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Distracções

por Alexandre Guerra, em 21.06.18

O mundo de hoje é mesmo assim, tão cedo as pessoas e as redes sociais se revoltam e se indignam com uma tragédia, como, rapidamente, a esquecem e as suas atenções se desviam para um outro assunto. O jornalismo histriónico, munido de comentadores e analistas pouco atentos, alimenta estas dinâmicas ilusórias, e os governantes (quase todos) vão navegando na espuma dos dias. Se, algures, uma injustiça é revelada ao mundo, surgem de imediato as vozes de indignação, os movimentos de sensibilização, as frentes comuns de “batalha” (parece que agora se está a formar um frente “anti-fascista, signifique lá o que isso significar). O problema é que este “despertar” súbito da sociedade para os problemas, não deixando de ser louvável, é efémero e, muitas vezes, contraproducente, porque aborda as questões pelo seu pior ângulo: o imediato e, muitas vezes, o demagógico.

 

Os dramas de natureza política e social, ao contrário das catástrofes naturais, normalmente, não surgem de rompante nem de surpresa. Há sinais, indícios, que podem perspectivar determinados acontecimentos. É claro que para os identificar e interpretar é preciso tempo, conhecimento, dedicação profissional e, sobretudo, interesse. Admite-se que esse não seja o papel dos cidadãos comuns, que têm os seus empregos e actividades no quotidiano profissional e social, dando, assim, o seu contributo à comunidade. Para as pessoas, enquanto massa (sociologicamente falando) integrada numa democracia, está reservado o derradeiro papel: o voto. Essa leitura atempada e atenta deveria ser feita pelos “observadores” e actores dos respectivos sistemas políticos, por forma a produzirem-se decisões que pudessem, se não evitar, pelo menos atenuar o impacto de alguns dos dramas que acabam por irromper mais tarde.

 

É extraordinário constatar como, desde há poucos dias, se fazem ouvir as vozes revoltosas de comentadores, analistas, políticos e activistas, como se tivessem “acordado” agora para um tema, tema esse que se tivesse contado com este mesmo empenho há mais de um ano, provavelmente, mais de duas mil crianças não tinham sido separadas dos seus pais migrantes ilegais vindos do México em direcção aos Estados Unidos. Mas poderá o leitor perguntar, como é que isso seria possível, se só há cerca de dois meses se começou a concretizar esta política promovida pelas autoridades americanas. A questão é totalmente pertinente, no entanto, lá está, os tais sinais já existiam há mais de um ano. E nem se pode dizer que eram indícios ténues. Nada disso.

 

A 3 de Março de 2017, ou seja, há mais de um ano, a MSNBC avançava com um exclusivo que dizia: “Trump admin. plans expanded immigrant detention”. O que vinha nessa notícia era absolutamente assustador, porque ia muito para além de meras declarações estapafúrdias do Presidente Trump. Pelo contrário, essa notícia não trazia qualquer declaração do Presidente, demonstrava, isso sim, uma sistematização daquilo que poderia vir a ser o novo modelo de tratamento dos migrantes ilegais com filhos vindos do México.

 

Lia-se: “In a town hall with Department of Homeland Security staffers last month, Asylum Division Chief John Lafferty said DHS had already located 20,000 beds for the indefinite detention of those seeking asylum, according to notes from the meeting obtained by All In. This would represent a nearly 500% increase from current capacity.

The plan is part of a new set of policies for those apprehended at the border that would make good on President Trump’s campaign promise to end the practice critics call ‘catch and release’. 

‘If implemented, this expansion in immigration detention would be the fastest and largest in our country’s history’, says Andrew Free, an immigration lawyer in Nashville who represents clients applying for asylum. ‘And my worry is it’ll be permanent. Once those beds are in place they’ll never go away.’

[…]

Under the plan under consideration, DHS would break from the current policy keeping families together. Instead, it would separate women and children after they’ve been detained – leaving mothers to choose between returning to their country of origin with their children, or being separated from their children while staying in detention to pursue their asylum claim.”

 

Sublinhe-se. Este exclusivo foi avançado a 3 de Março de 2017 pela MSNBC, que ainda há dias voltou a relembrar o tema. Curiosamente, das muitas vozes agora indignadas, que estão “avalizadas” para comentar nos jornais e televisões e para decidir nos gabinetes, não se ouviu ao longo deste mais de um ano qualquer comentário ou acção concreta sobre este assunto. Tinham palco e condições para o fazer. Se não o fizeram não foi, supostamente, por falta de boa vontade, foi, simplesmente, porque, mais uma vez, estavam distraídos. Se tivessem estado um pouco mais atentos, talvez se pudesse ter evitado o choro e sofrimento de mais de duas mil crianças. Infelizmente, este é apenas um de muitos outros tristes exemplos.

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21 comentários

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De Anónimo a 21.06.2018 às 16:37

http://expresso.sapo.pt/internacional/2018-06-20-Hungria-aprova-lei-que-penaliza-quem-ajuda-imigrantes#gs.PMFiWIo
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De lucklucky a 21.06.2018 às 16:49

O que é que isso tem de "assustador"? Se se quer cumprir a lei da imigração então tem de se aumentar o equipmento que já existia.

