenta e cinco - são mais de cinquenta anos de diferença… vividos em Coimbra.

Foi de facto na cidade junto ao Mondego que D. Afonso Henriques estabeleceu a sua corte, fundando o mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, no início dos anos 1130, data a partir da qual poucas vezes terá estado em Guimarães, até à sua morte, em 1185.

AfonsoI - Óleo.JPG

Afonso I - Óleo de Carlos Alberto Santos

 

Nota: O estado degradado em que se encontra a sepultura de D. Dinis, levou um grupo de cidadãos, há alguns anos, a criar uma página no Facebook, vamos salvar o túmulo do rei D. Dinis, a fim de alertar para a necessidade da sua recuperação. Graças a esta iniciativa, já se efectuaram alguns melhoramentos.


22 comentários

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De Anónimo a 07.01.2020 às 14:26

as margens românticas do Mondego

Eu não sei como era o Mondego no tempo de D. Dinis, mas dificilmente seria algo de romântico.

O Mondego é basicamente um uadi, ou seja, um córrego que está seco ou quase seco durante boa parte do ano, mas sofre cheias enormes quando chove no inverno. Em nenhuma das épocas é romântico.

Atualmente, com o açude-ponte de Coimbra e a instalação de uma praia fluvial na margem sul, o Mondego em frente a Coimbra está de facto bastante romântico. Mas isso é totalmente artificial.
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De Anónimo a 08.01.2020 às 01:48

uadi, de wadi = rio em árabe, deu para ode que é rio com muita ao pouca água em relação à época do ano. Principalmente no sul aparecem muitos ode: Ode_mira, Ode_ceixe, Odi_áxere, Odi_velas, até o Guadiana durante muitos séculos foi Odi_ana que foi alterado por ana querer, também, dizer rio.
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De Anónimo a 08.01.2020 às 09:50

"uadi" em árabe deu "ode" ou "odi" em português, mas "guadi" em espanhol. Daí os nomes Guadiana e Guadalquivir.
De notar que em Huelva passa o Odiel, que tem nome português apesar de já estar em Espanha.
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De Anónimo a 07.01.2020 às 14:35

Apesar de gostar de Coimbra, D. Dinis identificava-se, acima de tudo, com Lisboa, a sua cidade-natal

Há que ver que, do ponto de vista antigo, Lisboa era uma cidade ímpar em Portugal, por três razões: por ter o único porto verdadeiramente bom da costa atlântica; por ter à sua volta (na zona saloia) as terras mais férteis do país; e por ter um rio navegável por dezenas de quilómetros que dava acesso a outras terras (as do Ribatejo) também de excelente qualidade. Tudo qualidades ímpares, das quais nenhuma outra cidade do reino poderia, sequer vagamente, aproximar-se.
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De Cristina Torrão a 07.01.2020 às 18:45

E, no entanto, Coimbra manteve-se a capital do reino ainda durante cerca de 100 anos, depois da conquista de Lisboa.

«as terras mais férteis do país» - não será um pouco exagerado?

E também, pelo menos, o rio Douro era navegável por dezenas de quilómetros, ligando a cidade do Porto a terras igualmente férteis e onde se efectuava muito comércio (Terras de Paiva e de Baião e a zona de Castro Daire, onde, aliás, D. Egas Moniz tinha os seus domínios, assim como muita da alta nobreza ligada à formação da nacionalidade).
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De Pedro Oliveira a 07.01.2020 às 20:45

É uma questão discutível, claro.
A lezíria do Tejo, do Sorraia, a zona saloia, as hortas, enfim, à primeira vista os campos à volta de Lisboa parecem mais atractivos do ponto de vista agrícola que os socalcos do Douro.
Parabéns pelo "post" e pela análise comparativa entre D. Diniz e D. Afonso Henriques.
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De Cristina Torrão a 08.01.2020 às 11:58

De facto, Pedro Oliveira, os terrenos acidentados do Douro são bem mais difíceis de cultivar. Quanto ao nível de fertilidade, não sei ajuizar. Sei que o Minho é/era também muito fértil, principalmente nos vales.

Obrigada pelo elogio.
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De Anónimo a 08.01.2020 às 09:54

Não é exagerado. Portugal tem terras geralmente pobres e, ademais, de difícil cultivo devido a Portugal ser um país extremamente declivoso. Portugal tem poucas zonas de boas terras, geralmente localizadas (veiga de Chaves, vale da Vilariça, campina de Faro, barros de Beja); mas as melhores terras de Portugal são indubitavelmente as da zona de Lisboa (que infelizmente se encontram atualmente em grande medida cobertas de betão) e as do Ribatejo.
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De Cristina Torrão a 08.01.2020 às 12:17

Sim, principalmente as terras do Norte interior são de muito difícil cultivo. Não só pelo facto de ser montanhoso, mas também pelas grandes amplitudes térmicas. Mesmo assim, há produtos que se dão muito bem em Trás-os-Montes, como a vinha, ou o azeite (que aliás parece ter lá surgido mais tarde, por influência do Sul, nomeadamente, da zona ribatejana).

Também em zonas costeiras há terras pobres, por serem muito arenosas. Foi a falta de fertilidade de muitas terras portuguesas que levou D. Dinis a mandar secar pântanos, como na zona de Leiria.

De qualquer maneira, parece-me arriscado falar nas "melhores terras de Portugal", pois também o Minho, apesar de acidentado, foi sempre muito fértil, além de que muitas zonas fora de Lisboa e do Ribatejo são conhecidas pela qualidade de alguns produtos.

