Divisões na Europa
Após trinta anos sem perturbações de maior, o consenso nacional em torno da política europeia foi ontem desfeito. Uma carta assinada por notáveis provocou mais barulho do que a análise serena dos factos. O texto era suficientemente lírico e impreciso, mas levou a um enorme clamor de críticas contra o Governo. Os signatários não tinham elementos sobre o plano grego (se aceita ou não o resgate) ou sobre os pormenores dos bastidores, mas presumiram que a posição portuguesa em Bruxelas era errada. Chegou a parecer neste debate que os nossos interesses na cimeira seriam defendidos com maior eficácia por uma delegação estrangeira.
Nas últimas duas semanas, a estratégia portuguesa foi a de separar o problema da Grécia do problema português. A estratégia de Alexis Tsipras e do seu ministro das Finanças foi a inversa: ligar o problema de Atenas aos restantes países resgatados, incluindo o nosso. Os dirigentes gregos fizeram declarações hostis, susceptíveis de criar excitação nos mercados e de fazer subir o custo do financiamento da dívida portuguesa. Lisboa respondeu com dureza semelhante, deixando bem claro que o problema grego não era o nosso e que tinha de ser discutido isoladamente.
O problema grego é mesmo diferente do nosso e foi discutido isoladamente. Atenas está a negociar um eventual terceiro resgate e, mais tarde ou mais cedo, terá talvez de negociar uma saída da zona euro, calamidade que equivale à melhor maneira de cumprir um programa radical de esquerda. A Grécia não consegue regressar aos mercados, não consegue pagar as dívidas nem fazer as reformas exigidas, embora tenha obtido substanciais descontos e complacência dos credores. O dinheiro que recebe dos europeus mantém o Estado a funcionar, mas sem alterações de fundo. Não será o novo governo a fazer as reformas, pelo que o problema não tem solução visível. Para os europeus, existe também um dilema: mantém-se o país a flutuar ou faz-se a ruptura? A segunda hipótese pode resolver de vez a crise de confiança no euro, mas também pode afundar a moeda única. O risco é substancial e há indicações de que alguns países querem tentar esta possibilidade.
Ao longo da crise, sempre com enormes sacrifícios, Portugal conseguiu demonstrar que tem uma situação diferente da grega: terminou com êxito o programa de ajustamento e a sua dependência da troika é ligeira (continuam credores, mas há margem de manobra para lhes desobedecer). Portugal financia-se nos mercados a baixo custo, ou seja, a estratégia da credibilidade funcionou e pode prolongar-se por anos, até que o crescimento seja substancial e reduza o rácio da dívida. No ano passado, a economia portuguesa cresceu 0,9%. O valor vai acelerar este ano.
Lembro-me do tempo em que a Grécia recebia sempre mais dinheiro em subsídios europeus do que Portugal. Aliás, a Grécia recebia sempre mais dinheiro per capita do que qualquer outro país. Lembro-me do tempo em que a lamentável classe política grega, não contente por ter levado o seu país à falência, travou todas as reformas exigidas por quem lhe emprestava dinheiro. Lembro-me do perdão de dívida, dos sinais de corrupção, da histeria dos mercados, dos governos instáveis, da incerteza política e do efeito de arrastamento do Sul com que os gregos sempre sonharam. Tudo isto foi esquecido ontem em Portugal, no dia em que as tácticas e as ambições internas acabaram com um consenso de 30 anos na política europeia do país.


