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Dias laus (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.04.18

thumb_P1080316_1024.jpgA cidade é habitada por 55000 almas das cerca de 400.000, divididas por oito grupos étnicos, que compõem a província de Louangphrabang, na região central do norte do país. As duas maiores etnias são os Khmu (44%) e os Hmong (16%).

Conhecida como "a jóia do Laos", é hoje muito referida pela sua arquitectura urbana, que cruza a tradicional com a colonial dos séculos XIX e XX; também pela arquitectura de alguns dos seus templos e pela belíssima natureza que a rodeia e em que se insere.

 

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As portadas em madeira pintada, os estores de palhinha, os cadeirões de madeira nas varandas fizeram-me lembrar outras latitudes.

A maioria dos hotéis e alojamentos disponibiliza bicicletas que permitem aos viajantes deslocarem-se livremente pelas estreitas ruas da cidade e as estradas marginais junto aos rios, parando onde muito bem entendem para poderem visitar os locais de maior interesse e gozarem da beleza da paisagem. Mas a cidade também se faz bem a pé, desde que não esteja demasiado calor ou a chover. Há, ainda, sempre, a oferta de inúmeros "tuktuks", normalmente muito lentos e barulhentos, e a possibilidade para quem gosta de andar de cabelos ao vento de alugar um motociclo, pois há várias lojas que promovem esse serviço.

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A oferta hoteleira é vasta e independentemente da classificação, ou do número de estrelas do estabelecimento, nos vários locais onde estive pude notar a excelente limpeza. E confesso que fiquei admirado. Complemento esta observação com uma outra decorrente do facto de que durante os vários dias em que andei quer por Luang Prabang, quer, depois, pela sua capital e região circundante, não vi baratas nem ratos. O lixo sempre devidamente depositado nos locais próprios ou à beira das ruas aguardando a recolha em sacos fechados. Na capital, Vienciana (Vientiane), vi as ruas serem varridas e lavadas, o que noutras regiões e cidades bem mais ricas não acontece. Esta realidade não ilude, porém, uma outra, bastante mais grave, que não é exclusiva do Laos, mas que também verifiquei na Cambodja, no Vietname e noutros países asiáticos, que é a poluição de rios, lagos e zonas costeiras, com inúmeras embalagens de plástico, esferovite, madeiras e latas ferrugentas de alumínio, sinal do muito que ainda há a fazer nessa matéria.

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Um elemento marcante da paisagem urbana e rural são as permanentes manifestações de nacionalismo, representadas pela colocação das bandeiras do país na soleira das casas particulares, de estabelecimentos comerciais e de edifícios oficiais, normalmente com a bandeira do Partido Comunista no lado oposto, apesar de quanto a esta última com alguma indiferença quanto à posição da foice e do martelo tantas foram as içadas ao contrário.

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A este propósito referirei que um dado de que rapidamente me apercebi foi o do peso da burocracia de Estado. Da verificação de passaportes e emissão de vistos à entrada, até ao controlo daqueles à saída, o trabalho que podia ser feito por um funcionário é feito por dois. Um abria o passaporte, o outro ao lado carimbava. A quantidade de edifícios, muitas vezes do tipo moradias com um jardim murado, com placas à entrada do tipo “Ministério X, Departamento Y”, em caracteres locais e em francês é inacreditável. O cenário repete-se em quase todo o lado e área da administração pública. Muitos desses edifícios estão vazios, havendo alguns de dimensões consideráveis. Lembro-me de ter visto um destes, talvez a uns 30 quilómetros de Vienciana, próximo da Ponte da Amizade, que é um dos pontos de passagem para a Tailândia através do Mekong, com a indicação de ser uma Faculdade de Ciências Médicas, completamente às moscas. Também em estações de correios, quase todas as que vi, ao estilo e com indicações em francês, e numa biblioteca me pareceu haver gente a mais, desocupada e com pouca alegria no trabalho, contrastando com os rostos sorridentes, ainda que por razões compreensíveis, de outros locais por onde passei.

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Todo o país, o que é comum aos outros países daquela região, tem uma vasta e muito agradável oferta gastronómica qualquer que seja a dimensão da bolsa. Por vezes com preços ridiculamente baixos.

