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Não passa despercebido o entusiasmo com que certa esquerda embarca no delírio do Homem Providencial. O fenómeno não é exclusivo de uma determinada geografia ou de um certo momento histórico. Encontra-se a propósito de ditadores sanguinários, dos mais vulgares trambiqueiros ou de políticos correntes (se estes não forem o mesmo que aqueles) que acabam por ver as suas qualidades exacerbadas em favor não se sabe de que desígnios insondáveis (ou sabe-se). Vimos isto com chineses e norte-coreanos, com africanos e europeus, com Castro, com Obama, com Hollande, com Sócrates, com a dupla Tsipras & Varoufakis e até, por amor de Deus, com António Costa. E, se quisermos entrar no lado mais galhofeiro, com esse inesquecível arauto das bandeiras da esquerda que foi o meteórico Artur Baptista da Silva. E não quero com isto dizer que uns e outros e tantos outros sejam comparáveis. Afirmo, apenas, que o mecanismo de descolagem da realidade de certa esquerda que os vê estratosféricos é, esse sim, semelhante. Ora, pela sua recorrência, o fenómeno deve ter uma explicação. Na verdade, creio que tem duas. Uma que se aplica à ilusão da esquerda pelos homens providenciais totalitários e outra que explica o desvelo da esquerda por supostos homens providenciais em democracia. Comecemos por esta última. A benefício da compreensão do que afirmo é importante salientar que o modo natural da esquerda é a revolução. Ora, a democracia, concretizada em actos eleitorais periódicos, é a antítese da revolução. A sucessão de lideranças, de propostas políticas, a alternância, o consenso, o debate, acabam por confluir para soluções tipicamente evolutivas ou involutivas (mas sempre na continuidade) e não revolucionárias. Privada em democracia do seu ecossistema revolucionário natural, certa esquerda entrega-se nos braços do Homem Providencial (que tudo pode, que tudo sabe, que apresenta a única mensagem verdadeira) para sublimar a frustração, a angústia existencial que a contenção e equilíbrio de um sistema democrático lhe provoca. Em regimes totalitários, a coisa tem a mesma natureza, com as devidas adaptações. Aí, a angústia decorre também da ausência da possibilidade da revolução. Ou melhor, o líder totalitário, que assume em teoria e na prática o dom da infalibalidade, é o melhor sucedâneo da revolução na impossibilidade desta (melhor do que a democracia, já se vê), valendo por aquela em forma de Homem Providencial. Vale isto por dizer que a fixação de certa esquerda em elevar seres humanos banais, ou muito pior do que isso, à categoria de santinhos milagreiros, não é um sinal de infantilidade intrínseca ou de uma visão pueril da realidade. É, mais do que isso, um sinal de desconforto e inadaptação do adn revolucionário à essência do ambiente democrático. 


11 comentários

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De l.rodrigues a 03.03.2015 às 17:29

Certas esquerdas, certas direitas.. Quando vejo isto no começo de uma frase já sei que estão a falar ou de todos, ou de 3 pessoas.

Mas se acredita mesmo no que escreveu, tenho ali um Salazar, um Cavaco e um Sá Carneiro para lhe vender. Ah, e de brinde leva um Ron Paul, que pode dar jeito um toque exótico.
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De Sem Colher a 03.03.2015 às 17:45

Por cá, temos algo de "muito nosso": o sebastianismo.
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De lucklucky a 03.03.2015 às 20:10

A Esquerda Marxista - e boa parte da que não é - defende o Totalitarismo.

Ora quem defende tanto poder nas mãos do Estado tem de confiar cegamente no Líder.

