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Diário semifictício de insignificâncias (35)

por José António Abreu, em 27.01.18

Uma das poucas coisas que dão satisfação à minha mãe é agora já poder morrer. Até há poucas semanas, se morresse não poderia ser sepultada na campa dos pais. Uma das três irmãs (todas mais novas) antecipara-se. Todavia, agora já passou o número de anos suficiente para que o enterro naquela campa volte a ser possível. Foi a melhor notícia que ela teve nos últimos tempos.

Não sei se me sinta satisfeito por ela (com ela), se deprimido. Frequentemente, eu apanhava-me a pensar que o raio do prazo era o principal motivo para ela se manter viva. Agora, resto eu, que estou quase sempre longe, e, em menor grau, o meu pai, que hoje em dia a preocupa e exaspera em igual medida.

Ainda por cima, sobra-lhe uma irmã. É certo que se trata da mais nova de todas, e que parece andar de boa saúde, mas não deixa de constituir um risco apreciável: a minha mãe não o admite, mas aquilo que neste momento mais a assusta é poder ver-se novamente ultrapassada na corrida à campa dos pais.


8 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 27.01.2018 às 23:32

A minha mãe enviuvou aos 57 anos, a mesma idade que o meu pai tinha quando nos deixou. Já vai para 24 anos.
Todos os anos, desde 1994, em todas as reuniões familiares, reitera o seu cansaço pela vida e garante aos presentes que é o último ano que estará presente naquele ou noutros eventos com a família. Isto para animar as hostes é do melhor que há. Acredito qua minha mãe prepara cuidadosamente o discurso da praxe com as variações que as circunstâncias do momento impõem.
Ultimamente em todas reuniões , damos a volta ao texto e em vez de acabar o monólogo com a proverbial lágrima, acabamos todos a chorar de tanto rir.
Mas lá no fundo sabemos que um dia a conversa fará todo o sentido.

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De Vlad, o Emborcador a 28.01.2018 às 09:23

Não é a fome mas a morte o nosso melhor cozinheiro.

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De Beatriz Santos a 28.01.2018 às 08:56

Espero conseguir ser diferente, mas não sei. A morte é a preocupação de quem já viveu quase tudo. Não falam dela para lembrar os outros, é um aviso para si mesmos, um autoconvencimento. Creio bem, por mais que o digamos e em alguns momentos o desejemos, que nunca estamos preparados para a morte. Com algumas excepções doentias e pouco normais, o que nos chama é a vida nos seus múltiplos caminhos, daí que não entendamos a morte.
Mas, encontrar um lugar para o corpo é preocupação de muitos. Continuamos a tratar a morte como se vida fosse: queremos ficar junto de quem amámos, quiçá, pertinho dos que nos fizeram mais felizes.
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De Vlad, o Emborcador a 28.01.2018 às 09:04

A morte, como a loucura, pode ser um descanso para os cansados da vida.
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De Vlad, o Emborcador a 28.01.2018 às 10:08

O meu pai e o meu avô paterno lembravam-se mais daqueles que tinham sido do que daqueles que lhe tinham sobrevivido.Comiam a vida de olhos fechados.

Tanto um como outro eram dois perfeitos narcisistas que escondiam a saudade que sentiam deles , numa outra, fingida, dos que já tinham partido. Cuidavam mais dos mortos do que dos vivos. Faziam da auto comiseração palavras cruzadas.
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De FatimaMP a 28.01.2018 às 12:01

Lá no fundo, bem lá no fundo, sempre rola um medinho de "focinho pontiagudo" que, como o mundo, pula e avança dentro de nós, à mistura com um esforço insano para o determos, do tipo "não está nada provado que tenhamos todos que chegar a velhinhos, velhinhos e/ou nos finarmos um dia destes" ... A verdade é que, para já, a vida me interessa muito mais do que o seu reverso, partindo do princípio lavrado e consagrado por eminente filósofa local de que "estar morto é o contrário de estar vivo". Gracias à la vida!
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De Vento a 28.01.2018 às 12:58

No que diz respeito à morte, o que é importante é sermos pontuais. Não vale a pena adiantá-la ou retardá-la na medida em que provoca imensos transtornos à existência.
Diz-se que a morte é a musa dos filósofos. Pois eles alinham sua vida por questões que vão para além do que lhes é possível abarcar.

O cristianismo oferece-nos algo mais substancial: evitar a morte, por isto mesmo afirma "deixai que os mortos cuidem de seus mortos" e evitar a 2ª. morte, aquela que advém dos que vivos se deixam definitivamente morrer nas ondas do que sendo passageiro nada acrescenta a esta Vida.

Concluindo, a Vida Eterna está ao alcance através da Palavra, pois o Verbo se fez carne e habita entre os homens; e também entre as mulheres quando se portam bem e fazem belos cozinhados com aquelas mãos de fada abençoadas de 3 em pipa.
Finalizando, a vida não importa pela sua duração mas pelo emprego que se lhe dá.
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De Luís Lavoura a 29.01.2018 às 09:35

O José António poderia talvez explicar-me como é que isto se passa: quanto tempo tem que passar até que a campa possa voltar a ser utilizada? Quando volta, o que se faz aos caixões e corpos que já lá estavam? Já apodreceram totalmente? Ou ainda não?
Eu peço desculpa por fazer estas perguntas, mas é que realmente não sei, e gostaria que me explicassem.

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