As "notícias" são manufacturadas em "casos" quando se quer esconder outra coisa. Por isso é que agora é um caso.
Interessa por exemplo esconder o relatório do Inspector Geral sobre o comportamento do FBI na eleições.
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De O Gajo a 21.06.2018 às 17:31

A Lei nunca deverá permitir fazer da imoralidade uma legalidade. A ilegalidade torna-se, naqueles casos ,um acto de cidadania.

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De lucklucky a 21.06.2018 às 17:50

O que é que é imoral aqui? Não sabe o que é um centro de detenção se mistura crianças com adultos?
A sua "cidadania" defende levar crianças para as prisões?




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De Anónimo a 21.06.2018 às 16:54

http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/levem-essa-carga-humana-para-a-holanda-salvini-proibe-desembarque-de-navio-com-224-imigrantes-323824
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De O Gajo a 21.06.2018 às 16:58

Também as redes sociais e as novas tecnologias tem um outro lado. Ao mostrarem in loco as novas tragédias desafiam as censuras e pelo desafio das inagens obrigam as mudanças. Em certo sentido aproximam do povo um novo poder de decisão. Ex: não tivessem havido as imagens dos fogos e hoje dormiríamos novamente. Não tivessem havido as imagens de crianças desgarradas dos seus pais e não acreditariamos nas palavras
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De Anónimo a 21.06.2018 às 17:59

Nos EUA várias crianças separadas do "pai" e até "mães", eram o bilhete de ingresso dos acompanhantes. Testes de ADN demonstraram o óbvio. Já se sabia. Nada impede, no entanto, a verborreia da oposição.
Já se sabia que homens adultos saudáveis desacompanhados são oportunistas e por isso são recusados ... nos Estado que não precisam de mão de obra barata.
Não é nenhum um problema de falta ou abundância de "humanismo".

Na Europa trata-se, há vários anos de, apenas, uma externamente impulsionada -sabemos por quem e porquê- tentativa de invasão.
Defender publicamente -e não em privado- semelhante causa dita humanista -com grotescas exibições de partidarismo e subserviência- já não vai longe, nesta Europa exposta à consequente realidade.

Até o ex-alto responsável, na ONU, pelos "refugiados" já inverteu o discurso.
Oportunisticamente, ridiculamente. Tarde e a más horas.
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De Luís Lavoura a 21.06.2018 às 18:01

Agora o Alexandre poderia talvez esclarecer qual a lei ou leis que fundamentam a separação das crianças dos pais. Trump diz que essas leis foram aprovadas pelos democratas. É verdade?
É que, a notícia que o Alexandre cita apenas diz que doravante os pais e as crianças irão ficar detidos perto da fronteira com os pais separados das crianças, mas não nos diz por que motivo é que os pais ficarão separados das crianças.
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De lucklucky a 21.06.2018 às 20:39

Como ninguém faz investigação alguma talvez soubessem as razões das normas e/ou leis porque é assim . Já perguntaram?

Pode ir desde saber quem é mesmo familiar até ás condições da detenção se incluiu violência ou não, à segurança dentros dos centros , e ou um conjunto de condições.


Mas nada disso interessa. O que interessa é manufacturar a indignação para efeitos políticos de Esquerda com as palavras caras "racismo", "fascismo".

O Canadá parece que também faz. Suponho que o progressista Trudeau seja "assustador" pois faz as crianças chorarem.

http://www.newsweek.com/canada-detains-migrants-separates-children-justin-trudeau-donald-trump-989698
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De Anónimo a 21.06.2018 às 22:31

"Trump diz que essas leis foram aprovadas pelos democratas. É verdade?"
É FALSO. Mais uma típica mentira de Trump e da restante escumalha que o apoia.
https://www.snopes.com/fact-check/was-law-separate-families-passed-1997/
http://www.politifact.com/punditfact/statements/2018/jun/19/matt-schlapp/no-donald-trumps-separation-immigrant-families-was/
http://www.politifact.com/punditfact/statements/2018/jun/21/blog-posting/no-bill-clinton-law-separating-families/
É claro que os apoiantes de Trump são 100% alérgicos a factos.
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De lucklucky a 22.06.2018 às 01:58

Você é alérgico à leitura dos factos dos links que coloca:

" It has long been a misdemeanor federal offense to be caught illegally entering the US, punishable by up to six months in prison "

"...a policy that could result in the separation of far more parents from their children at the border."
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De Anónimo a 22.06.2018 às 13:18

Você sabe o que quer dizer "misdemeanor"?
Vou dar-lhe alguns exemplos de "misdemeanors": uma multa por excesso de velocidade, uma multa por estacionamento indevido. Não sei se tem filhos (espero que não), mas se os tiver deviam separá-los de si pois de certeza que já cometeu diversas "misdemeanors" ao longo da sua vida.
Então neste blog está sempre a cometer "misdemeanors" contra a inteligência humana. Escumalha!
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De Vento a 21.06.2018 às 21:47

Por muito cruel que pareça a questão é simples: Os USA não têm condições para resolver um problema que diz respeito ao México.
Uma outra questão é usar crianças, que poderiam ter ficado com familiares no país de origem, para tentar pressionar um governo estrangeiro a admiti-los.
Última questão, as reacções que muito se lêem e escutam não passam na sua maioria do tocar uma trombeta para mostrar que dão esmola, isto é, espalhafato para se mostrar uma dita humanidade.

