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Do princípio ao fim (1)

por Pedro Correia, em 23.09.16

No futebol existe uma frase feita, daquelas em que o desporto-rei é fértil: isto não é como começa, mas como acaba.

Na literatura, pelo contrário, o melhor raras vezes fica guardado para o fim. Começar um romance ou um conto com as palavras certas, que exprimam de forma adequada a ideia que o autor tem em vista, é o único caminho possível. Porque não existe uma segunda oportunidade para ter uma primeira impressão.

É um desafio que se coloca a qualquer forma de expressão literária. Ernest Hemingway, mestre da ficção curta, legou-nos o mais belo e pungente microconto que conheço. Tem apenas seis palavras: “For sale: baby shoes never worn.” Que podemos traduzir assim (permitam-me o atrevimento): “Para venda: sapatos de bebé. Por estrear.”

9789725686690[1].jpg

 

Ao longo dos anos, senti-me fascinado por diversos parágrafos de abertura de textos literários famosos. Vários desses parágrafos virão aqui, estou certo disso, seleccionados por colegas de blogue numa série colectiva que hoje começa no DELITO DE OPINIÃO. E que pretende contribuir para despertar ou sedimentar a paixão dos nossos leitores pela arte literária.

A série intitula-se Do princípio ao fim porque não destaca apenas começos de novelas ou romances: destina-se a realçar também as frases finais que elegermos entre as mais inesquecíveis.

Também irei por aí. Mas hoje fico-me por um dos mais arrebatadores inícios que guardo na memória de infatigável leitor. Simples e complexo, literal e metafórico, sugestivo como poucos. Ao ponto de nunca mais o ter esquecido.

São as palavras que nos apresentam Gregor Samsa, inscrevendo-o desde logo na galeria de personagens da literatura universal. Redigidas há mais de cem anos por um taciturno judeu da Boémia que escrevia em alemão: "Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt."

franz-kafka-04[1].jpg

 

Assim entramos no universo de Franz Kafka – tão particular, tão universal, tão denso, tão límpido, tão tortuoso, tão sedutor. São as primeiras linhas da sua novela A Metamorfose (1915), erupção do irracional num mundo sujeito aos inexplicáveis caprichos do acaso, onde as sombras vão ganhando terreno no eterno combate contra a luz.

Recordo o fascínio que senti ao mergulhar pela primeira vez na prosa inconfundível do malogrado escritor de Praga, tão cedo vitimado pela tuberculose num mundo que mal despontava dos horrores da guerra. E jamais esqueci aquelas palavras que me iniciaram no imaginário kafkiano. Não por acaso, Kafka é um dos raros escritores que viu o nome convertido em adjectivo.

 

Reencontro A Metamorfose, em edição recente, e de novo a magia desta prosa me devolve à emoção antiga.

"Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso." (Recorro à tradução de João Barrento na versão portuguesa da editora Ulisseia, com data de 2011).

É preciso começar bem. Porque o todo está contido na parte. E porque existe uma diferença substancial entre a literatura que mal nos arranha a superfície e a que pode mudar-nos para sempre.

Eis-me a largar tudo para seguir o rasto do homem-insecto nos dédalos da eternidade fixada na palavra impressa. Como se fosse a primeira vez, como se fosse a única, como se fosse a última.

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66 comentários

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De Carlos Faria a 23.09.2016 às 12:12

Uma magnífica iniciativa, seguirei atentamente.
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De Pedro Correia a 23.09.2016 às 15:13

Vamos ver no que dá, Carlos. Acho que dá pano para mangas.
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De Gilberto a 23.09.2016 às 12:25

In fact, it seems that versions of the six-word story appeared long before Hemingway even began to write, at least as early as 1906, when he was only 7, in a newspaper classified section called “Terse Tales of the Town,” which published an item that read, “For sale, baby carriage, never been used. Apply at this office.”

Link:
http://www.openculture.com/2015/03/the-urban-legend-of-ernest-hemingways-six-word-story.html
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De Pedro Correia a 23.09.2016 às 15:14

Vale o que vale. "Parece que" é uma expressão que as redes adoram.
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De plinio a 23.09.2016 às 13:50

"No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5:30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo."
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De Pedro Correia a 23.09.2016 às 15:54

Outro começo inesquecível. García Márquez tem um estilo único.
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De ptc63 a 24.09.2016 às 20:13

Quando li este post do Pedro lembrei-me imediatamente do inicio de Crónica de uma morte anunciada, para mim uma obra prima, de longe melhor do que o hiper-valorizado Cem anos de solidão.
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De Pedro Correia a 24.09.2016 às 21:32

Provavelmente passará por esta série. Sou capaz de apostar nisso.
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De Justiniano a 23.09.2016 às 14:56

Num lugar da Mancha, cujo nome não quero lembrar....
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De Pedro Correia a 23.09.2016 às 15:15

No 400.º aniversário da morte de Cervantes todos os pretextos são bons para lembrar o Quixote, obra-prima da literatura.
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De Justiniano a 23.09.2016 às 14:58

