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Delito de Opinião

Do Minnesota a Portugal

jpt, 02.06.20

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(Ihor Homeniuk)

Sobre este assunto começo pela grande canção "American Skin" de Bruce Springsteen, que se não diz tudo tudo sente sobre este acontecimento americano. E que aqui fica também para que alguns irredutíveis não resmunguem que eu estou a apoucar o inapoucável:

Leio no FB emotivas partilhas do fait-divers de que uma jornalista da TVI se comoveu ao apresentar a notícia do assassinato de George Floyd, morto por um polícia após 8 minutos a sufocar, tendo sido incapaz de a concluir. A notícia vem com fotografia e percebo-lhe o fenotipo, presumo-a mestiça ("mulata" como se diz em Moçambique, sem preocupações etimológicas) ou será negra, não posso precisar nem essa destrinça me é relevante.  Vejo também aqui vários amigos reais, e imensas ligações-FB, até académicos, mesmo antropólogos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, a partilharem insurgências próprias e lamentos contra este horror acontecido em Minneapolis, no estado do Minnesota, EUA.

Eu tenho duas questões: 1) será que a jornalista da TVI se comoveu até à inacção quando apresentou a notícia do assassinato de um eslavo (lembrai-vos do nome dele? Ihor Homeniuk) cometido por um grupo de agentes do SEF no aeroporto da Portela, na cidade de Lisboa, distrito de Lisboa, Portugal? E, para pormenores aduzo que o tal eslavo - e, já agora, sabeis da ligação etimológica entre "eslavo" e "escravo", e do que isso deixa deduzir sobre as categorias antropológicas negativamente discriminatórias? principalmente diante de um candidato a imigrante ...-, Ihor Homeniuk, não foi asfixiado durante horrorosos oito minutos mas seviciado durante horrorosas não sei quantas horas. Será que a dita jornalista se comoveu tanto que interrompeu a locução do acontecido ali à Encarnação, antes de Sacavém? A menos de 5 euros de taxi da minha casa? E será que estes cândidos, mesmo académicos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis eslavófilos? Será que alguém se lembra que Ialta, o apogeu do "compromisso histórico" que obrigou a rasurar tanta da historia de XX, foi há 77 anos? Mas que o 20º congresso do PCUS foi há 64 anos e o fim da URSS há 29. E que com isso não é necessário manter o silêncio, a "dessignificação" da História. Lembrando, por exemplo, que a URSS, avatar da Rússia, e a nossa actual grande aliada Alemanha, mataram mais ucranianos, a deles alteridade, do que todos os mortos, directos e indirectos provocados pelos colonialismos europeus em África durante XX? E nem falo do passado, tão complexo naquela região, como em quase todas as outras. E aduzo, entre não-lágrimas alheias, que nenhum jogador da bola se ajoelhou em homenagem a Homeniuk, nenhum intelectual português usou ícones a propósito de Homeniuk, assassinado, repito, ali à Rotunda do Aeroporto, a 10 minutos do mercado de Alvalade, onde há um bom restaurante de peixe. E mais junto, isto da minha certeza de que um qualquer sueco, alemão ou britânico, também presumivelmente louro, não seria morto ali nos escritórios a cinco minutos da Praça Franciso Sá Carneiro, a sempre Areeiro. Se Homeniuk fosse um sírio, seria uma gritaria a propósito da morte de um "refugiado de guerra". Mas como era ucraniano, provavelmente louro, pouca foi a ira. Se fosse um magrebino, tentando passar a imigrante "indocumentado", seria uma desgraça, mas como era ucraniano, provavelmente louro, nenhuma corrente indignista brotou. Se viesse daquela "África Negra" de antanho seria uma onda de repúdio, mas vindo da eslavónia pouco conta entre os bem-pensantes nacionais. Apesar, não sei se já disse, de ter sido morto a meia dúzia de estações de metro do El Corte Ingles da pequena-burguesia lisboeta.

