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Do Pico

por Francisca Prieto, em 21.07.17

Há uns quantos dias que fazes tenções de te sentar a escrever sobre as gentes do Pico. Mas não tens conseguido baixar o volume do que se passa à tua volta de forma a estruturar o que trouxeste debaixo da pele.

Quando começaste as tuas primeiras viagens, preferiste lugares longínquos, sempre na ideia de que os Açores era um destino para visitar na meia idade.

Hoje, ainda que muitos dias te sintas uma miúda, tens essa meia idade. Talvez tenha sido por isso que foste finalmente aos Açores. Mas o que não podias prever era que antes da meia idade e antes de teres calcorreado mundo, nunca irias conseguir perceber a Ilha do Pico. Nunca terias um aperto a disparar do coração para a garganta de tanto que tu, que não percebes nada de ilhas, que não tinhas qualquer interesse em ver baleias e que queres lá saber de rocha vulcânica, sentes que aquele recanto do mundo faz parte de ti.

Nunca poderias imaginar que o azul cerrado do Atlântico, que te entra pelos olhos a cada curva da estrada e que se mistura com os muretes negros que acondicionam a vinha, te levariam de volta à simplicidade da tua essência.

Ficas a saber histórias de baleeiros, desses homens que por valentia, galhardia e fome, se atiravam ao mar em botes para levar um punhado de dólares para casa. Ficas a saber que o terreno da ilha era tão árido e rochoso que não havia forma de cultivar os alimentos mais essenciais. Percebes, mais uma vez, a fome. Ficas a saber que se importou terra do Faial para distribuir pela base rochosa e plantar vinha. Que se fizeram pequenos rectângulos de rocha vulcânica em redor da vinha para proteger as uvas do vento e da humidade. Que hoje, esse engenho de sobrevivência, que tornou a paisagem estarrecedora, é património da UNESCO. Que o vinho é diferente de qualquer outro que tenhas experimentado porque te escorrega pela garganta e te deixa no palato um rasto a sal idêntico ao que levas no corpo depois de um dia a mergulhar

Descobres a estrada do meio da ilha, debruada a hortenses de todas as cores, que tens de partilhar com manadas de vacas que não conhecem sinais de trânsito.

A montanha é omnipresente e tens vontade de a subir, mas ainda não calhou embarcares nessa aventura.

Deitas-te à noite com a chinfrineira dos cagarros, sabendo que mesmo ali defronte moram baleias, golfinhos e tubarões.

E sabes, sem perceber exactamente porquê, que tudo aquilo passará irremediavelmente a fazer parte de ti.

 

Pico.jpg

 

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4 comentários

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De Sérgio de Almeida Correia a 21.07.2017 às 19:43

Muito bem, Francisca. Gostei de ler a minha alma no Pico. E já lá não vou há uns anos.
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De Francisca Prieto a 21.07.2017 às 19:45

Que bom que é, Sérgio.
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De Anónimo a 22.07.2017 às 00:23

Boa noite minha senhora.
"A montanha é omnipresente e tens vontade de a subir, mas ainda não calhou embarcares nessa aventura".
Gostei muito do seu texto.
Naturalmente, sou suspeito, pois conheço grande parte da ilha.
É, para mim, uma das mais fascinantes do arquipélago. Por razões de carreira estive lá várias vezes ao longo dos anos. Por razões que agora não interessam, acabei por não ter ainda feito a subida a pé, completa, até ao "piquinho". Que é um bom esticão, em princípio quatro horas, e que deve ser encetada sempre em companhia.
Prémio de consolação, tive o privilégio de quase me sentar no "piquinho", por mais de uma vez, nas várias boleias aéreas que me proporcionaram. Vi-o com e sem neve. Um espectáculo.
Vale a pena lá ir.
António Cabral
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De Pedro Correia a 22.07.2017 às 00:29

Se há local mágico em território português é precisamente esta ilha do Pico, que conheci em 2007 e que nunca desde então me saiu da memória.
Património nacional, património da humanidade. Todos os portugueses deviam conhecê-la.
É um daqueles locais onde chegamos com data certa e onde nos apetece permanecer até uma data incerta. Porque, assim que a conhecemos, ela passa a habitar-nos para sempre.

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