O México tem inúmeras riquezas e uma afrontada desigualdade social. Se o país necessita de ajuda internacional para melhorar as condições internas, então, peça.
A mim não me choca a política americana, choca-me que os pais usem as crianças para embarcar numa aventura.
Os emigrantes portugueses do século passado eram constituídos maioritariamente por homens, e só depois de se estabelecerem é que levavam a mulher e os filhos para junto de si.
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De Anónimo a 22.06.2018 às 01:06

Pelo seu comentário pode-se ver, mais uma vez, que a cabeça levou-a o "Vento".
Dizer que é "um problema que diz respeito ao México" revela uma completa ignorância sobre o que é o imperialismo. São os EUA com a sua inflexível "guerra às drogas" (para efeitos de comparação não existe "guerra às drogas" em Portugal graças a uma lei aprovada pela esquerda e pelo PS em 2001) que exporta o narcotráfico para os países da América Latina, originando assim uma criminalidade sem limites e que obriga muitos latinoamericanos a emigrar.
Já para não falar de todas as intervenções no Médio Oriente, que obrigam muitos árabes a abandonar os seus países e a irem para a Europa, onde sofrem todo o tipo de discriminação.
Aconteceu semelhante com muitos emigrantes portugueses: fugiam à pobreza, à PIDE e a uma guerra colonial sem sentido.
Se a si não lhe choca a criminosa política americana, é porque ou não tem coração ou não tem cérebro.
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De Vento a 22.06.2018 às 14:26

Você mistura alhos com bugalhos. Os países árabes enfrentam uma guerra patrocinada quer pela UE quer pelos US quer pela Rússia e também outros intervenientes. É uma questão provocada, que necessita uma abordagem diferente.
O México e alguns outros não enfrentam esta realidade. Enfrentam, sim, uma realidade que se tornou endémica. O problema tem de ser resolvido no local.

Portanto tocar a trombeta para mostrar uma mão cheia de nada é somente tentar passar um sentimento inconsequente e/ou para se escrever umas linhas acerca de qualquer coisa. Admito que em raríssimas situações alguém possa expressar sentimentos sobre o que escreve. Eu também os tenho, e suficientemente fortes para afirmar que os pais não devem submeter crianças a essa situação.
Também não é verdade que os emigrantes portugueses, na sua maioria, fugissem à PIDE ou a perseguições, fugiam à fome e à miséria e era constituída em sua fase inicial maioritariamente por homens que depois de se estabelecerem levavam suas famílias. E os que se estabeleciam procuravam ajudar outros.
Mais ainda, o contexto permitia a absorção desses emigrantes, pois enfrentava-se uma necessidade de mão-de-obra nos países de destino (França, Alemanha, Venezuela, USA, Brasil, Canadá e tantos outros).

Sobre a discriminação: não é necessário ser estrangeiro para enfrentá-las. Você deve pensar que vive no país da Alice; e até deve ser verdade, pois Costa e Catarina querem fazer crer que sim a toda a hora.

Não direi que tem vento na cabeça, pois seria de utilidade. Mas que a sua cabeça é atraída pelo Vento, lá isso é. Tem de procurar em seu cérebro o sentido da razão.
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De lucklucky a 22.06.2018 às 01:52

É muito mais que o México.
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De Sarin a 21.06.2018 às 22:26

As pessoas atentas vêem os sinais e interpretam os padrões - não precisam de o fazer no âmbito profissional, apenas no âmbito de cidadão do país e, por isso, do mundo.

Uns podem gostar, outros abominar. Mas não têm qualquer influência excepto nas conversas do seu café. E nas atitudes da sua vida.


O poder político não entra nesta história, preocupado que anda com a questão económica...
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De Rão Arques a 22.06.2018 às 11:34

NÓS POR CÁ
Repescagem de 22 de Junho de 2017 (excerto)
O presidente dos bomboeiros numa primeira abordagem á estrada da morte deu a entender que "as pessoas não utilizaram o normal senso e ao avançar nem imaginaram a armadilha em que se metiam".
Quem vomitou uma barbaridade deste calibre não foi um tal Marta Soares?
Ainda ninguém lhe puxou as orelhas com duas voltas ao pescoço?
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De Anónimo a 22.06.2018 às 14:32

Dizer tal coisa é de facto uma barbaridade mas o que é que isso tem a ver com o artigo em si?
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De O Gajo a 22.06.2018 às 16:09

Em geral, tudo. No particular, nada.
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De Rão Arques a 22.06.2018 às 18:00

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