Há em Lisboa um pequeno conjunto de restaurantes ou casas de pasto em que, sobre uma loja com feitio de taberna....
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De Pedro Correia a 23.09.2016 às 16:23

O inconfundível e desassossegado Pessoa.
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De justiniano a 24.09.2016 às 09:56

Estou a ver se me recordo de mais inícios marcantes, caro Pedro Correia.
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De Pedro Correia a 24.09.2016 às 10:09

Faça favor, Justiniano. Nós agradecemos.
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De Anónimo a 23.09.2016 às 15:54

Estou agora a ler um livro que começa assim:
«E para aqui estou eu, de pernas para o ar dentro de uma mulher. Com os braços pacientemente cruzados, à espera, à espera e a perguntar-me dentro de quem estou, para que estou aqui.»
Quase tão estranho como o início da Metamorfose...
Só espero gostar tanto deste livro do Ian McEwan como gostei do do Kafka.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 23.09.2016 às 16:26

Esse julgo que não conheço, Antonieta. Ou pelo menos não me lembro.
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De Anónimo a 23.09.2016 às 16:45

Este é o último dele 'Nutshell', ou 'Numa casca de noz' na tradução de Ana Falcão Bastos para a Gradiva, acabadinho de sair (comprei-o no dia 19)
em Inglaterra, USA e Portugal - O McEwan é assim, gosta de Portugal e eu gosto dele.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 23.09.2016 às 19:44

Muito bem, gostei de saber. Em breve, provavelmente, passará aqui na minha rubrica de sugestões diárias.
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De José António Abreu a 23.09.2016 às 20:15

Acho que fazes bem, Pedro. O livro é bom e, afinal, a Gradiva mantém o português pré-AO e não publica só o José António Saraiva... :)
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De Pedro Correia a 24.09.2016 às 10:12

A Gradiva tem sido uma das editoras que mais venho recomendando aqui. Lamento que tenha passado do luxo ao lixo.
(Espero que regresse ao trilho anterior embora não se livre dos custos reputacionais.)
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De José António Abreu a 23.09.2016 às 17:57

Eu também estou a ler esse, Antonieta. Uma evocação de Hamlet bastante curiosa, diga-se. E menos 'proustiana' do que algumas das últimas obras do autor. Aliás, não é impossível que, nesta série de textos... hmmmm... Bom, fiquemos por aqui. Logo se verá...
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De Anónimo a 23.09.2016 às 18:29

Bom, vou ficar à espera.
E que não tarde...
:-) Antonieta
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De Anónimo a 23.09.2016 às 16:06

Promessa cumprida, Pedro, (lembra-se?) e logo com uma abertura de luxo. Foi o meu primeiro Kafka e continua a ser o meu preferido. Para fugir às Kareninas, Lolitas, Quixotes e baleias, etc. optei por um livro acabadinho de sair.
Deve ser a quinta vez que tento comentar, por isso optei por escrever menos.
E a série vai ser diária?
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 23.09.2016 às 16:25

É verdade, Antonieta. Andava há muito tempo com a ideia desta série. Avançou agora, com aquele que também foi o meu primeiro Kafka.
A série terá a periodicidade e a duração que os meus colegas de blogue quiserem.
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De Ana a 24.09.2016 às 09:48

Excelente ideia, Pedro.
"The past is a foreign country: they do things differently there."
The go-between, de L.P. Hartley
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De Pedro Correia a 24.09.2016 às 10:13

É um excelente início de um romance que nunca li, Ana. Vi o filme há muitos anos, com o Alan Bates, se não me falha a memória. E retive essa bela frase, que é quase um poema.
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De João a 24.09.2016 às 12:51

"Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed." —James Joyce, Ulysses
A frase final também vale a pena:
"Phew - what a day!''
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De Pedro Correia a 24.09.2016 às 13:52

Por esses terrenos não enveredo pois nunca li 'Ulisses'. Está na lista - a ler um dia.
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De Maria Dulce Fernandes a 24.09.2016 às 12:56

All children, except one, grow up.

As minhas fantasias infantis voaram alto.
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De Pedro Correia a 24.09.2016 às 13:55

O célebre início de Peter Pan. Inesquecível.
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De Maria Dulce Fernandes a 24.09.2016 às 18:16

Falha indesculpável a minha, que não publiquei o comentário ao texto ( não percebi porquê, até porque estava escrito antes da minha frase de abertura de Barrie) .
Como início de uma série, colocou a fasquia muito alta Pedro, o que é absolutamente fantástico.
Foi o meu primeiro Kafka e provocou-me ( Kafka ainda provoca) sucessivos abalos telúricos nas minhas placas psicossomáticas.
Cronologicamente foi o meu terceiro do princípio ao fim. O primeiro já referi. O segundo, o começo de A Tales of Two Cities.
Vai ser uma série de truz, sem sombra de dúvida.
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De Pedro Correia a 24.09.2016 às 21:36

Também gosto imenso desse parágrafo inicial do belo romance de Dickens, Dulce. Já escrevi aliás sobre ele aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1533368.html

É bom que a fasquia fique alta.
Agora ando a pensar num bom desfecho. Para que a fasquia se mantenha elevada até ao fim.

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