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Diamante bem polido

por João André, em 02.07.20

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Só conhecem Adam Sandler de comédias inanes, sensivelmente idiotas e quase indistinguíveis entre si?

Os desportistas que vêem em filmes têm papéis irrelevantes, são maus actores ou os filmes são veículos sem qualquer interesse?

Têm saudades de filmes sobre cidades, frenéticos e com uma energia contagiante?

Uncut Gems (o IMDb diz-me que em português se chama Diamante Bruto) é o filme para vós.

Peguei no filme porque tinha lido várias coisas interessantes sobre ele no The Ringer. Não tinha muito interesse em ver mais um filme com Adam Sandler e parecia-me que ele esgotara os papéis interessantes ao aparecer em Punch-Drunk Love, de Paul Thomas Anderson. Enganei-me. Os irmãos Safdie, que realizaram e escreverm o filme, injectam um ritmo intenso na história e Sandler dá o corpo a tudo o que lhe atirem. O seu Howard Ratner fala depressa, vive de uma dívida para a outra enquanto distribui roupas e malas Gucci, equilibra uma vida entre Manhattan onde tem o negócio e a amante que é também a sua empregada e a vida familiar, fora da cidade, com a sua mulher que já não o suporta e os filhos, com quem tem relações por mensagem e com quem discute pouco mais que basquetebol.

O ritmo é desde o início completamente alucinado. Os irmãos Safdie (juntamente com Ronald Bronstein) dão a ideia de ter escrito centenas de páginas de diálogo e Sandler faz o seu melhor para o dizer todo no filme. Mesmo quando não se filma mais que Sandler a caminhar pela rua ao telefone, o uso de zoom com câmaras colocadas de longe levam a um constante tremer subtil da imagem que nos transmite o nervosismo das personagens e a incerteza das situações. Outro uso inteligente da câmara é dentro dos carros, com as personagens apertadas e a aumentar a situação de claustrofobia e de cerco que se vai apertando em torno de Ratner. E a solução para todos os seus problemas é uma opala que ele quer vender em leilão.

A opala é o mcguffin que faz avançar o filme, mas são as suas personagens que o fazem respirar. Sandler como Ratner é simplesmente brilhante e faz perguntar porque razão não o vemos mais vezes em papéis dramáticos. As outras personagens, mesmo com tempo limitado, conseguem respirar e ter espessura. Julia Fox é uma revelação como Julia, a namorada de Ratner. Idina Menzel tem uma interpretação de enorme subtileza e espessura como a mulher de Ratner. Lakeith Stanfield demonstra novamente (pelo menos para mim), o alcance das suas capacidades dramáticas como Demani, um colaborador de Ratner que lhe traz potenciais clientes. No entanto é Kevin Gernett, a representar uma versão semi-imaginada dele próprio, que rouba o filme.

Garnett atrai qualquer atenção por causa da sua estatura (2,11 m). Um plano que o inclua a ele e a outros actores vai levar à existência de muito espaço não preenchido por outras pessoas. Os irmãos Safdie compreendem isto e normalmente filmam Garnett de forma individual, em grandes planos ou, se necessário com outros actores, enchendo o cenário de objectos. Isso não impede Garnett de agarrar as cenas. Para quem não saiba, Kevin Garnett foi um jogador de basquetebol da NBA. Era um dos melhores da sua geração e visto como uma dos melhores jogadores de sempre na sua posição. Era também conhecido como um jogador de enorme intensidade, tanto com a bola como a comunicar com outros jogadores.

Isso é facilmente visível no filme. Há uma ou outra frase que não sai com a convicção que se esperaria de um actor profissional, mas a intensidade do olhar de Garnett, a sua presença, os seus silêncios e o seu à vontade no mundo de alta velocidade em volta dele, acabam por ser magnéticos. A melhor cena do filme é quando, perto do fim, Ratner faz uma espécie de discurso/pedido a Garnett. Este fica calado a maior parte do tempo, mas a energia da cena é palpável e demonstra a química entre ele e Sandler.

