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Do princípio ao fim (22)

por Isabel Mouzinho, em 14.10.16

Eu devia ter  mais ou menos dezassete anos e já não sei como aconteceu, nessa altura, ler l' Étranger pela primeira vez. Fi-lo sem saber bem que era Albert Camus, movida apenas pelo fascínio que a doce musicalidade da língua francesa exercia em mim  e, talvez, também, pela vontade de ler um livro de "gente crescida" nessa língua de que tanto gostava.

E o primeiro contacto com a obra, a estranheza que aquela leitura me causou, que era ao mesmo tempo incómodo e apego, foi para mim de uma importância determinante. Por isso nunca mais pude esquecer o seu início, tão forte quanto perturbador: Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas.  Nem Meursault,  taciturno e enigmático, "estrangeiro" face ao mundo e a si mesmo, absolutamente bizarro na sua aparente indiferença.

Depois, quis conhecer outros livros e outros autores, escolhi estudar Literatura, e só meia dúzia de anos mais tarde percebi a importância de Camus e como esta era uma das obras fundamentais do século XX, de cujo incipit me voltei a lembrar muitas vezes, nas mais diversas circunstâncias.

Hoje, muitos anos depois, acho que não exagero ao considerar que esta leitura contribuiu também para aprofundar a paixão das palavras, que trago comigo desde sempre. E para perceber como elas são indispensáveis e essenciais à nossa existência, na sua relação com o silêncio, na distância que as separa do que dizem e também em tudo o que não conseguem dizer. E descobrir, ainda melhor, como  a leitura e a escrita podem ser um inefável e imenso prazer, como nos fazem descer ao mais fundo de nós e nos proporcionam o alargamento de olhares sobre o mundo, em muitas visões que se cruzam, se entrelaçam, se confundem e coexistem. 

Para além deste, muitos outros começos me marcaram; e tive ainda, além disso, a sorte  - que foi também privilégio - de ter a melhor de todas as professoras - Maria Alzira Seixo -  com quem aprendi que "a literatura não resgata o mundo, mas ajuda a compreendê-lo e a suportá-lo" e pode ser determinante na forma como lemos, como escrevemos, como pensamos e como vivemos.

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6 comentários

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De Peregrino a Meca a 14.10.2016 às 07:48

Até que enfim!! estava à espera deste há já algum tempo. O começo do L'Étranger é poderosíssimo. É tão forte que em si poderia ser uma micro-história à la Hemingway..
Para quando o « Voyage au bout de la nuit », onde o inicio é mais fracote mas cujo fim é devastador « De loin, le remorqueur a sifflé ; son appel a passé le pont, encore une arche, une autre, l'écluse, un autre pont, loin, plus loin... Il appelait vers lui toutes les péniches du fleuve toutes, et la ville entière, et le ciel et la campagne, et nous, tout qu'il emmenait, la Seine aussi, tout, qu'on n'en parle plus. "”?
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De Isabel Mouzinho a 14.10.2016 às 12:55

Há, felizmente, em toda a literatura e também na francesa inúmeros exemplos de inícios e de finais muitíssimo marcantes, que nos fascinam ou desassossegam.
Este é apenas um deles.
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De JMV a 14.10.2016 às 15:26

Pois da minha parte mais que o início - chocante sim - o soco na alma vem no fim, na iminência da execução, na conversa desabrida com o padre confessor, a nulificação de qualquer perdão recompositor da ordem social abalada... Diria, vejo-o agora, que o espírito de rebeldia total, de punk, de libertação ante tudo e todos, da coragem cega a qualquer desafio ou verdadezinha conveniente, está já ali...! Morrison, Cobain, Rotten, Winehouse seriam também isto mais tarde ...
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De Isabel Mouzinho a 14.10.2016 às 23:42

Não iria tão longe, mas concordo que toda a obra é perturbadora.
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De Pedro Correia a 15.10.2016 às 00:06

Um dos livros da minha vida, Isabel. Regresso sempre a ele com gosto redobrado. Parece-me sempre igual, mas sempre diferente. Este é o condão das obras-primas.
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De Isabel Mouzinho a 15.10.2016 às 01:45

Também é. sem dúvida, um dos livros da minha vida e atrever-me-ia até a dizer que, juntamente com "Aparição" e "Cem anos de solidão", que li pouco depois, determinou o meu caminho e fez-me optar pela Literatura. Sem me arrepender da escolha.

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