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Diário semifictício de insignificâncias (21)

por José António Abreu, em 08.11.16

Os canais de séries estão a repetir episódios pela centésima vigésima oitava vez. Nos canais de notícias debate-se a polémica do momento - política ou futebolística, nem quero saber. Eu devia ir para a cama, mas não tenho vontade. Também não tenho vontade de ler, nem de ouvir música, nem de arrumar os livros e os filmes que se amontoam na mesa existente entre mim e o televisor, nem de fazer qualquer outra coisa de que me consiga agora lembrar - mas decididamente não tenho vontade de ir para a cama.

Em nenhum outro instante fica a inutilidade do ciclo da vida tão exposto como nos momentos de deitar e levantar. É, aliás, irónico: a maioria das pessoas detesta ir para a cama e depois detesta sair dela. É como se a vida fosse um trajecto no vazio, a velocidade constante, e cada momento de deitar e levantar exigisse vencer a inércia.

Um dia destes hei-de procurar confirmar na internet uma ideia antiga: a de que os portugueses se deitam mais tarde do que a maioria dos outros povos. Fazem-no tardíssimo, chateando os vizinhos não apenas com o ruído das vozes e da televisão, mas com pancadas repentinas e arrastares estranhos, parecendo ter decidido mudar os móveis de sítio às duas da manhã - noite após noite após noite. Desconfio que, para os portugueses, ir cedo para a cama (ou ir para a cama, tout court) equivale a desistir de esperar pelo instante em que a vida se alteraria indelevelmente para muito melhor e a reconhecer o falhanço de ter decorrido mais um dia em que ela permaneceu igual. Depois, claro, andam irritadiços e à base de café.

É tarde. Eu devia mesmo ir para a cama.


15 comentários

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De fatima MP a 08.11.2016 às 01:01

Eu também … e lá terá que ser.
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De José António Abreu a 08.11.2016 às 10:56

Bom, nesta altura só me resta esperar que tenha dormido bem... :)
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De Bic Laranja a 08.11.2016 às 02:13

Pois eu só me agora vou deitar. Dilatei o serão ler. Boa noite e até à manhã!
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De José António Abreu a 08.11.2016 às 11:01

A leitura é uma boa justificação. Embora, no meu caso, renda pouco antes de deitar (sinto o dobro da dificuldade para entender frases menos óbvias).
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De Pedro Correia a 08.11.2016 às 08:32

Muito bom, José António. Qualquer dia tens livro.
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De José António Abreu a 08.11.2016 às 11:03

Obrigado, Pedro. Mas não são textos suficientemente bons para um anónimo conseguir editar - e vender.
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De FGL a 08.11.2016 às 10:49

O processo iniciado com o ir para a cama, o deitar, o adormecer e, finalmente, o dormir é, em boa verdade, o "estado mais próximo da morte", ainda que se esteja vivo. Mas não deixa de ser uma proximidade indesejada.
Por isso, eu decididamente nunca tenho vontade de ir para a cama.
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De José António Abreu a 08.11.2016 às 11:06

Bem visto. Talvez recusemos a ideia de adormecer por medo da morte e depois a de acordar por estarmos sob o seu encanto.
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De FGL a 08.11.2016 às 16:44

Nunca tinha pensado na Morte sob essa perspectiva que designou de encanto. Mas, provavelmente até poderá ser isso.
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De V. a 08.11.2016 às 11:18

Bom texto.
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De Costa a 08.11.2016 às 13:28

Irritadiços, à base de café e, parece, consumindo crescentemente antidepressivos e afins. E, convenhamos, sem fim à vista para o que leva a essas condições. Creio que tem razão, quando escreve que o falhanço generalizado de se ser português e de cada dia de cada português (suponho que não ofendo intoleravelmente o espírito do seu texto) terá algo a ver com essa desistência que a ida para a cama poderá representar.

Também acontecerá amiúde algo oposto, acredito. Acordar e imediatamente ansiar pelo momento em que, de novo na cama, se apagará a luz e - espera-se - se abandonará isto tudo por umas horas. Despachado mais um dia frustrante e antes de enfrentar o seguinte. Se, grande "se", se conseguir dormir pacificamente.

Tempos interessantes, os nossos.

Costa
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De José António Abreu a 08.11.2016 às 15:33

Sim, acordar para mais um dia banal e sem esperança pode dar vontade de continuar a dormir. E o café já não resolve tudo. No fim do dia, torna até mais difícil volta a adormecer.

É curioso como as pessoas (pelo menos as da classe média) parecem preocupar-se cada vez mais com comidas saudáveis, exercício físico, meditação, etc. (são modas, eu sei, mas ainda assim) e, no entanto, descuram completamente o sono. Não obstante toda a negatividade que anda no ar (infelizmente, muita dela justificada), deitar cedo e (aprender a) dormir mais tempo ajudaria a desanuviar a cabeça - e a tomar decisões mais racionais.
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De Teresa Ribeiro a 08.11.2016 às 17:04

Gostei tanto, Jaa! Cinco estrelas:)
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De José António Abreu a 08.11.2016 às 17:16

Ora bolas, cinco estrelas era bom quando não havia hotéis de sete... :)

(Obrigado, Teresa.)

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