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Delito de Opinião

Do IMI em Braga à batalha de Waterloo

Pedro Correia, 15.09.21

Alguém que acompanhe com atenção os debates políticos que vão preenchendo os serões de Setembro só pode sentir pena do ministro com a tutela da habitação. De Viana do Castelo a Beja, de Bragança a Faro, este é considerado o problema principal do país. O preço do metro quadrado dispara, o mercado de arrendamento é inexistente, o custo de qualquer banal apartamento afugenta os jovens dos centros das cidades, cada vez mais despovoadas.

A isto chama-se serviço público. Aqui distingue-se a RTP3, que tem promovido debates entre todos os candidatos às capitais distritais, sem deixar nenhum partido de fora. Enquanto outros canais exibem profunda indiferença em relação às eleições autárquicas, preferindo dedicar sessões contínuas àquilo a que chamam desporto, eufemismo para designar o futebol.

Graças a estes debates – os autárquicos, não os da bola – ficamos a conhecer melhor Portugal. O passe social para transportes públicos, por exemplo, é inexistente em Viseu. Braga pode orgulhar-se de ser a capital distrital que mais aumentou a sua população entre 2011 e 2021, contrariando a tendência nacional. Vila Real, Bragança e Viseu são as três sedes de distrito que continuam sem serviço de linha férrea. Acima de 15% dos actuais residentes em Faro têm nacionalidade estrangeira, o que talvez explique o facto de aqui existir, em termos médios, o segundo arrendamento para habitação mais caro do país.

Tudo isto é informação – e esclarece muito mais do que as incessantes discussões em estúdio sobre os reforços do Benfica.

Mas não ficamos só a conhecer aspectos habitualmente desconhecidos de Portugal: ficamos também a conhecer alguns protagonistas partidários à escala autárquica. Uma dirigente comunista em Braga, por exemplo, defende a redução da carga fiscal, propondo que o IMI baixe 5%. Um dos candidatos do PAN utiliza sem complexos expressões que ferem algumas sensibilidades animalistas, como «a raposa a guardar o galinheiro». O representante do Chega na Guarda propõe uma «greve de fome» junto da Assembleia da República para solucionar os problemas da cidade mais alta do país.

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A SIC Notícias também tem organizado debates, embora em número mais reduzido. O primeiro juntou alguns dos candidatos a Lisboa e foi rotulado de «decisivo», com manifesto exagero. Teve o mérito de sair do estúdio e o inconveniente de ficar sujeito aos caprichos do vento nocturno em espaço exterior, mas na difícil moderação deste bate-boca Clara de Sousa comportou-se com o profissionalismo de sempre. Não esboçou sequer um sorriso ao ouvir a candidata do PAN defender que o novo aeroporto de Lisboa deve situar-se em Beja para evitar «custos ambientais». Nem exibiu um esgar de surpresa quando o cabeça-de-lista da Iniciativa Liberal, demonstrando erudição, pronunciou a palavra «merda».

Juram-me que terá sido ele «o vencedor» pois o que dissera estava «a bombar nas redes sociais». Não deixa de ser irónico: a palavra surge historicamente associada a Pierre Cambronne, o último dos generais de Napoleão, feito prisioneiro na batalha de Waterloo.

 

Texto publicado no semanário Novo

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