Do princípio ao fim (27)
Não faltam epílogos memoráveis na literatura portuguesa. Mas talvez nenhum tão marcante – desde logo pelo seu simbolismo – como o desfecho desse enorme romance que é Os Maias. Um vasto fresco sobre as classes dominantes no Portugal do rotativismo monárquico, caricaturadas pela pena de alguém que bem as conhecia: Eça de Queirós (1845-1900).
Desmedido e torrencial, o livro apresenta-nos uma inesquecível galeria de personagens, figuras-tipo da alta-roda lisboeta da época, num tempo em que o País cabia todo “entre a Arcada [Terreiro do Paço] e São Bento” – uma das incontáveis frases corrosivas desta obra magistral que continua a seduzir leitores, fascinados com o paralelo que pode estabelecer-se entre a segunda metade do século XIX e as décadas iniciais do século XXI.
Encontramos aqui expressões que podiam ter sido pronunciadas em qualquer serão deste mês em que vivemos. “A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela, que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o País”, observa o banqueiro Jacob Cohen, como quem faz uma elementar operação aritmérica.
Eça atribui o endémico fracasso português à mediocridade das supostas elites nacionais, vergastadas sem remissão nas páginas deste romance, surgido em 1888. É a visão desencantada de um estrangeirado, que se encontrava havia década e meia longe da pátria, em sucessivas missões diplomáticas que o conduziram às Antilhas Espanholas, ao Reino Unido e finalmente a França, onde permaneceria até à morte.
É uma sátira da qual ninguém escapa ileso. Nem políticos, nem financeiros, nem aristocratas, nem jornalistas, nem escritores – um desfile de gente venal e falhada, incapaz de libertar o País de males atávicos. Por incompetência, por dolo, por desinteresse, por manifesta impreparação. A literatura era “latrinária". O jornalismo revelava-se como "escória da sociedade". Os ministros tinham como único fito “cobrar o imposto”. Lisboa – no vértice do poder – surgia aos olhos de qualquer observador lúcido como “uma canalha de terra”. Portugal agonizava, povoado de uma “colecção grotesca de bestas”.
O imaginário queiroseano, com as suas críticas demolidoras, foi transitando de geração em geração, influenciando sucessivas camadas de pensadores que – sem o talento literário do autor d’ O Crime do Padre Amaro nem a sua verve satírica – se limitaram a reproduzir a caricatura, assumindo-a como facto unidimensional. Não passa um dia sem que vejamos estampada nos jornais a versão contemporânea de que o País é “uma choldra ignóbil”, tomando pelo valor facial a expressão de João da Ega, personagem central do romance, em paralelo com Carlos da Maia, o seu melhor amigo.
Dois falhados, como seria inevitável: o primeiro matriculou-se em Direito sem seguir o curso e sonha com gloriosas obras-primas da literatura que jamais escreverá; o segundo revela-se incapaz de exercer medicina devido ao “veneno do diletantismo” que caracteriza a atmosfera reinante à época, corroendo qualquer hipótese de regeneração social. Daí Ega bradar nos saraus mundanos: “Portugal não necessita reformas, Portugal o que precisa é a invasão espanhola.”
Nesta óptica, todo o esforço estaria condenado ao insucesso. Os diálogos entre Ega e Carlos da Maia acabaram por funcionar até hoje como simbólica chave decifradora do “atraso estrutural português”, numa espécie de fatalidade genética, surgindo Eça – certamente à sua revelia – como avalista deste determinismo que parece perpetuar-se em lei granítica.
É certo que o escritor integrou o grupo dos Vencidos da Vida – designação também irónica de uma tribo intelectual que congregou Ramalho Ortigão, Antero de Quental e Oliveira Martins, entre outros. Mas ele próprio, com a excepcional obra literária que nos legou, acabou por ser a demonstração viva do oposto das teses que algumas das suas personagens pretendiam ilustrar.
E regresso ao princípio. Ou seja, ao fim. Declina a tarde, Carlos e Ega descem em passo indolente a rampa de Santos partilhando a apologia retórica do “fatalismo muçulmano” que nos aconselha a “nada desejar e nada recear”: assim se evitam “esperanças e desapontamentos”.
Carlos, o médico que não exerce, sentencia: “Não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma…”
Ega, o escritor das perenes folhas em branco, remata: “Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder…”
Enquanto assim falavam, via-se ao longe a lanterna vermelha do americano – transporte público que circulava em carris, movido por tracção animal.
«De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o “americano”, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.»
Magnífico parágrafo final. Que desmente a peregrina tese sobre a inutilidade de todos os esforços, propalada até à náusea por uma legião de epígonos menores de Eça, incapazes de ler nas entrelinhas. O criador d’ Os Maias, um dos nossos maiores escritores de todos os tempos, sabia muito bem como as palavras servem tantas vezes apenas para iludir intenções e camuflar desejos.
É um final em aberto, próprio da literatura moderna: nunca saberemos se Ega e Carlos apanharam o transporte. Mas sou capaz de apostar que sim.
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