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Dois anos sem o Vasco

por Isabel Mouzinho, em 27.04.16

O Acordo é uma barbaridade, feita inconsiderada e precipitadamente, mantida por obstinação e teimosia, e conducente a um resultado exactamente oposto ao pretendido.

 

(Entrevista ao Expresso. 26.05.2012)

 

Foi neste dia, há dois anos, que o "Príncipe das Letras", como tão justamente lhe chamaram, nos deixou. É sempre cedo demais para ver partir aqueles de quem gostamos, porque mesmo que nos fiquem as palavras e as lembranças, sobra a saudade e um grande buraco vazio que não pode preencher-se.

Hoje, fará muita falta à sua família e amigos mais chegados, naturalmente, mas também ao país e ao mundo; e, acima de tudo, faz falta à língua portuguesa, que tanto e tão bem defendeu, e cuja luta é agora quase só ausência e esquecimento, encolher de ombros, deixar andar.

Ah, a falta que o Vasco (nos) faz...

 

O suporte da música pode ser  a relação

entre um homem e uma mulher, a pauta

dos seus gestos tocando-se, ou dos seus

olhares encontrando-se, ou das suas


vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,

ou dos seus obscuros sinais de entendimento,

crescendo como trepadeiras entre eles.

O suporte da música pode ser uma apetência


dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se

ramifica entre os timbres, os perfumes,

mas é também um ritmo interior, uma parcela

do cosmos, e eles sabem-no, perpassando


por uns frágeis momentos, concentrando

num ponto minúsculo, intensamente luminoso,

que a música, desvendando-se, desdobra,

entre conhecimento e cúmplice harmonia.

 

                                                                 (Vasco Graça Moura)

 

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8 comentários

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De Pedro Correia a 27.04.2016 às 22:46

Bem lembrado, Isabel. Muito bem lembrado.
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De Costa a 28.04.2016 às 15:44

Receio que a questão seja também a de saber o povo quem foi esse Vasco. O povo nada tem em comum com o mundo desse Vasco e militantemente rejeita aquilo que para ele era querido. Mais, e como bem sabemos, reconhecidos e respeitados como "intelectuais", pelas massas, são aqueles que "o Partido" e agremiações satélites ou afins como tal celebram. Em vida e na morte e mesmo nada percebendo do que esses intelectuais diziam, escreviam, pintavam, filmavam ou o que fosse. Ou o que seja.

E não era o caso.

E o povo, mesmo o desafecto ao Partido e agremiações satélites ou afins, ainda vive sob duradouros complexos de esquerda. Para a esquerda, quem com ela não alinhe é neo-liberal , fascista ou mimoseio semelhante. E com isso e sem mais desconsiderado. Quem não é de - dessa - esquerda, ainda se cala perante isso, submete-se a esse bem estudado e trabalhado ascendente e, fundamentalmente, trata da sua vidinha.

Vidinha que em matéria de língua e ortografia passa por uma visão estritamente funcionalista, básica, desprovida da mais elementar profundidade, limitada ao nome que se assina onde se manda assinar, às notícias do futebol e das revistas de telenovela, astrologia ou mais latamente "cor de rosa", vidinha nos últimos quarenta anos laboriosamente formatada numa geral vergonha da nossa História. Vidinha que se resigna: "eles agora decidiram que é assim...", "é a lei" (mesmo não sendo)...

E como o "assim" até é servido com a capa da simplificação e das maravilhas da uma língua-comum (e veja-se um recente comentário, neste blogue e a propósito de certa ditadura africana, de um leitor fervoroso "acordita"), verdadeira panaceia e crucial milagre, nem uma questão se levanta. O que é que isso interessa, essa coisa das consoantes mudas, desde que se perceba o que se quer dizer? E mesmo não percebendo.

Este povo e esta intelectualidade dominante (que mesmo rejeitando o acordo, nos seus escritos, obedece no resto larga e silenciosamente aos directórios partidários; todos, no caso, ao longo do espectro) são o perfeito caldo de cultura para o robustecimento do AO90 . É pena, mas é assim.

Costa
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De Isabel Mouzinho a 29.04.2016 às 13:44

Cabe-nos resistir. A cada um de nós. Por mim, faço o que posso...
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De ortógrafo a 28.04.2016 às 22:02

Vasco Graça Moura era seguramente um príncipe das letras.
Infelizmente, dava erros ortográficos e persistia neles.

Ortógrafo
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De Isabel Mouzinho a 29.04.2016 às 13:42

Ah sim? Não me diga...
"Atirar ao ar", assim, afirmações dessas, sem mais, não tem qualquer valor.
VGM tinha muito a ensinar-lhe/nos, estou certa, em matéria de ortografia, como em muitas outras, de que era profunda conhecedor.
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De Pedro Correia a 29.04.2016 às 14:50

Há sempre por aí um anónimo cheio de coragem, pronto a bater de forma desassombrada em quem já morreu.

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