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Para lá do arroz, das sopas e das massas, há imensos vegetais, de excelente qualidade, alguns deles desconhecidos para a maioria dos europeus e para os quais não encontrei traduções. A fruta predominantemente tropical é abundante, extremamente saborosa, em especial quanto a papaias, mangas — dulcíssimas, sem fios —, ananases, mas também as laranjas e suas variantes são óptimas. O peixe é quase todo de rio, mas branco e saboroso sem que se possa comparar com o das nossas águas atlânticas, havendo muitos pratos de galinha e pato, carne de porco, tofu e camarão. A carne de bovídeos em regra é de búfalo, mas também existe de vaca importada. Os caris, onde se regista a influência tailandesa nas suas diversas alternativas, são bons e generosos, assim como as sopas.

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A influência da cozinha francesa encontra-se muito presente, tanto naquelas ementas indefinidas a que alguns chamam de “internacional” e onde se encontra de tudo, como em restaurantes e bistrots cujas denominações muitas vezes revelam a sua herança colonial. Não será por isso de estranhar que haja muita cozinha de fusão e que em matéria de sobremesas se encontre uma grande profusão de crepes, de óptimas mousses de chocolate e de gelados e sorvetes artesanais. Os de coco e lima, com bocadinhos dos ditos, são soberbos. Luang Prabang é, aliás, conhecida pela qualidade da sua doçaria. No mercado nocturno há bancas só de bolos e doces, sempre fresquíssimos e de sabor irrepreensível. Os brownies são dos genuínos, baixinhos, quase prensados porque descem ao sair do forno, de sabor intenso, com um chocolate que se deixa arrastar pela boca, de tal forma que por vezes parece quase caramelizado. Nada dessas imitações que hoje em dia se encontram em muitos restaurantes portugueses com pretensões a finos.

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Mesmo a comida de rua, à qual vi muitos turistas jovens e menos jovens recorrer, se apresenta em bancas e carrinhos limpíssimos, com bom aspecto. Curiosamente, num país onde a primeira recomendação é para não se beber água da rede pública, a higiene das bancas de comida e das cozinhas dos restaurantes não deixa de ser notável. Muitos destes oferecem cursos de culinária tradicional laociana. Nalguns tive dificuldade em perceber qual dos negócios seria o principal, se o restaurante se a escola.

20180331_182330.jpgRegisto, igualmente, os óptimos batidos de fruta, de toda a variedade e diferentes misturas. A cerveja mais conhecida é a Beerlao nas suas três variedades, encontrando-se facilmente cervejas de outras origens. Há mesmo bares que anunciam cervejas artesanais belgas e francesas. Há imensos chás, café para os bons apreciadores não falta, assim como o vinho, cujo preço é bem menos taxado do que nos vizinhos da Tailândia e do Vietname, e bons queijos franceses.

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O preço relativamente económico do álcool, se comparado com outros países, talvez justifique a profusão de cafés, bares e outros espaços de socialização, na sua maioria aprazíveis. Para além do Governor’s Grill and Bar, no Sofitel, um pouco carote (caríssimo para os padrões locais) e afastado do centro da cidade, mas a merecer uma visita, com uma boa biblioteca (para bar), recomendo o Chez Matt, o Dexter (há um em Banguecoque do mesmo dono, com um bom gin tónico) ou as esplanadas da SaSa Cruises, do Apsara e do Tamarind, estas duas do lado do rio Nham Kan, e ainda a do Utopia, com a vista mais fabulosa deste rio, aconselhável para os saudosos do Woodstock, da geração hippie e do Maio de 68. Também me falaram do Bar 525 e do Chez Matt nos quais não estive.

