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Delito de Opinião

Dia Kristin + 13

Paulo Sousa, 10.02.26

Com o passar dos dias, a mão já se desabituou de ir instintivamente ao interruptor, mas tal reflexo demorou algum tempo até ser desactivado. Hoje ainda não há electricidade na casa de mais de 100.000 portugueses. Daqui de onde escrevo, a luz já regressou há um par de dias. Agora, mesmo quando está escuro, a mão perdeu o hábito de ir ao interruptor e, em vez disso, vai à testa acender a luz frontal que se tornou companheira inseparável. Toda a gente se habitua a tudo. A água demorou dois dias a regressar às torneiras, e só depois da Câmara ter desencantado uns geradores gigantes que colocou junto dos depósitos de distribuição de água. Soubemos que em alguns lados houve quem lá fosse logo na noite seguinte para roubar o gasóleo e os fios de cobre. Na zona de Leiria, nas noites seguintes os habitantes organizaram-se para os vigiar, e assim conseguiram evitar que a proeza fosse repetida.

Nos primeiros dias, nada funcionava. Foi pelo velho rádio de pilhas que soubemos que afinal a tempestade aqui só tinha passado de raspão. Com todos os olhos da casa focados no pequeno transístor, os mais novos ficaram a saber o que é AM e FM e a placa eléctrica da cozinha foi substituída pelo fogareiro do campismo. Os power banks, que permitem que os telefones continuem a emitir luz, que nesses dias era a única função para que serviam, andavam de mão em mão com a estimação que as coisas preciosas merecem. Um vizinho, que tem uma auto-caravana com um painel solar, carregou-os a todos quantos lá apareceram.

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A um outro vizinho voaram-lhe as telhas todas do barracão onde guardava o carro e a capoeira das galinhas também nunca mais apareceu. Nos barrotes de madeira, agora nus e molhados, sobrou apenas um ninho de vespas que já lhe espetaram duas ferroadelas.

Os frigoríficos e as arcas congeladoras, sem energia, começaram a descongelar. Quanto mais cheias as arcas, mais tempo aguentam e, para evitar mais estragações, limpamos o que ainda sobrava de um borrego. Juntou-se a família e, mesmo debaixo de chuva, o churrasco voltou a funcionar. Algumas refeições em família, à luz de velas e de um velho candeeiro a petróleo, não teriam ocorrido sem a tempestade.

A poucas dezenas de metros da minha casa, um outro familiar ficou com o beirado do telhado partido, assim como uma série de telhas. Lembrei-me de uma lona que para aqui tinha e passamos várias horas desse primeiro dia a fazer furos na parede para a conseguir fixar, até que ele arranjasse telhas para a reparação. Três dos oito choupos que tinha junto à casa não resistiram à tempestade e derrubaram o cabo de fibra da nossa rua. Foi assim que ficámos sem Internet. Os dados móveis demoraram vários dias a começar a chegar, e continuam a conta-gotas. Há uns três dias, uma operadora telefónica mandou um SMS a oferecer dados ilimitados durante um mês. Pode não ser paródia, mas já ficamos a saber o que é que um eunuco sente num harém.

Na rua mais acima, a net por fibra já regressou, mas ainda não há electricidade. Mal escurece, arrancam os geradores. Os idosos, que aproveitam todos os raios de sol para cuidar dos canteiros no quintal, estão fechados em casa e sem luz ou à luz das velas. Os programas da TV, que passam a vida a encher chouriços, afinal são também um estímulo sensorial que, quando desligados, acabam por fazer falta. Os que se dispõem a isso, passam o dia a rezar.

Nos primeiros dias, os Bombeiros não tiveram parança. Cruzei-me com o Comandante e depois de lhe ter roubado um minuto a oferecer ajuda, fui com uma motosserra abrir a passagem de uma estrada bloqueada com oito pinheiros. Nesse dia à tarde, repeti a receita nos caminhos dos pinhais.

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Na Marinha Grande e em Leiria é que foi a sério. Entretanto já passei pela Zona Industrial da Marinha e aquilo parece um cenário de guerra. Para além das centenas de pinheiros partidos pelo meio, como palitos, dos pavilhões industriais desfeitos e inúmeros bocados de isolamento a esvoaçar, reparei num sinal de trânsito dobrado pela base.

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Apesar dos problemas que nos causam a todos, as redes sociais estão a servir para fazer pedidos de alguns modelos de telhas. A fábrica da Margon, que funcionava aqui bem perto, fechou há uns anos. Quem agora precisa de telhas ali fabricadas tem um problema maior para refazer os telhados. Correu a notícia de que alguém vai usar os mesmos moldes para as voltar a fabricar, mas a chuva não vai esperar por elas. Repor telhas de cimento, uma moda dos anos oitenta, é um problema idêntico.

O país demorou a entender a dimensão do acontecimento. Sem comunicações, não era possível passar para fora o que aqui se tinha passado. Ouvi contar que o presidente da Câmara de Leiria demorou a primeira manhã toda só para conseguir reunir fisicamente com os presidentes de Junta. Sem telefones, alguém teve de se deslocar para os ir buscar pessoalmente, mas muitas estradas estavam interrompidas com árvores derrubadas.

As estruturas de emergência não parecem estar bem organizadas, nem dimensionadas, para uma coisa desta monta. Alivia poder descarregar a fúria nos senhores a que normalmente designamos por Estado, ora que a culpa é deste governo porque devia estalar os dedos para que tudo regressasse ao normal, ora é do anterior que deixou tudo por fazer, ora é da E-Redes que é um monopólio e cujos donos, os chineses, só se preocupam com os dividendos mínimos a receber, mas como disse aqui há dias, nestas horas entendemos bem que estamos mesmo por nossa conta.

Felizmente, nunca sofri da necessidade de ter um carro moderno, o mais novo cá de casa tem mais de vinte anos, mas esforço-me por que estejam operacionais e não têm desiludido. Dá-se à chave, fazem barulho e emitem fumo, e levam-me onde é preciso. Muitos dos que investiram nos modernos e silenciosos têm-nos agora fechados em casa com medo de ficar a pé.

É certo que se isto tivesse acontecido em Lisboa nunca a esta hora haveria 100.000 pessoas sem electricidade. Estamos a falar de algo como as freguesias do Areeiro, Marvila e Lumiar combinadas. Pode argumentar-se que por estarem mais concentradas seria mais fácil resolver o assunto, mas 13 dias depois já teriam vindo geradores da Europa toda, para acudir à população.

Apenas porque já não acreditava neles, a mim não me desiludiram, mas este abandono a que estamos votados é também um dos combustíveis dos populistas que para tudo prometem soluções fáceis e instantâneas.

Após os primeiros dias, às primeiras mensagens que recebemos, a resposta foi sempre a mesma, estamos inteiros e o resto resolve-se. Se fosse agora acrescentava que seguimos em frente, sim, mas com os pés mais assentes na terra, mais conscientes da fragilidade das nossas rotinas, com uma lista de coisas a adquirir para lidar com surpresas e, no fundo, mais conhecedores do mundo à nossa volta.

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