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Diário semifictício de insignificâncias (4)

por José António Abreu, em 11.08.16

O pastor alemão estava outra vez na Praça da Galiza à hora de almoço. Acho estranho, a dona fazê-lo correr com este calor. Mas lá andavam, ela parada à sombra, ele em sprints desenfreados atrás de um pau, a língua balançando fora da boca. Parei um instante a observá-lo. A certa altura, a dona deve ter achado que já bastava e parou de lançar o pau. Ele sentou-se, arfando, a língua ainda e sempre pendurada, o olhar oscilando entre a face da dona e o galho caído na relva.

Fico maravilhado com a capacidade de coordenação de movimentos dos cães. Não quando correm atrás de um pau ou de uma bola, como aquele fizera momentos antes. Nessas alturas, até me parecem desengonçados. Mas quando os vejo ofegantes, com cinco centímetros de língua de fora, surpreende-me que consigam sempre fechar a boca sem a trincar. Tenho vontade de lhes fazer festas e de lhes dizer: «Bom trabalho.» De lhes dar um biscoito. A minha língua é muito mais curta, tento mantê-la dentro da boca em quase todas as circunstâncias (mesmo no Verão, em que suo as estopinhas) e, ainda assim, mordo-a com frequência.

Não devia generalizar a partir da minha experiência, mas há uma inteligência profunda em evitar os erros mais básicos que os humanos têm vindo a perder.


2 comentários

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De Vento a 11.08.2016 às 23:39

Em sentido figurativo, na sociedade que vivemos vertemos águas para apagar incêndios, para inundar os diferentes campos, convencidos que lhes damos mais fertilidade, aliviarmos nossas frustrações, mas também como que prova de vida, para afirmar que aqui estamos. Já me surpreende que com tanta água em circulação nunca a queiramos em nossos capotes, sacudindo-a, mesmo quando a produzimos. Vivemos uma época em que bebemos mais que a transpiração (trabalho) que se produz. E é natural que com a fonte tão cheia seja difícil conter a torneira.

Há uns anos, muito antes das alterações sociais que se produziram, alguém afirmava que o terrorismo das sociedades modernas residiria no excesso de informação, naturalmente incluindo a contra-informação. Foi um acto de precognição do autor.
Não sei se estamos (ou queremos estar) suficientemente disciplinados para escutar a nossa própria voz, escutar o silêncio. E também não sei se será o momento adequado para fechar a torneira.
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De BELIAL a 28.08.2016 às 09:40

Tem razão.

Pessoalmente, gosto mais dos fox terrier. Sendo certo que jamais tive ou cão, como gostaria - devido à perda de autonomia e obrigações concomitantes. Cocó, xixi, passeá-los (sou gordalhufo) i de férias, veterinário, cheiro, pelo, destruição de património doméstico, o desgosto de os ver envelhecer e morrer...

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