2) Há um mês dois polícias espancaram até à morte um homem na cidade da Beira, capital de Sofala, Moçambique, cidade celebrizada pela calamidade de 2019. "Os dois polícias interromperam um jogo de futebol de adolescentes em cumprimento das recomendações do estado de emergência devido à covid-19, e depois começaram a jogar, o que levou Abdul Razak, que se encontrava no local, a ameaçar filmá-los.". Não vi quaisquer imagens, só posso presumir os fenotipos dos dois polícias e do cidadão Abdul Razak (e presumo-o cidadão moçambicano pois se não o fosse muito provavelmente não teria criticado a polícia e teria sido identificado pela imprensa como estrangeiro). Mas a notícia informa que ele morreu não após oito minutos de horrorosa asfixia mas após 3 horas de horrorosas sevícias na esquadra da Munhava.

A minha questão é a mesma. Será que a jornalista da tvi se emocionou até à inacção ao ler a notícia da morte de Abdul Razak? E os indignados do FB, mesmo académicos até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis moçambicanófilos? (Sim, eu sei, a notícia nem correu no rincão ...).

Não se trata de discutir a dimensão de um crime, ou a realidade de um qualquer país. Trata-se da pertinência de importar essa realidade, e os seus critérios classificatórios, para entender o resto do mundo. Para direccionar a atenção sobre o resto do mundo. Para balizar e animar os sentimentos, tão bem intencionados, da pobre jornalista da tvi. E dos não tão bem intencionados funcionários públicos ou privados pagos para pensarem a realidade. Utilizando este falsário molde sentimentalão para perseguir objectivos próprios em casa própria.

4 comentários

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    Diogo Moreira 03.06.2020

    Só quero acrescentar que nós, humanos, reagimos diferentemente a situações de choque. Por exemplo, a comoção foi generalizada quando o corpo dum menino refugiado apareceu numa praia europeia, de face voltada para a areia, e um fotógrafo captou uma imagem poderosa - mas poucos ficaram sequer levemente tocados pelos muitos milhares que morreram em situação semelhante, crianças, adultos e velhos.

    Terá alguém que ponderar a sua indignação ou revolta, porque existem situações semelhantes e não lhes é dado o mesmo nível de sentimento? Seremos nós animais racionais, sempre de régua e esquadro na mão?

    Tal como a situação do 11 de Setembro e o ataque terrorista das torres gémeas. Deveríamos pesar a nossa consternação porque os Boko Harams desta vida cometem atrocidades iguais ou piores?

    O risco de nada dizer ou nada fazer é a banalização do mal. O risco de dizer ou fazer algo é ser apontado como inconstante. Ainda assim, prefiro de longe a segunda opção.
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    jpt 03.06.2020

    Respondendo a ambos: cada um comove-se ou ilumina-se com o que julga querer, mas as sensibilidades são construídas. Continuo na minha, que as pessoas andem em romaria por um crime cometido nos EUA quando não o andaram há dois meses por um crime que tem as mesmas características (os agentes podem não ligar "eslavo" a "escravo" mas desconsideram um ucraniano pobre como não desconsideram um noruguês ou um suíço, insisto nisso), acontecido no centro de Lisboa? A diferença está apenas em que estão treinadas para sobrevalorizarem o critério "cor negra da pele" para olhar a injustiça sob um olhar sentimental. O que não seria grave se não escondesse a realidade. E, já agora, se não servisse para alimentar movimentos reactivos que são (e virão a ser ainda mais) tétricos.
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    Anonimus 03.06.2020

    Neste caso em particular as imagens são determinantes.
    Não se viu o ucraniano a ser agredido, não se ouviram as suas palavras. No caso do Floyd, foi ao vivo e a cores, o que muda a percepção.
    A questão americana é muito moldada não pela violência policial, mas pela falta de consequências. Por um lado há um corporativismo enorme, em que os polícias se protegem uns aos outros (aqui, nós portugueses devíamos sentir empatia), e por outro não existe pressão suficiente no sistema judicial para punir este tipo de comportamentos.
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