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Do contrato entre realizadores e espectadores

por João André, em 06.03.18

O Diogo deixou aqui abaixo a opinião dele sobre o The Shape of Water. Não o vi, por isso o post não se refere ao filme em si,  mas achei particularmente interessante o comentário sobre o facto de aceitarmos incongruências por o filme ser sobre um monstro anfíbio com poderes curativos. O João Campos apontou a objecção dele a esta lógica nos comentários, mas gostaria de deixar umas linhas sobre um aspecto que vai sendo cada vez mais descurado em filmes modernos: as regras da suspensão de descrença (suspension of disbelief em inglês).

 

Um aspecto essencial de qualquer narrativa é a consistência da mesma. Isso significa que, independentemente do realismo dela, toda a narrativa tem que ser consistente em si mesma. Podemos aceitar um Super Homem que veio de Krypton e que tem poderes extraordinários à custa da exposição ao nosso Sol e a uma "menor gravidade", mas se de repente lhe adicionássemos os poderes de, digamos, o Homem Aranha devido a uma piucada de uma aranha radioactiva, isso seria difícil de engolir. Com James Bond podemos aceitar a figura de um cavalheiro com enorme perícia em combate (armado e desarmado), enorme charme e enormes conhecimentos em tudo o que é área, mas o que vai vendendo os filmes é o facto de sabermos que está sempre perto de morrer (mesmo quando sabemos que escapará). Se de repente passasse a ser quase invulnerável e não tivesse qualquer dificuldade, então o interesse reduzir-se-ia rapidamente.

 

Há uma cena no filme Rambo III que me deixou sempre perto das lágrimas de riso. Rambo está no campo soviético e, ao disparar a metralhadora ao nível do rés do chão num ângulo de talvez 90º, acaba por matar soldados num ânmgulo de 180º no rés do chão e na varanda do 1º andar. Aceitamos que Rambo é capaz de ser o melhor combatente no mundo - é esse o "contrato" que o espectador tem com os autores do filme - mas ainda assim ele tem que respeitar as leis da física. Por muito que possamos aceitar que todo um campo inimigo não é capaz de lhe acertar, ele tem que pelo menos apontar na direcção dos inimigos para os poder atingir. É essa a diferença entre Rambo III e Commando, com Schwarzenegger em modo de Exterminador Implacável aind amais eficaz que o ciborgue desses filmes.

 

É por isso que o caso apontado pelo Diogo, de uma mulher de limpeza ter acesso a um laboratório secreto, pode parecer uma quebra deste contrato. Os responsáveis pela limpeza de laboratórios podem entrar neles, mas habitualmente os objectos de investigação não estão disponíveis.

 

Ainda assim muito depende de como a situação seja filmada e resolvida. Não tendo visto o filme não me pronuncio sobre esse caso específico, mas concordo com o João Campos: mesmo que entremos no domínio do impossível, há sempre regras a ser respeitadas no cinema. Sob pena de a magia ser quebrada.

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4 comentários

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De Vlad a 06.03.2018 às 17:05

Até no impossível deverá haver congruência!

Eis um paradoxo.
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De João Campos a 06.03.2018 às 19:55

No caso em apreço não me parece haver grande incongruência. Sem spoilers: o filme passa-se numa América em plena Guerra Fria e antes das revoluções pelos direitos cívicos e contra a discriminação racial, pelo que duas empregadas de limpeza, uma branca e muda, outra negra, ambas pobres e aparentemente iletradas são para todos os efeitos invisíveis tanto perante os cientistas e os militares que têm empregos "a sério" naquela instalação. Isto é mostrado de forma bastante categórica numa cena muito particular do filme.

Essa questão da incongruência e da suspensão da descrença é muito pertinente nos filmes de super-heróis modernos, pela insistência de desenvolver aquelas histórias não num mundo secundário mas num mundo que parece ser o nosso. Acontece que fora da banda desenhada (ou da película) o próprio conceito de super-herói é francamente problemático, e chega a ser penoso ver alguns filmes a tentar explorar isto, e a estenderem-se ao comprido.
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De António a 06.03.2018 às 21:44

Estive a ver uma lista de realizadores que nunca ganharam o Óscar. David Fincher, Alfred Hitchcock, Terrence Malick, Ridley Scott, Orson Welles, Stanley Kubrick, Christopher Nolan, Brian de Palma, Park Chan-Wook, assim que me lembre.
Também estive a ver que os ratings desta edição foram os mais baixos de sempre (deve ter havido um movimento #NotMe nas audiências).
Ainda não vi o The Shape Of Water, do que já vi de del Toro gostei muito, principalmente o Crimson Peak.
As incongruências fílmicas estão por toda a parte, até o Interstellar tem pessoal a beber cerveja num mundo onde já só há milho. Muitas vezes os personagens fazem coisas francamente estúpidas (a saga Alien é um exemplo) mas sem as quais o filme não avançaria, desculpam-se.
No caso em discussão, em plena Guerra Fria, onde toda a gente desconfiava de todos, custa a crer a cena das senhoras da limpeza. No entanto, na mesma altura a Força Aérea esqueceu-se dum bombardeiro carregado de ogivas nucleares numa pista durante dias, deixaram caír uma bomba H armada na Carolina do Sul (por milagre não detonou), o abrigo presidencial da NORAD estava com a porta de vinte toneladas travada com um calço de madeira porque a fechadura avariou...
Portanto, desculpam-se as senhoras da limpeza.
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De Diogo Noivo a 06.03.2018 às 22:51

Apenas um reparo, ou clarificação: não vejo incongruências no filme, que até considero solvente. Escrevo sim que aqueles que o criticam vêm nele descuidos e incongruências.
Quanto ao teu argumento, que percebo e aceito, julgo, no entanto, que o cinema no domínio do fantástico se pauta por regras um pouco diferentes. O fantástico remete-nos sempre (ou quase sempre) para um mundo onírico. O zelo no cumprimento da lei da gravidade e da lógica mais pura desvirtua o ambiente no qual a história deve desenrolar-se. Os sonhos querem-se bizarros.
Nota: Há filmes do Bond que fazem dessa cena do Rambo um exemplo de plausibilidade.

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