Para lá da retórica supostamente cientifica o poder na Esquerda é profundamente Tribal. "Checks and Balances" não existem.
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De Vento a 03.03.2015 às 20:26

Mermão, creio que a análise peca por falta de rigor histórico. Todos quantos tentaram contrariar ditaduras foram apelidados de esquerdistas, manhosos comunistas e até mesmo brancos de 2ª. àqueles que em África, e em particular em Angola, lutaram e lutavam pela alteração do status quo, sem que necessariamente pretendessem um regime de expressão totalitária como foi o da URSS, Cuba mas também os de outros quadrantes na América latina e África que eram apoiados pela dita direita "democrática".
Na realidade tudo isto se muda com revoluções (estou a lembrar-me do Solidariedade na Polónia, dos movimentos progressistas na Hungria, na ex-DDR e noutras partes do mundo).
No caso português, pulando um pouco a história recente, existem dois factores que caracterizam uma certa direita (entenda-se PSD e CDS e o regime Socrático): o saudosismo e o novo-riquismo (neste último também se enquadram os aspirantes que vivem uma espécie de sonho). O novo-riquismo surge em maior força nos filhos de ex-operários e ex-agricultores de subsistência que graças à revolução ascenderam a cargos públicos e privados que na sua maioria eram desempenhos como testas de ferro, surge obviamente a reprodução das corporações que são mais corporativas que o estado corporativista de antes do 25 de Abril.
Nota: Curiosamente, verificou-se que era à esquerda, nomeadamente o PCP, que se encontrava a melhor organização autárquica e o melhor cuidado no apoio às populações. O próprio movimento sindical, posteriormente contrariado por Soares e Sá Carneiro com o pluralismo sindical, quando encetava uma luta fazia-o por todos e não pelos seus militantes.

Significa isto que actualmente os agentes causadores de uma revolução são precisamente os partidos de direita que usaram e abusaram das competências que lhes foram atribuídas. Não significa isto que a luta encetada pelas organizações de esquerda seja feita em nome do oportunismo, mas da realidade que a direita em todo o mundo construiu, e que Delors há mais de trinta e cinco anos vinha alertando para as consequências.

O caso grego, cuja expressão da crise está focada no denominado centrão, onde se incluíram os socialistas convertidos ao capitalismo sem regras e oportunista, revela-nos que foi e é uma sucessão de erros que conduz àquilo que hoje se vive e perturbará a Europa (registe este último comentário). Mas não se entenda esta perturbação no sentido pejorativo do termo, mas na necessidade desta ocorrência pela inépcia das forças de direita onde se incluem muitos partidos socialistas convertidos, como afirmei anteriormente.

Por último, fruto destes erros creio que deva ser dada uma oportunidade a Costa no sentido de percorrer um Novo Rumo. O ideal teria sido Seguro, mas uma vez que a direita tanto se empenhou em derrubá-lo também não resta dúvida que é necessário puxar por Costa e levá-lo a inclinar-se o necessário à esquerda à sua esquerda.
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De lucklucky a 04.03.2015 às 02:33

"e que Delors há mais de trinta e cinco anos vinha alertando para as consequências."

Você foi buscar o Delors para sua defesa que nos inícios dos ano 80 - que coincidência há cerda de 30 anos!- entrou para o Governo Muroy do Partido Socialista Francês como Ministro das Finanças para precisamente começar a "Austeridade" depois do desastre do primeiro Governo Socialista sob a égide de Mitterrand.

Veja lá se consegue ler isto sem corar:

"En mars 1983, le gouvernement Mauroy décide d'opérer un tournant radical dans sa politique économique et de se rallier à une conception plus libérale. La situation internationale de la France est très mauvaise : après des dévaluations, la fuite des capitaux se poursuit, une nouvelle dévaluation semble inéluctable, d'autant que tous les indicateurs financiers sont dans le rouge : déficit budgétaire, déficit de la balance commerciale, déficit de la balance des paiements. Il faut agir dans l'urgence, et opter entre différentes options : pendant une dizaine de jours, François Mitterrand hésite : rompre avec la Communauté économique européenne, quitter le Système monétaire européen, et isoler l'espace économique français en développant une politique protectionniste. Le gouvernement est divisé : Jean-Pierre Chevènement défend la rupture, tandis que le premier Ministre, Pierre Mauroy, le ministre de l'Economie, Jacques Delors, et le ministre du Budget, Laurent Fabius, souhaitent la rigueur, pour laquelle le président de la République finit par opter."

