Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Dívida de gratidão

por Diogo Noivo, em 11.01.17

MSoares.png

Nasci um ano após a extinção do Conselho da Revolução. E não tinha ainda dois quando Portugal aderiu à Comunidade Económica Europeia. Isto é, os meus primeiros anos de vida foram os últimos do processo de transição democrática.
Os processos de democratização são fases politicamente complexas, sensíveis, e pejadas de riscos. Em Espanha, por exemplo, Juan Carlos I e Adolfo Suárez foram os arquitectos e os garantes de um regime democrático e plural, homens cuja capacidade política e o compromisso com o Estado de Direito Democrático permitiram desmantelar intentonas apostadas no regresso a tempos negros, como aquela que ocorreu no dia 23 de Fevereiro de 1981. Em Portugal, tivemos Mário Soares. Entre outros feitos notáveis, a coragem política (e física) de Soares garantiu que Portugal não se transformava num manicómio a céu aberto, num regime de demência colectiva do qual o PREC foi uma amostra tenebrosa.

GonzalezElPais.jpg

Como escreveu Felipe González no El País do passado domingo, Soares era sobretudo um democrata, o que não é pouco. Durante a transição, Mário Soares soube traçar a linha divisória no sítio onde ela era necessária. O país não se dividia entre esquerda e direita, entre conservadores e liberais, mas sim entre democratas e gente que pretendia substituir um autoritarismo por outro. Soares, com a preciosa ajuda dos eleitores, encarregou-se de manter os últimos ao largo.
Sei que, em Portugal, os mortos são por definição puros e incontestáveis. Mas Soares cometeu erros. Confundiu muitas vezes o aparelho partidário com a estrutura estatal. E nos últimos anos cometeu erros que evidenciavam o desaparecimento do lendário faro político de outrora – a recandidatura a Belém, ver em Hollande o salvador do centro-esquerda europeu, advogar o voto em Obama como via para o encerramento de Guantánamo, alinhar com o Bloco em reuniões toscas e profundamente iliberais, enfim, erros que o talento e a intuição política do Mário Soares da transição democrática porventura não permitiriam. Porém, feitas as contas, acertou mais vezes do que se enganou. Ou, dito de outra forma, os êxitos foram de tal forma significativos que os erros não fazem muita sombra.
Nasci num país sem grandes dúvidas em relação à democracia e ao europeísmo. E isso faz com que tenha uma enorme dívida de gratidão a Mário Soares. Ao contrário de certa direita ultramontana e de alguma esquerda mumificada, assumo essa dívida com gosto e sem matizes. Hoje, num Portugal que parece ter as costas voltadas à Europa, um país onde a linha divisória traçada por Soares se encontra em parte incerta, à dívida de gratidão junta-se a saudade que nunca esperei sentir.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D