Os irmãos Safdie pretendem nos seus filmes capturar as suas experiências a viver e crescer em Nova Iorque, especialmente em certos períodos temporais. Essencial para eles é demonstrar a vida de certas zonas e os hábitos dos judeus da cidade. Fazem-no não como tema, mas como enquadramento, não muito diferente daquilo que Woody Allen foi fazendo ao longo de décadas: criar histórias a partir dos ambientes e vivências pessoais. O resultado final é diferente, mas o paralelo existe e pareceu-me claro. Chamar a este filme um cruzamento entre Scorsese e Allen seria abusivo, mas não completamente errado.

No fim, o filme é essencialmente um dos melhores que vi nos últimos anos. Agarrou-me do princípio ao fim e se o final é algo brutal, não deixa de ser igualmente em linha com o resto do filme. Quando pensamos no momento é como se sempre soubéssemos que aquilo iria acontecer, que as personagens estavam fadadas a terminar assim.

Diamante em bruto? Talvez a pedra do filme. O filme em si é das pedras mais preciosas que se pode ter.

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11 comentários

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De Vorph "ги́ря" Valknut a 02.07.2020 às 12:49

Obrigado pela sugestão. Irei ver. Se não gostar exigirei ser ressarcido pelo João
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De João André a 06.07.2020 às 16:25

Não se fazem devoluções
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 06.07.2020 às 22:29

João, tentamos vê-lo ontem. Desistimos a meio :). Acabamos por ver um com o Denzel Washington, onde ele interpreta um piloto alcoólatra de aviões comerciais. Abraço
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De Maria Dulce Fernandes a 02.07.2020 às 15:17

Foi uma agradável surpresa, este filme. Durante o tempo de quarentena, fui vendo e revendo filmes e séries e este filme estava sempre na calha, mas o Adam Sandler? Passa à frente. Até que calhou e gostei imenso. Num registo completamente diferente, quase oposto ao que nos habituou, agarrou o personagem na perfeição. Vi os vilmes que deram nomeações aos oscars de melhor actor e creio que a academia cometeu (mais) uma grande injustiça.
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De João André a 06.07.2020 às 16:31

Estou de acordo Maria Dulce. Inicialmente até pensei que, sendo uma produção da Netflix, não tivesse tido exibição em cinemas (ate este ano era condição para ser considerado para os óscares) mas depois vi que sim, que teve.
Como melhor filme e melhor realizador, não imagino qualquer filme a bater Parasita, uma obra-prima de um nível histórico e que merece entrar para o panteão dos melhores de sempre (ainda hei-de escrever sobre ele, se conseguir).
Mas merecia sem dúvida nomeações para filme, actores, realização e montagem, pelo menos.
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De ChakraIndigo a 02.07.2020 às 16:19

Fiquei a salivar de tal forma que não vai passar de hoje sem o ver.

Obrigado pela sugestão.
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De João André a 06.07.2020 às 16:31

Conte se gostou ou não.
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De marina a 02.07.2020 às 17:23

lembro-me do Tom Cruise ter ganho o Óscar de melhor actor secundário no "Magnólia" do P:T: Anderson e ter achado muito estranho porque é péssimo actor ,mas efectivamente está bestial como formador em engate , talvez tenha acontecido o mesmo ao Adam Slander , que é horrível de mole e apalermado.
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De João André a 06.07.2020 às 16:48

Não considero Criise um mau actor. Não é fantástico, mas é perfeitamente competente. Só que raramente tem tido material decente. O Cruise de Rain Man, Color of Money e outros era bom.

Já de Sandler só posso dizer que até parece haver um excelente actor por baixo da fachada de palermice
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De o cunhado a 02.07.2020 às 23:00

Eu gostava de ver, mas se calhar não posso porque depois de me tornar leitor do DO o meu tempo é curto para tudo.
Do Pedro Correia tenho em lista a seguir fielmente 732 livros para ler e 271 músicas para ouvir. Ainda do Pedro Correia, depois de ver 72 episódios do Columbo restam-me ansiosamente uns 91 para terminar a série.
Com o "Girevoy" viciei-me na Netflix e não passo sem as 4 horitas da praxe vidrado nela.
Mais umas 3 horas a espiar o André Ventura para estar devidamente habilitado à discussão, no próximo post da Cristina Torrão a sair não tarda nada.
De modo que, não sei. Vou tentar ver mas não juro.
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De João André a 06.07.2020 às 16:48

Lá para 2056 talvez

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