Como a Esquerda tem jeito para enganar, chamou-lhe "rigor" em vez de "austeridade".

Também veremos essa palavra por cá caso o PS ganhe as eleições.

Jacques Delors:
Nous ne pouvons pas continuer à consommer plus que nous produisons, à acheter plus que nous ne vendons à l'étranger. Depuis trois, quatre ans, la France est dans cette situation. Il faut que cela change, et vite.

http://fresques.ina.fr/jalons/fiche-media/InaEdu00151/le-tournant-de-la-rigueur-sous-le-gouvernement-mauroy.html


----

"L'échec du gouvernement de Mitterrand à mettre en place ce projet global de société apparaît, pour une partie des militants social-démocrates, comme une remise en cause d'un pan entier de la doctrine économico-sociale de la gauche (politique de relance, État-providence, aide aux salariés et aux couches défavorisées). Et ce malgré les critiques d'une partie de l'extrême gauche, pour qui tout n'a pas été tenté (sortie du SME, durcissement des réformes, etc.). Le passage à une doctrine présentée par le PS comme une culture de gouvernement conduit donc, du point de vue économique et social, à un réajustement qui crée les « déçus du socialisme » qui se détourneront du PS aux élections des années 1984 et 1986. Il sera une des causes de la faiblesse de la gauche au cours des années suivantes, qui amènera la première cohabitation."

http://fr.wikipedia.org/wiki/Tournant_de_la_rigueur

Este filme já foi visto muitas vezes, mas não aprendem com a História.




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De Vento a 04.03.2015 às 12:19

Mermão, permita acrescentar mais uns dados a meu comentário, pois não vá aparecer alguém que se engasgue com seu próprio umbigo:

http://es.wikipedia.org/wiki/Jacques_Delors

http://www.notre-europe.eu/media/chrono-jd.pdf?pdf=o

http://www.economie.gouv.fr/caef/jacques-delors

https://www.youtube.com/user/NotreEuropeJDI

http://www.publico.pt/sup-publica/jornal/tal-como--em-1929--o-balao-voltou--a-rebentar-280500
Neste artigo compreenda-se que viver acima do que se produzia caracteriza a economia de cassino que foi construída e apadrinhada pela direita moralista, farisaica, narcisista, envergonhada de suas raízes camponesas e operárias, mas que conseguiu converter e subverter imensos ditos socialistas cujos exemplos sobram cá pelo burgo.

http://cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt/6052.html

E mais este, que é bastante interessante na perspectiva histórica e que vem ao encontro da frase de Sampaio (Há mais vida para além do défice. E eu acrescento: para além do défice e da dívida):
https://aragonyenazion.wordpress.com/2012/08/27/delors-la-crisis-y-el-fin-de-la-europa-de-las-personas-delors-a-crisis-e-a-fin-da-europa-das-presonas/
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De lucklucky a 04.03.2015 às 19:10

É espantoso, consegues estar a favor do Défice mas és contra a Dívida.




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De JS a 03.03.2015 às 22:08

Mais uma vez LL a colocar o dedo na ferida.
O sistema eleitoral português, e a orgânica do estado, colocam o pão, o queijo, os bolinhos, a chapanhe, o caviar e tudo mais, nas mãos insaciáveis dos "lobies" "donos" dos partidos PS e do PSD.
Na prática vive-se num regime totalitário de esses dois partidos há 40 anos.
Sem "checks" nem "balances".

Mas mais: "Taxation without representation". Sem eleições uninominais aquela mole de "representantes " dos partidos não vai alterar um sistema que lhes dá, só a eles, tanta vantagens....
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De T a 04.03.2015 às 07:35

Na prática vive-se num regime totalitário de esses dois partidos há 40 anos.
Sem "checks" nem "balances".

Deve ser como uma relação monogamica a três... tão totalitário como os EUA, ou como em Inglaterra.
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De JS a 04.03.2015 às 10:55

T. Está mesmo a julgar como equivalentes o sitema eleitoral de esses Países com o português?.
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De T a 04.03.2015 às 10:58

Está mesmo a chamar totalitário ao sistema português?

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