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Director, um lugar precário

por Pedro Correia, em 05.01.17

Directors Chair[1].png

 

Há oito meses, escrevi aqui um artigo que dava nota de um facto inimaginável há poucos anos: não existe hoje cargo tão precário num órgão de informação como o de director.

Isto afecta toda a cadeira hierárquica, introduzindo um factor adicional de perturbação no funcionamento das empresas jornalísticas. Os directores - que deviam ser uma referência de estabilidade junto dos restantes profissionais - estão afinal sujeitos aos estados de alma de quem os tutela na estrutura accionista. Duram em funções quase tão pouco tempo como os treinadores de futebol: em apenas 14 jornadas do campeonato nacional da modalidade, já  nove treinadores - metade do total - foram substituídos.

As "chicotadas psicológicas" sucedem-se no jornalismo. O que contribui para o descrédito e a desvalorização social da profissão, que já foi uma das mais conceituadas em Portugal.

 

Em Abril dei nota no DELITO de uma estatística relevante: 16 títulos jornalísticos (72,7% do total) tinham directores em funções havia menos de dois anos.

Desde então já se registaram várias mudanças. Bárbara Reis anunciou em Maio que deixaria a direcção do Público, ao mesmo tempo que se tornava conhecida a transferência de David Dinis da TSF para o diário da Sonae, dando por sua vez lugar na rádio a Arsénio Reis, que ali iniciou funções há quatro meses. Em Junho, André Macedo demitiu-se de director do Diário de Notícias, sendo substituído em Setembro por Paulo Baldaia. Também em Junho, João Garcia cedeu o lugar de director da revista Visão a Mafalda Anjos.

André Macedo não chegou a completar dois anos no posto cimeiro do DN: só lá esteve 22 meses, antes de se transferir para a RTP, onde é hoje director-adjunto.

João Garcia foi director da Visão durante um ano exacto.

David Dinis não permaneceu mais de quatro meses ao leme da TSF.

Bárbara Reis foi excepção: aguentou-se sete anos à frente do Público.

 

Entretanto o Diário Económico, que vegetava já só na edição digital, encerrou de vez. Passou a haver duas novas publicações - ambas na área económica, o que é um significativo sinal dos tempos: o Jornal Económico, surgido em Setembro com Vítor Norinha como director, logo promovido a director-geral da empresa proprietária, passando o seu anterior lugar a ser ocupado a partir de Dezembro por Filipe Alves, até aí director-adjunto; e desde Outubro o Eco - só com edição em linha -, sob a direcção de António Costa.

Veremos se vieram para ficar, como rezava um antigo slogan publicitário de uma marca de automóveis.

 

Balanço: de 23 títulos jornalísticos, apenas sete - menos de um terço - têm directores há mais de dois anos. E só um ultrapassou a década nestas funções - caso absolutamente excepcional.

Fica o registo destes resistentes:

Vítor Serpa (director do diário A Bola desde 1992).

Octávio Ribeiro (director do Correio da Manhã desde Março de 2007)

Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009)

José Manuel Ribeiro (director do jornal O Jogo desde Maio de 2011)

Rui Hortelão (director da revista Sábado desde Novembro de 2013)

António Magalhães (director do Record desde Setembro de 2014)

Afonso Camões (director do Jornal de Notícias desde Outubro de 2014)

 

Certamente não por acaso, três destes sete profissionais trabalham no mesmo grupo editorial - a Cofina, que se assume assim como uma aparente ilha de estabilidade no meio das convulsões que agitam o sector.

Mais curioso é o facto de entre os sete veteranos figurarem os responsáveis máximos dos três diários desportivos portugueses. Felizmente para eles, os jornais que dirigem noticiam "chicotadas psicológicas" no futebol mas parecem pouco afectados por elas.

Ao contrário de muitos outros, num tempo em que o jornalismo imita o pior do futebol.


22 comentários

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De Leigo na Matéria a 05.01.2017 às 10:46

"Os directores - que deviam ser uma referência de estabilidade junto dos restantes profissionais - estão afinal sujeitos aos estados de alma de quem os tutela na estrutura accionista. "
Muito agradecia que explicasse melhor o que isto significa.
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De Pedro Correia a 05.01.2017 às 10:49

Está suficientemente explicado nos dois textos. Leia com mais atenção. Verá que percebe.
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De Luís Lavoura a 05.01.2017 às 11:33

Repare-se que, certamente não por coincidência, aqueles a que o Pedro chama "resistentes" são precisamente os diretores dos media com mais sucesso junto do público: A Bola, Correio da Manhã, Rádio Renascença.