Não há dúvida de que Lisboa se situa numa zona privilegiada, mas o seu desenvolvimento começou precisamente com D. Dinis (influenciado por seu pai). O Rei Lavrador fez muito pela sua cidade-natal, criou imensas ruas e bairros, desenvolveu o comércio de maneira nunca até aí vista e aumentou as muralhas que, ao início do seu reinado, ainda eram as antigas muralhas mouras, apesar de a cidade já ter crescido muito para além delas. À morte de D. Dinis, Lisboa era uma cidade completamente diferente daquela que ele encontrou no início do seu reinado.
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De Anónimo a 07.01.2020 às 15:57

Se a sepultura de D. Dinis se encontra algo degradada, já em compensação a sepultura da sua mulher D. Isabel encontra-se (em Santa Clara-a-Nova, Coimbra) em reluzente estado. É muito impressionante e digna de uma visita.
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De Pedro Correia a 07.01.2020 às 20:52

Excelente texto, Cristina. Gostei muito de ler.
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De Cristina Torrão a 08.01.2020 às 12:18

Muito obrigada, Pedro.
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De Bea a 07.01.2020 às 21:40

Um rei de que todos os garotos do meu tempo gostavam, D. Dinis e ainda é o meu preferido. O texto esclarece algumas coisas e ensina outras. A Cristina é uma boa mestra.
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De Cristina Torrão a 08.01.2020 às 12:19

Muito obrigada, Bea.
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De Anónimo a 08.01.2020 às 23:21

Sempre me fez uma certa confusão a história do milagre das rosas.
Vejamos. D. Diniz foi primeiro rei culto e até legislou para o povo. Por que razão
ele haveria de ficar chateado com a rainha Isabel para ela esconder/mentir ir distribuir pães aos pobres, ao ponto de , então, surgir o tal milagre? Parece que avó dela na Hungria já tinha feito a mesma coisa.
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De Cristina Torrão a 09.01.2020 às 12:38

Sim, o mesmo milagre é atribuído a Santa Isabel da Hungria, ou da Turíngia (os alemães apelidam-na naturalmente de "Elisabeth von Thüringen", pois, apesar de ela ter nascido na Hungria, casou e viveu na Turíngia, zona actualmente pertencente à Alemanha).
Parece que era tia-avó da "nossa" Santa Isabel (diz a wikipedia; sei que eram aparentadas, mas não qual o grau de parentesco).

https://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Isabel_da_Hungria
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De Cristina Torrão a 09.01.2020 às 12:40

P.S. Também é verdade que D. Dinis se interessava pela pobreza e tomou medidas no sentido de a diminuir.
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De Anónimo a 09.01.2020 às 17:26

'tá bem.
Então qual a razão da lenda/milagre transformando o pão em 'são rosas Senhor'.?
Julgo que estar relacionado com o culto do Espirito Santo não muito ao agrado do Rei.
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De Cristina Torrão a 09.01.2020 às 19:26

Pode ser, mas não sei se esse culto não seria do agrado do rei.

Também pode ser apenas por identificação com a sua tia-avó, por ambas serem piedosas.

Penso que ninguém saberá responder ao certo.
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De Anónimo a 09.01.2020 às 09:52

Excelente texto e, excelentes comentários. (da discussão nasce a luz)
Já agora, aproveito para "meter a colherada" na questão das reais preferências das cidades eleitas, tentando analisa-las, enquadradas no tempo.
Tanto o Douro, como o Mondego, o Tejo, o Sado, (pasme-se) o Mira e o Guadiana eram navegáveis. Todos eles, mais a jusante, ou a mais a montante, possuíam margens férteis ( propósito refiro que o Alentejo já foi (antes de o ministro da agricultura de Salazar o ter votado à monocultura cerealífera, a zona do (talvez) mais fértil.
Contudo, temos de perceber que outros factores de maior peso, decidem a localização das capitais, tanto administrativas como culturais ou outras. Na época dos nossos primeiros reis, Lisboa e Porto eram as duas capitais (rivais) do comércio mercantil. As hortas e os campos férteis, pesavam na questão do abastecimento mas duvido que determinassem a preferência para assentar uma universidade. Já a afluência de estrangeiros, de mercadores, de navegadores, a chegada e a iteração cultural fosse determinante. A questão da desestabilização e dos conflitos entre estudantes e população, sobretudo da nobreza, parece-me motivo de peso para a mudança da Universidade de Lisboa para Coimbra e vice-versa. (aliás, problema que se manteve no decorrer dos séculos).
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De Cristina Torrão a 09.01.2020 às 12:52

Muito obrigada pelo seu comentário.

De facto, numa época em que não existiam estradas nem caminhos em condições (e os que existiam tinham sido deixados pelos romanos), nem meios de transporte que não fossem os de tracção animal, tanto a via fluvial, como a marítima, eram de extrema importância. A maneira mais rápida de viajar era a de barco.

Sim, os conflitos entre estudantes e população eram frequentes, também talvez derivado do facto de os estudantes usufruírem de legislação própria (como a da "Charta magna privilegiorum"). A Universidade, naquele tempo, era uma instituição do tipo da Igreja (aliás, os professores eram clérigos, assim como o grau de licenciado era conferido pelo bispo) e, como os elementos do clero, os estudantes não eram abrangidos pelos tribunais civis.
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De Anónimo a 09.01.2020 às 13:53

Pois não Cristina. Os únicos tribunais que os condenavam eram a espada ou punhal dos irmão ou dos mandatados pelos pais e maridos das moçoilas que eles catrapiscavam.
Tramou-se neste "costume" o nosso vate Luís Vaz de Camões, que andou a bater com os ossos em diferentes desterros por conta daqueles amores profanos.
;) ;) ;)
Agora não me vou esquecer de assinar:
Bartolomeu!!!

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