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Restaurantes agradáveis não faltam, muitos com pequenas bibliotecas e esplanadas com vistas magníficas para o Mekong. Todos com wifi. O Tangor, que é explorado por franceses, apresenta comida de fusão e paredes bem decoradas. Um dos proprietários é uma francesa com ligações ao Algarve. A comida é boa, tem uma óptima esplanada, paredes pintadas com mapas da Indochina e desenhos de Corto Maltese, mas se tiver o azar de ficar numa das mesas para o interior do restaurante corre o risco de sair de lá a cheirar a comida. L´Elephant Vert é uma opção vegetariana. Para quem gosta de comida italiana o La Rosa pareceu-me simpático, numa rua tranquila e com esplanada. Há óptimas padarias onde se podem tomar bons “mata-bichos”, com pão de excepcional qualidade, uma delas escandinava, próximo do Hotel 3 Nagas. Quem ficar neste não tem com que se preocupar porque o pequeno-almoço normalmente está incluído e toma-se do outro lado da Shakkalin Road, no anexo, junto a um dos únicos dois Citröen de 1953 ((um pertence ao Hotel, o outro está na garagem do Palácio Real e era pertença do Rei). Há, para além deste, outros clássicos espalhados pela cidade, todos bem restaurados e devidamente conservados, tanto quanto me apercebi constituindo propriedade de hotéis.

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10 comentários

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De Sarin a 14.04.2018 às 20:19

Tenho viajado pelo Laos com os seus postais.
Longos, descritivos, ilustrados, permitem espreitar cantos e imaginar passos.

Manter e partilhar em viagem um registo dessa mesma viagem nem sempre será compatível com estilismos e revisões.
Ainda assim, não resisto a repetir a idiossincrasia do negócio bovino laosiano: "A carne de vaca em regra é de búfalo". Garanto-lhe que nunca mais olharei o Mozzarella da mesma maneira! :)

Boas viagens e dias bons
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De Sérgio de Almeida Correia a 14.04.2018 às 20:42

Tem toda a razão.
Da família dos bovídeos será, mas não é vaca.
Agradeço o seu oportuno e humorado reparo.
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De Vlad a 14.04.2018 às 21:29

Aproveite!

Tailândia tem uma das melhores gastronomias do mundo...que inveja!!
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De Anónimo a 14.04.2018 às 21:46

Seja-me permitido, belíssimo post. De entre as fotografias, para lá da arquitectura e gastronomia, achei imensa piada à "arrastadeira" vermelha. Tenho uma série de fotografias desses carros franceses, de uma caravana turística francesa que há tempos andou por Portugal e visitou a minha aldeia de "Monsanto"
Boa viagem.
António Cabral
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De Beatriz Santos a 14.04.2018 às 23:13

Um país que pode ser o paraíso dos comilões e dos bons gourmants.
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De Pedro Correia a 15.04.2018 às 08:56

Excelente reportagem, Sérgio. Graças a esta série, é como se viajássemos contigo.
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De Luís Lavoura a 16.04.2018 às 09:38

Uma das coisas que mais me traumatizou quando estive na Índia foi o não poder beber água à vontade, de onde quer que fosse. Só podia beber água engarrafada, tinha que andar sempre a comprá-la e carregar com ela.
Foi uma experiência bastante desagradável, que não desejo repetir.
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De Luís Lavoura a 16.04.2018 às 09:42

Restaurantes agradáveis não faltam, muitos com pequenas bibliotecas e esplanadas com vistas magníficas para o Mekong. Todos com wifi.

Eu questiono se estes restaurantes (e também os hotéis limpíssimos) que o Sérgio descreve são estabelecimentos normais, frequentados pelos habitantes locais, ou se são de facto estabelecimentos especiais frequentados somente pelos turistas e por uma elite laociana muito restrita.
É que me parece que o Sérgio não está a descrever os estabelecimentos normais, mas sim alguns muito particulares que ele, como a sua moeda forte, se pode dar ao luxo de frequentar.
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De Sérgio de Almeida Correia a 16.04.2018 às 10:02

Mesmo os hostels e restaurantes mais modestos têm wifi e são muito asseados, em especial os sanitários. Esses estabelecimentos são na maioria propriedade de locais e encontrei muitos locais nalguns daqueles por que passei. E em matéria de higiene pedem meças aos sanitários de muitos restaurantes e cafés nacionais. Disso pode ter a certeza.
Não é um problema de moeda, é de cultura. Como até se pode ver nas bancas de produtos e de comida que se vêem nas ruas e mercados.

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