Ou seja, eu diria que não é propriamente o grupo Cofina que é uma ilha de estabilidade: quem gera a estabilidade é o sucesso junto do público, não o grupo Cofina.
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De Anónimo a 05.01.2017 às 14:54

Caro Luís Lavoura,

Não estou certo que o sucesso entre o público seja, só por si, o factor determinante. Repare, a julgar como verdadeira esta notícia do Jornal de Negócios, o periódico A Bola, que referiu como um caso de sucesso, está a ser alienado do grupo (http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/media/detalhe/jornal_a_bola_posto_a_venda)

Penso que o autor do post terá alguma razão quando refere a orientação do grupo Cofina.
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De Bordalão a 05.01.2017 às 18:28

"precisamente os diretores dos media com mais sucesso junto do público: A Bola, Correio da Manhã, Rádio Renascença"

Que consolo. Pasquim da Manhã, essa Gina literária de faca e alguidar e a RR, a estação católica portuguesa, o jornalismo dos espíritos livres. Mas "prontos", como se vendem, devem ser bons
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De amendes a 05.01.2017 às 11:53

A razão primeiríssima:

Como no futebol, os jornais "grandes" passaram a SAD(s) cotadas na bolsa!

Patrão manda na fruta!
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De Pedro Correia a 05.01.2017 às 17:59

Patrão sempre mandou. Mas patrão que despede um director de seis em seis meses ou que muda de director todos os anos é patrão que não sabe mandar. Nem faz ideia do que isso é.
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De V. a 05.01.2017 às 12:20

"Bárbara Reis foi excepção: aguentou-se sete anos à frente do Público."

Eu diria: "Bárbara Reis foi excepção: conseguiu dar cabo do Público"

O que me preocupa no jornalismo no futuro vai ser os encómios diários aos 100 anos da gaita da Rev Russa durante este ano.
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De Pedro Correia a 05.01.2017 às 23:21

Eu vou guardar a colecção completa do 'Avante!'
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De lucklucky a 06.01.2017 às 14:11

V. até você emprega a narrativa Comunista. Mude as palavras.

Não é Revolução é Golpe.
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De Pedro Correia a 06.01.2017 às 16:42

"Narrativa comunista" é no Avante!
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De Porfirio Tinto a 06.01.2017 às 19:32

O 25 de Abril foi Golpe, ou Revolução?
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De V. a 06.01.2017 às 21:37

Sem querer fazer nenhum juízo de valor, tecnicamente terá sido mais um golpe de estado. A instauração da República ou as guerras liberais devem ter tido uma dimensão maior e foram coisas mais sangrentas, calculo eu. A ideia de "revolução", aliás, é um bocado estapafúrdia (e mal empregada) para um contexto político. Uma revolução é uma ideia filosófica mais adequada a mudanças de paradigmas do conhecimento centradas em "descobertas". Ou outras coisas mesmo do arco da velha. Na minha modesta op.
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De Meirinho prozac a 06.01.2017 às 23:31

V, na minha humilde opinião foi revolução, pois houve mudança de regime e de instituições politicas. Mas esperemos pela opinião do Sumo Pontífice.
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De V. a 06.01.2017 às 21:21

Sim... um golpe. De absolutíssimo acordo com o caríssimo Lavoura. Venha a meus braços, com mil diabos!
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De AntónioF a 05.01.2017 às 13:19

Caro Pedro,
tal como lhe disse no seu anterior artigo, esqueceu-se de mencional o decano dos directores do jornalismo português - José Carlos Vasconcelos ( http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/a-merc-8348387 ) ao qual, recentemente, foi notícia por outros motivos: http://rr.sapo.pt/noticia/72520/director_do_jornal_de_letras_vence_premio_vasco_graca_moura
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De Pedro Correia a 05.01.2017 às 17:51

Não incluí esse periódico, António. Os quinzenários não fazem parte deste inventário.
Poderia - é certo - ter mencionado o 'Diário de Notícias' da Madeira, que muito prezo, ao 'Diário de Leiria', passando pelo 'Jornal do Fundão' a que me ligam sólidos laços afectivos.
Mas não se pode falar de tudo. Nem ler tudo.
Esse que menciona deixei de ler há décadas.
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De Terry Malloy a 05.01.2017 às 15:46

Creio que uma das razões para as permanências mais curtas no lugar de director é que, hoje, a geração mais bem preparada de sempre consegue fazer muito mais em muito menos tempo.

Veja-se o caso do Paulo Baldaia, que não precisou de 3 meses à frente do DN para sanear o cronista de maior sucesso do jornal.
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De A.Vieira a 05.01.2017 às 18:46

como escreve Alberto Gonçaves, no "Ensaio sobre a Mudez"

"A cada dia desenterra-se uma obra,erudita ou popular, que urge abolir a título de racista, sexista ou o diabo a quatro.
Com fúria totalitária, recria-se a história à imagem de uma pretensa equidade"

"O que importa aos campeões do políticamente correcto é derrotar o nosso modo de vida, ou a democracia, ou se não for exagerado , O Ocidentre"



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De Pedro Correia a 05.01.2017 às 23:18

'Ensaio sobre a Mudez' é um bom título.
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De BELIAL a 05.01.2017 às 19:12

Eu cá não sei nada disto.
Para mim, fixe mas fixe - era ser subchefe da psp. Mainada!
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De Pedro Correia a 05.01.2017 às 23:17

Eu gostava de ser chefe de cozinha. E mandava as pessoas tratarem-me por 'chef', com pronúncia francesa.

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